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Dizem
no dicionário que o termo «trólei» é um aportuguesamento de «trolley», mas
aparentemente a palavra inglesa é mais inclusiva, chegando mesmo
a abranger coisas como carrinhos de compras. A um «trolley» como
o desta imagem, por exemplo, costumamos chamar «eléctrico».
No entanto, uma revista chamada «eléctrico» não teria graça absolutamente
nenhuma, e o problema filosófico do «trolley» torna-se
demasiado implausível com carrinhos de compras. Assim,
fiquemo-nos pelo
termo aportuguesado, até porque esta revista consistirá em
grande medida no aportuguesamento de materiais filosóficos de
qualidade actualmente só disponíveis em inglês. |
Nota
de Apresentação
Pedro
Galvão
Embora
para mim a natureza exacta dos tróleis permaneça um pouco enigmática,
como talvez se possa adivinhar pela legenda à direita, a escolha do termo
«trólei» para intitular esta revista não encerra qualquer mistério
profundo. Esta
escolha deve-se ao chamado «trolley problem» — um problema de ética
filosófica que já fez correr muita tinta entre os que a praticam na
tradição analítica. O problema resulta de um cenário introduzido na
literatura filosófica por Philippa Foot que, devido sobretudo ao
tratamento que lhe foi dado por Judith Jarvis Thomson, conquistou uma
certa proeminência nos debates de ética normativa e multiplicou-se em
infindáveis variantes. Mas que problema é este? Seria imperdoável
deixar isso por esclarecer numa revista com este nome.
Bom,
imagine que está a conduzir um trólei. De repente, depara-se com cinco
trabalhadores na linha e tenta travar, mas nesse preciso instante descobre
que os travões deixaram de funcionar. Apercebe-se imediatamente de que os
trabalhadores não podem fugir e serão todos mortalmente atropelados. Mas
há uma (e apenas uma!) hipótese de evitar a sua morte:
basta desviar o veículo para outra linha. Só que nessa linha está
um outro trabalhador precisamente nas mesmas circunstâncias... Ainda
assim, será eticamente permissível desviar o veículo? Consta que as «intuições
morais» (é este o termo técnico para os nossos palpites infundados em
questões éticas) da maior parte das pessoas se traduzem num sim
— nessas circunstâncias é permissível desviar o veículo e talvez até
seja obrigatório desviá-lo. Mas mudemos de cenário. Imagine agora que
é um cirurgião confrontado com cinco pacientes que morrerão muito em
breve se não receberem um transplante. Não é possível obter a tempo os
órgãos necessários de um doador já morto, mas há no hospital um
paciente a recuperar de uma operação que, se for morto com uma injecção,
proporcionará todos esses órgãos. Será eticamente aceitável injectar
secretamente a substância letal no paciente? Não, é o que nos
dizem agora as nossas intuições, e assim surge o problema do trólei:
dado que em ambos os cenários coloca-se a hipótese de salvar cinco
pessoas matando uma, por que razão só no cenário do trólei essa
hipótese se nos afigura aceitável? É este o problema. Se investigar,
descobrirá que não é fácil resolvê-lo. E descobrirá também o que
faz do problema do trólei um símbolo da imaginação conceptual e da
criatividade argumentativa que encontramos na melhor ética filosófica
— um símbolo daquilo que esta revista procurará promover.
Esclarecendo
agora a natureza da Trólei, posso adiantar que, para além da ética
filosófica (ou filosofia moral) e da filosofia política, poderão ser
aqui contemplados temas de, por exemplo, filosofia da acção ou filosofia
da mente que mantenham uma forte conexão com problemas filosóficos de
natureza ética e política. A história da filosofia moral e política
também será sempre bem-vinda. No que diz respeito a restrições, mais
do que os temas a abordar interessa o estilo da abordagem — e
neste aspecto devo sublinhar que a Trólei não tolerará a obscuridade e
privilegiará decididamente a clareza e o rigor argumentativos. Alguns dos
materiais serão acessíveis até para estudantes do secundário; outros
serão mais técnicos. Serão aqui publicados artigos, notas de aulas e
notas de leitura — e espero que em todas as edições seja possível
incluir uma entrevista ou alguma peça humorística ou ficcional. O
aspecto mais ambicioso da Trólei prende-se à periodicidade: publicá-la
quatro vezes por ano não vai ser fácil. Felizmente, tudo indica que esta
será a única edição publicada sob a minha exclusiva responsabilidade,
e que a revista será cada vez mais o resultado do trabalho colectivo dos
membros do Centro de Ética Aplicada da Sociedade Portuguesa de Filosofia.
Mas a colaboração exterior, obviamente, será muito bem-vinda.
©
Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados.
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