|
N.º 1 — 2003 |
|
História da Ética Moderna: Introdução Stephen Darwall Department of Philosophy – University of Michigan I Este curso vai começar
com a
origem da filosofia moral moderna no século XVII e terminar com Nietzsche,
passando pelo Iluminismo. Podemos destacar duas razões para estudar este
período. A)
Uma
delas é a continuidade relativamente à filosofia moral contemporânea.
Nos séculos XVII e XVIII conjugaram-se vários factores que criaram um
contexto para um tipo de reflexão filosófica sobre a ética que se
prolongou até aos nossos dias: i) O declínio da ciência aristotélica foi acompanhado pela crítica às concepções da ordem
moral que dependiam de uma metafísica teológica. Os fundamentos metafísicos
tomistas da ética (São Tomás (1224-1274)), que consistiam numa espécie
de cristianismo aristotelizado, deram lugar a um voluntarismo teológico
mais nominalista, segundo o qual as nossas obrigações derivavam das
ordens de Deus.[1] ii)
A Reforma (Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564)): a) Através da experiência e razão individuais, questionou-se e examinou-se
cada vez mais a autoridade institucional religiosa tradicional. Defendia-se que a autenticidade ou sinceridade da relação individual
interior com Deus era mais importante do que a conformidade às
formalidades religiosas exteriores. b) Decorreram guerras religiosas longas e sangrentas na Europa – em França e
Inglaterra, por exemplo – que abalaram severamente a confiança na ideia
de que uma religião comum podia constituir a base de uma ordem social estável.
Com a doutrina da tolerância religiosa surgiu, embora apenas nos países
cristãos, uma ideia importante do liberalismo contemporâneo: a ideia de
que é preciso encontrar uma base para a cooperação social justa que não
pressuponha qualquer acordo em questões de fé entendidas num sentido
amplo. iii)
Surgiu
um interesse renovado pelos textos gregos antigos, não só de Platão e
Aristóteles (apesar de Aristóteles estar negativamente associado a
Aquino e ao escolasticismo), mas também dos filósofos helenísticos
(epicuristas, estóicos e cépticos). Esse interesse estendeu-se a
autores latinos mais eclécticos, como Cícero e Séneca, que se inseriam
especialmente na tradição estóica. iv)
O interesse por questões epistemológicas, sobretudo pelo cepticismo: não
só pelo cepticismo antigo enquanto modo de vida, mas também pelo
cepticismo quanto a um fundamento adequado da ética, análogo ao
cepticismo cartesiano. Montaigne é uma figura importante a este respeito. B)
Nas
últimas décadas surgiu toda uma crítica à filosofia moral ortodoxa
segundo a qual esta baseia-se numa visão da moralidade – especialmente
da obrigação moral – que tem a sua origem em pressupostos cristãos pré-modernos,
mas que os filósofos iluministas tentaram em vão desenvolver em termos
seculares. A este respeito são proeminentes Anscombe, «Modern Moral
Philosophy» (1957) Alasdair MacIntyre, After Virtue (1981) e
Bernard Williams, Ethics and the Limits of Philosophy (1985). Isto
proporciona outra razão para investigar aquilo a que MacIntyre chamou «o
projecto do Iluminismo». II Para contextualizar a
leitura de Hobbes, e para perceber quão radical foi a ruptura com o
passado para que ele contribuiu, é útil referir os elementos principais
do pensamento tomista e escolástico ortodoxo, que no essencial consistiu
numa combinação do artistotelismo com o cristianismo. A) Esta
tradição incorporava a metafísica teleológica de Aristóteles:
qualquer categoria natural ou espécie, incluindo a nossa, é definida em
parte pelo seu telos distinto. A vida boa de um indivíduo é
determinada pela sua natureza enquanto ser humano: consiste na vida boa
para um indivíduo humano. B) Dado
que a natureza como um todo é teleológica, quando cada indivíduo busca
o fim próprio da sua espécie está a desempenhar o papel que lhe compete
na ordem total – e isto também se aplica aos seres humanos individuais.
Assegura-se assim uma verdadeira harmonia de interesses. C) O
cristianismo acrescentou os seguintes elementos: 1.
A natureza foi criada por Deus como um todo teleológico. 2.
O pensamento racional faz parte do funcionamento especificamente humano, e
este envolve a capacidade de seguir directivas cuja observância nos
permite alcançar o nosso bem enquanto seres humanos. Estas directivas
constituem uma lei natural e emanam de Deus. Ele manda-nos obedecer-lhes
para nosso próprio bem. Assim, por oposição às outras criaturas, alcançamos
o nosso bem seguindo directivas que nos foram dadas para nosso próprio
bem. J. B. Schneewind
descreve a imagem resultante como o modelo ético da «Corporação Divina».[2]
Imaginemos indivíduos que fazem parte de um esforço cooperativo para
realizar um bem sumamente valioso e que cada tipo de criatura tem um papel
a desempenhar na realização desse bem. Algumas criaturas desempenham
instintivamente o seu papel, mas outras (as racionais) tornam-se
conscientes da sua função através das directivas do seu patrão. O patrão
atribui tarefas infalivelmente e sabe-se infalivelmente que ele atribui
tarefas, mas embora cada indivíduo saiba isto ninguém conhece o grande
plano. As directivas são sempre universais (para a espécie),
categoricamente prioritárias e susceptíveis de ser seguidas. III No
período moderno, tanto a metafísica (a visão teleológica do mundo) como
a epistemologia (a razão entendida como a intuição de essências) desta
posição ficaram sob uma pressão crescente. E isto criou aquele que se
pode considerar o problema central da ética moderna: como seria possível
defender filosoficamente uma base para a ordem social que não dependesse
dos anteriores pressupostos metafísicos e epistemológicos? [1]
Tenha isto em mente quando ler Hobbes. [2]
Os estudantes licenciados podem ler «The Divine
Corporation and the History of Ethics» in Rorty, Schneewind e Skinner,
Philosophy in History (Cambridge, 1984). ©
Stephen Darwall. Tradução: ©
Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados. Publicado com a autorização do autor.
|