N.º 1 — 2003

Autor de Impartial Reason (1983), The British Moralists and the Internal "Ought": 1640-1740 (1995), Philosophical Ethics (1998) e Welfare and Rational Care (2002), Stephen Darwall organizou recentemente quatro antologias fundamentais de ética normativa: Consequentialism, Contractarianism/Contractualism, Deontology e Virtue Ethics.:

História da Ética Moderna: Introdução

Stephen Darwall

Department of Philosophy – University of Michigan

I

Este curso vai começar com a origem da filosofia moral moderna no século XVII e terminar com Nietzsche, passando pelo Iluminismo. Podemos destacar duas razões para estudar este período.

A)   Uma delas é a continuidade relativamente à filosofia moral contemporânea. Nos séculos XVII e XVIII conjugaram-se vários factores que criaram um contexto para um tipo de reflexão filosófica sobre a ética que se prolongou até aos nossos dias:

i)    O declínio da ciência aristotélica foi acompanhado pela crítica às concepções da ordem moral que dependiam de uma metafísica teológica. Os fundamentos metafísicos tomistas da ética (São Tomás (1224-1274)), que consistiam numa espécie de cristianismo aristotelizado, deram lugar a um voluntarismo teológico mais nominalista, segundo o qual as nossas obrigações derivavam das ordens de Deus.[1]

ii)    A Reforma (Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564)):

a)   Através da experiência e razão individuais, questionou-se e examinou-se cada vez mais a autoridade institucional religiosa tradicional. Defendia-se que a autenticidade ou sinceridade da relação individual interior com Deus era mais importante do que a conformidade às formalidades religiosas exteriores.

b)   Decorreram guerras religiosas longas e sangrentas na Europa – em França e Inglaterra, por exemplo – que abalaram severamente a confiança na ideia de que uma religião comum podia constituir a base de uma ordem social estável. Com a doutrina da tolerância religiosa surgiu, embora apenas nos países cristãos, uma ideia importante do liberalismo contemporâneo: a ideia de que é preciso encontrar uma base para a cooperação social justa que não pressuponha qualquer acordo em questões de fé entendidas num sentido amplo.

iii)   Surgiu um interesse renovado pelos textos gregos antigos, não só de Platão e Aristóteles (apesar de Aristóteles estar negativamente associado a Aquino e ao escolasticismo), mas também dos filósofos helenísticos  (epicuristas, estóicos e cépticos). Esse interesse estendeu-se a autores latinos mais eclécticos, como Cícero e Séneca, que se inseriam especialmente na tradição estóica.

iv)   O interesse por questões epistemológicas, sobretudo pelo cepticismo: não só pelo cepticismo antigo enquanto modo de vida, mas também pelo cepticismo quanto a um fundamento adequado da ética, análogo ao cepticismo cartesiano. Montaigne é uma figura importante a este respeito.

B)   Nas últimas décadas surgiu toda uma crítica à filosofia moral ortodoxa segundo a qual esta baseia-se numa visão da moralidade – especialmente da obrigação moral – que tem a sua origem em pressupostos cristãos pré-modernos, mas que os filósofos iluministas tentaram em vão desenvolver em termos seculares. A este respeito são proeminentes Anscombe, «Modern Moral Philosophy» (1957) Alasdair MacIntyre, After Virtue (1981) e Bernard Williams, Ethics and the Limits of Philosophy (1985). Isto proporciona outra razão para investigar aquilo a que MacIntyre chamou «o projecto do Iluminismo».

 

II

Para contextualizar a leitura de Hobbes, e para perceber quão radical foi a ruptura com o passado para que ele contribuiu, é útil referir os elementos principais do pensamento tomista e escolástico ortodoxo, que no essencial consistiu numa combinação do artistotelismo com o cristianismo.

A)   Esta tradição incorporava a metafísica teleológica de Aristóteles: qualquer categoria natural ou espécie, incluindo a nossa, é definida em parte pelo seu telos distinto. A vida boa de um indivíduo é determinada pela sua natureza enquanto ser humano: consiste na vida boa para um indivíduo humano.

B)   Dado que a natureza como um todo é teleológica, quando cada indivíduo busca o fim próprio da sua espécie está a desempenhar o papel que lhe compete na ordem total – e isto também se aplica aos seres humanos individuais. Assegura-se assim uma verdadeira harmonia de interesses.

C)   O cristianismo acrescentou os seguintes elementos:

1.    A natureza foi criada por Deus como um todo teleológico.

2.    O pensamento racional faz parte do funcionamento especificamente humano, e este envolve a capacidade de seguir directivas cuja observância nos permite alcançar o nosso bem enquanto seres humanos. Estas directivas constituem uma lei natural e emanam de Deus. Ele manda-nos obedecer-lhes para nosso próprio bem. Assim, por oposição às outras criaturas, alcançamos o nosso bem seguindo directivas que nos foram dadas para nosso próprio bem.

J. B. Schneewind descreve a imagem resultante como o modelo ético da «Corporação Divina».[2] Imaginemos indivíduos que fazem parte de um esforço cooperativo para realizar um bem sumamente valioso e que cada tipo de criatura tem um papel a desempenhar na realização desse bem. Algumas criaturas desempenham instintivamente o seu papel, mas outras (as racionais) tornam-se conscientes da sua função através das directivas do seu patrão. O patrão atribui tarefas infalivelmente e sabe-se infalivelmente que ele atribui tarefas, mas embora cada indivíduo saiba isto ninguém conhece o grande plano. As directivas são sempre universais (para a espécie), categoricamente prioritárias e susceptíveis de ser seguidas.

 

III

No período moderno, tanto a metafísica (a visão teleológica do mundo) como a epistemologia (a razão entendida como a intuição de essências) desta posição ficaram sob uma pressão crescente. E isto criou aquele que se pode considerar o problema central da ética moderna: como seria possível defender filosoficamente uma base para a ordem social que não dependesse dos anteriores pressupostos metafísicos e epistemológicos?



[1] Tenha isto em mente quando ler Hobbes.

[2] Os estudantes licenciados podem ler «The Divine Corporation and the History of Ethics» in Rorty, Schneewind e Skinner, Philosophy in History (Cambridge, 1984).  


© Stephen Darwall. Tradução: © Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados.

Publicado com a autorização do autor.