N.º 1 — 2003

 

Dizem no dicionário que o termo «trólei» é um aportuguesamento de «trolley», mas aparentemente a palavra inglesa é mais inclusiva, chegando mesmo a abranger coisas como carrinhos de compras. A um «trolley» como o desta imagem, por exemplo, costumamos chamar «eléctrico».  No entanto, uma revista chamada «eléctrico» não teria graça absolutamente nenhuma, e o problema filosófico do «trolley» torna-se demasiado implausível com carrinhos de compras. Assim, fiquemo-nos pelo termo aportuguesado, até porque esta revista consistirá em grande medida no aportuguesamento de materiais filosóficos de qualidade actualmente só disponíveis em inglês.

Nota de Apresentação

Pedro Galvão

Embora para mim a natureza exacta dos tróleis permaneça um pouco enigmática, como talvez se possa adivinhar pela legenda à direita, a escolha do termo «trólei» para intitular esta revista não encerra qualquer mistério profundo.  Esta escolha deve-se ao chamado «trolley problem» — um problema de ética filosófica que já fez correr muita tinta entre os que a praticam na tradição analítica. O problema resulta de um cenário introduzido na literatura filosófica por Philippa Foot que, devido sobretudo ao tratamento que lhe foi dado por Judith Jarvis Thomson, conquistou uma certa proeminência nos debates de ética normativa e multiplicou-se em infindáveis variantes. Mas que problema é este? Seria imperdoável deixar isso por esclarecer numa revista com este nome.

Bom, imagine que está a conduzir um trólei. De repente, depara-se com cinco trabalhadores na linha e tenta travar, mas nesse preciso instante descobre que os travões deixaram de funcionar. Apercebe-se imediatamente de que os trabalhadores não podem fugir e serão todos mortalmente atropelados. Mas há uma (e apenas uma!) hipótese de evitar a sua morte:  basta desviar o veículo para outra linha. Só que nessa linha está um outro trabalhador precisamente nas mesmas circunstâncias... Ainda assim, será eticamente permissível desviar o veículo? Consta que as «intuições morais» (é este o termo técnico para os nossos palpites infundados em questões éticas) da maior parte das pessoas se traduzem num sim — nessas circunstâncias é permissível desviar o veículo e talvez até seja obrigatório desviá-lo. Mas mudemos de cenário. Imagine agora que é um cirurgião confrontado com cinco pacientes que morrerão muito em breve se não receberem um transplante. Não é possível obter a tempo os órgãos necessários de um doador já morto, mas há no hospital um paciente a recuperar de uma operação que, se for morto com uma injecção, proporcionará todos esses órgãos. Será eticamente aceitável injectar secretamente a substância letal no paciente? Não, é o que nos dizem agora as nossas intuições, e assim surge o problema do trólei: dado que em ambos os cenários coloca-se a hipótese de salvar cinco pessoas matando uma, por que razão só no cenário do trólei essa hipótese se nos afigura aceitável? É este o problema. Se investigar, descobrirá que não é fácil resolvê-lo. E descobrirá também o que faz do problema do trólei um símbolo da imaginação conceptual e da criatividade argumentativa que encontramos na melhor ética filosófica — um símbolo daquilo que esta revista procurará promover.

Esclarecendo agora a natureza da Trólei, posso adiantar que, para além da ética filosófica (ou filosofia moral) e da filosofia política, poderão ser aqui contemplados temas de, por exemplo, filosofia da acção ou filosofia da mente que mantenham uma forte conexão com problemas filosóficos de natureza ética e política. A história da filosofia moral e política também será sempre bem-vinda. No que diz respeito a restrições, mais do que os temas a abordar interessa o estilo da abordagem — e neste aspecto devo sublinhar que a Trólei não tolerará a obscuridade e privilegiará decididamente a clareza e o rigor argumentativos. Alguns dos materiais serão acessíveis até para estudantes do secundário; outros serão mais técnicos. Serão aqui publicados artigos, notas de aulas e notas de leitura — e espero que em todas as edições seja possível incluir uma entrevista ou alguma peça humorística ou ficcional. O aspecto mais ambicioso da Trólei prende-se à periodicidade: publicá-la quatro vezes por ano não vai ser fácil. Felizmente, tudo indica que esta será a única edição publicada sob a minha exclusiva responsabilidade, e que a revista será cada vez mais o resultado do trabalho colectivo dos membros do Centro de Ética Aplicada da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Mas a colaboração exterior, obviamente, será muito bem-vinda.


© Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados.