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N.º 1 — 2003 |
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A Teoria Utilitarista de J. S. Mill: Uma Caracterização Pedro Galvão Departamento de Filosofia – Universidade de Lisboa Em
Utilitarismo, uma das obras incontornáveis da ética filosófica,
John Stuart Mill, dirigindo-se a um público não especializado,
apresentou e defendeu a sua teoria moral com engenho filosófico e, também,
com um notável talento literário e até retórico. Pretendo aqui
esclarecer o conteúdo fundamental de alguns aspectos dessa teoria, e para
o efeito vou concentrar-me no segundo capítulo de Utilitarismo.
Infelizmente, apesar da sua riqueza, concisão e acessibilidade, esta obra
tem sido consideravelmente ignorada na comunidade filosófica portuguesa e
já não existe há muitos anos uma tradução disponível nas nossas
livrarias.[1]
Espero que este ensaio permita pelo menos alimentar a suspeita de que este
é um acidente cultural infeliz. 1.
Consequencialismo
Dado
que a teoria de Mill costuma ser apresentada como um exemplo de
consequencialismo, vou começar por caracterizar as teorias
consequencialistas e mostrar, muito resumida e incompletamente, o que as
distingue das teorias rivais. O
consequencialismo é uma perspectiva sobre a correcção moral
(ou obrigação moral)
— uma perspectiva sobre o que é moralmente certo
ou errado
fazer. Nas suas versões mais directas, aplica-se primariamente a
acções, mas há teorias consequencialistas que se aplicam primariamente
a regras, práticas ou motivos, determinando só derivadamente a correcção
moral das acções.
De
acordo com a caracterização mais influente do consequencialismo,
proposta por Frankena e Rawls, uma teoria consequencialista especifica, em
primeiro lugar, aquilo que é bom
ou mau em termos não morais.[2]
Ao fazer isso, proporciona uma maneira de ordenar estados de coisas:
permite-nos afirmar de uma forma criteriosa que certos estados de coisas são
melhores do que outros. Depois,
uma teoria deste tipo acrescenta que fazer o que está moralmente certo é
maximizar aquilo que é bom.
Assim, agir correcta ou acertadamente é apenas uma questão de dar origem
aos melhores estados de coisas ou resultados. O modo como se dá origem
aos resultados não é directamente relevante. Por isso, o
consequencialista não reconhece qualquer assimetria moralmente
significativa entre actos e omissões, não considera importante
distinguir os efeitos pretendidos dos efeitos meramente previstos das
nossas acções, e nega a existência de direitos que coloquem restrições
à maximização daquilo que é bom. O
consequencialismo define-se então por estabelecer uma certa relação
entre os conceitos de certo e de
bom: define o segundo
independentemente do primeiro, fazendo-o em termos não morais, e define o
primeiro como a maximização daquilo que é bom. Deste modo, apresentar
uma teoria não consequencialista
implica não fazer pelo menos uma destas coisas.[3] Philip
Pettit tenta captar de outra maneira a distinção entre o
consequencialismo e o não consequencialismo. Pettit também distingue as
teorias do bom, que pretendem determinar que coisas e propriedades são
valiosas, das teorias do certo. Estas últimas dizem-nos como devem os
agentes (individuais e institucionais) responder
àquilo que tem valor. Segundo as teorias consequencialistas, a única
resposta apropriada é promover
tanto quanto possível a realização do que tem valor. Os opositores do
consequencialismo pensam que essa nem sempre é a resposta apropriada,
pois os agentes devem antes de mais honrar
com as suas próprias acções aquilo que valorizam, mesmo que ao fazê-lo
contribuam para não promover os valores em questão. Suponha-se, por
exemplo, que um certo governo valoriza a tolerância, e que surge um
movimento político com ideais intolerantes que está a conquistar uma
grande influência. Se esse governo estiver primariamente interessado em
promover a tolerância, não tolerará esse movimento político e, em nome
da tolerância, tomará medidas duras para lhe pôr fim. Mas se esse
governo estiver interessado sobretudo em honrar a tolerância, tolerará o
movimento intolerante, mesmo sabendo que isso se traduzirá num aumento de
intolerância. Pode-se dizer que, se adoptar a primeira atitude, esse
governo estará a reagir de uma forma consequencialista ao valor da tolerância.
Segundo o consequencialismo, qualquer agente
«deve honrar os valores só na medida em que honrá-los faz parte
da sua promoção ou é necessário para promovê-los.» Os
consequencialistas «consideram que a relação entre os valores e os
agentes é instrumental: exige-se que os agentes produzam quaisquer acções
que tenham a propriedade de promover um valor designado, mesmo acções
que intuitivamente não o honrem.» Os que se opõem ao consequencialismo,
pelo contrário, «consideram que a relação entre os valores e os
agentes é não instrumental: os agentes têm a obrigação fazer com que
as suas acções exemplifiquem um valor designado, ou pelo menos podem fazê-lo,
mesmo que isso produza uma menor realização do valor em termos globais.»[4]
O
utilitarismo é a espécie mais influente de consequencialismo, uma espécie
tão influente que por vezes se confunde com o próprio género. Na
terminologia filosófica, aliás, não está estabelecida uma distinção
inteiramente clara entre «utilitarismo» e «consequencialismo». Penso
que a maneira mais esclarecedora de usar estes termos consiste em
especificar duas condições que uma teoria consequencialista tem de
satisfazer para ser considerada utilitarista. Uma
dessas condições diz respeito à natureza daquilo que é bom. Embora os
utilitaristas divirjam profundamente quanto àquilo que deve ser
maximizado, todos se baseiam numa teoria do bom como bem-estar.
O bem-estar de um ser consiste naqueles aspectos da sua vida que a tornam
boa para si próprio. O
utilitarista, ao defender que se deve maximizar o bem-estar, distingue-se
do consequencialista que apresenta como bem a maximizar algo que é visto
como bom independentemente de ser bom para alguém. Se um
consequencialista defender, por exemplo, que interessa sobretudo maximizar
a realização de coisas belas ou a preservação de ecossistemas,
independentemente do modo como as coisas belas ou os ecossistemas afectam
a vida dos seres dotados de bem-estar, não está a propor uma teoria
utilitarista. A
segunda condição consiste numa exigência de imparcialidade: o
utilitarista pensa que se deve maximizar o bem-estar atribuindo o
mesmo peso ao bem-estar de todos os seres afectados pelas nossas acções.
Um consequencialista que defenda, por exemplo, que a nossa obrigação
moral básica é maximizar o nosso próprio bem-estar, não está a propor
uma teoria utilitarista.[5]
Resumindo,
o utilitarista é um consequencialista que apresenta como princípio moral
fundamental a obrigação de maximizar imparcialmente o bem-estar dos
seres afectados pelas nossas acções. Para o utilitarista, tal maximização
do bem-estar não está sujeita a quaisquer restrições. Além
disso, a obrigação de dar origem aos melhores estados de coisas parece não
deixar espaço para opções — para projectos pessoais alheios às
exigências da moralidade. Maximizar o bem-estar nunca é moralmente
proibido e é sempre moralmente obrigatório. 2. A teoria do
bom: hedonismo?
Como
tentarei mostrar no final deste ensaio, a teoria de Mill não corresponde
inteiramente à caracterização do consequencialismo que acabei de esboçar.
No entanto, seria insensato negar que Mill concebe aquilo que está
moralmente certo em termos da promoção daquilo que é bom ou valioso. O
seu célebre Princípio da Maior Felicidade, que se apresenta como o único
princípio fundamental da sua teoria moral, não deixa quaisquer dúvidas
a este respeito: O
credo que aceita a Utilidade, ou o Princípio da Maior Felicidade, como
fundamento da moralidade, defende que as acções estão certas na medida
em que tendem a promover a felicidade, erradas na medida em que tendem a
produzir o reverso da felicidade. Por felicidade entende-se prazer e isenção
de dor; por infelicidade, dor e privação de prazer.[6] O
utilitarismo de Mill, como esta passagem decisiva deixa bem claro, inclui
uma teoria hedonista do bom.
Segundo o hedonismo, o bem-estar de um ser consiste exclusivamente em
experiências aprazíveis e na ausência de experiências dolorosas. Mas
Mill não é simplesmente um hedonista: é um hedonista
total, para usar a expressão de Roger Crisp.[7]
O hedonista total acredita não só que o bem-estar consiste em experiências
aprazíveis, mas também que aquilo que torna tais experiências boas é
simplesmente o facto de elas serem aprazíveis. Assim, Mill não pensa que
uma experiência aprazível é boa em virtude de, por exemplo, estar de
acordo com a vontade de Deus. Também não pensa que uma experiência
aprazível é boa em virtude de satisfazer as preferências ou interesses
do sujeito em que ocorre. Por isso, o utilitarismo de Mill difere das
teorias utilitaristas, como a de R. M. Hare ou Peter Singer, que
incorporam uma concepção do bem-estar como satisfação de preferências
ou interesses. Também difere do utilitarismo de Moore, no qual se entende
que há uma pluralidade de
coisas irredutivelmente boas que devem ser promovidas. Mill não admite
uma tal pluralidade. Defende a ideia de que «o prazer e a isenção de
dor são as únicas coisas desejáveis como fins, e de que todas as coisas
desejáveis (que são tão numerosas no esquema utilitarista como em
qualquer outro) são desejáveis ou pelo prazer inerente em si mesmas ou
como meio para a promoção do prazer e da prevenção da dor.»[8] Compreende-se
que uma teoria aparentemente tão redutora tenha suscitado um «desagrado
inveterado». Muitos dos opositores do utilitarismo, declara Mill, pensam
«que supor que a vida não tem (como dizem) nenhum fim mais elevado do
que o prazer —
nenhum objecto de desejo e empenho melhor e mais nobre — é absolutamente baixo e desprezível, é uma doutrina digna apenas de
porcos».[9]
Para mostrar que o utilitarismo hedonista, contrariamente ao que pode
parecer, é uma teoria digna dos seres humanos (uma teoria que representa
adequadamente o bem-estar humano), Mill começa por fazer notar que a
acusação de que o utilitarismo é uma doutrina «digna apenas de porcos»
só seria correcta se os seres humanos só fossem capazes de experimentar
os prazeres acessíveis aos animais não humanos. Mas é óbvio que isso não
é verdade. Os seres humanos «têm faculdades mais elevadas do que os
apetites animais, e quando se tornam conscientes delas não vêm como
felicidade nada que não inclua a sua gratificação».[10]
Por isso, os hedonistas não advogam qualquer espécie de sensualismo e
atribuem uma grande importância aos prazeres mentais. Mas Mill não está
completamente satisfeito com o modo como os hedonistas que o precederam,
como Bentham, defenderam a superioridade dos prazeres mentais
relativamente aos corporais: Deve-se
admitir, no entanto, que de uma maneira geral os autores utilitaristas
colocaram a superioridade dos prazeres mentais em relação aos corporais
sobretudo na maior permanência e segurança, assim como na menor
dispendiosidade, dos primeiros — isto é, nas suas vantagens circunstanciais, não na sua natureza intrínseca.
E em todos estes aspectos os utilitaristas provaram completamente a sua
posição, mas poderiam ter invocado a razão mais forte, como lhe podemos
chamar, com inteira consistência. É totalmente compatível com o princípio
da utilidade reconhecer o facto de que alguns tipos
de prazer são mais desejáveis e valiosos do que outros. Seria
absurdo supor que, enquanto que na avaliação de todas as outras coisas
se considera tanto a qualidade como a quantidade, a avaliação dos
prazeres depende apenas da quantidade.[11] Num
hedonismo puramente quantitativo, como o de Bentham, o valor de cada
prazer (e de cada dor) é determinado apenas pela sua duração e pela sua
intensidade. Segundo esta perspectiva, os prazeres mentais não são
intrinsecamente superiores: a sua superioridade resulta sobretudo do facto
de conduzirem mais facilmente a novos prazeres. Para compreendermos o que
esta perspectiva tem de insatisfatório, vale a pena considerar uma experiência
mental apresentada por Crisp.[12] Imagine-se
que somos uma alma que aguarda uma vida na Terra. O anjo que nos vai
atribuir uma vida faz-nos a seguinte proposta: podemos escolher a vida de
Haydn, uma vida humana espiritualmente rica e bem sucedida, ou a vida de
uma ostra, que não encerra mais que prazer físico ténue.
Compreensivelmente, escolhemos a vida de Haydn com os seus prazeres
intensos. Mas o anjo, ansioso por se livrar da vida da ostra, faz uma nova
proposta: se escolhermos a vida da ostra, ele torna-la-á tão longa
quanto desejarmos. O que devemos fazer? Segundo a perspectiva de Bentham,
devemos escolher a vida da ostra. Embora os seus prazeres sejam muito
menos intensos do que os de Haydn, a duração de tais prazeres acabará
mais tarde ou mais cedo por compensar a sua menor intensidade. Assim, um
hedonismo puramente quantitativo não nos permite reconhecer o facto de
que a vida de Haydn é incomparavelmente melhor que a vida de uma ostra,
por muito boa que esta seja de acordo com os padrões aplicáveis às
ostras. A teoria de Mill, que privilegia a qualidade dos prazeres
relativamente à sua duração e intensidade, não tem a implicação
absurda de que a vida da ostra é melhor. Mill
defende que há prazeres intrinsecamente superiores a outros. Defende,
mais precisamente, que os prazeres resultantes do exercício das nossas
capacidades mais elevadas são superiores aos prazeres corporais. Mas o
que lhe permite chegar a esta conclusão? Aqui Mill entende que só há um
tipo de evidência que permite determinar a superioridade de um
tipo de prazer em relação a outro: o veredicto dos juizes competentes,
ou seja, o veredicto daqueles que experimentaram e apreciaram ambos os
tipos de prazeres. Se
um dos dois [prazeres] for, por aqueles que estão competentemente
familiarizados com ambos, colocado tão acima do outro que eles o preferem
(mesmo sabendo que ele é recebido com um maior descontentamento), e se não
abdicariam dele por qualquer quantidade do outro prazer de que a sua
natureza é capaz, então temos razão para atribuir ao deleite preferido
uma superioridade em qualidade que ultrapassa de tal modo a quantidade que
esta se torna, por comparação, pouco importante.[13] Note-se
que a tese de Mill é, não a de que um tipo de prazer é superior a outro
porque os juizes competentes assim o entendem, mas que tais juizes
preferem um tipo de prazer a outro devido à sua superioridade. Os juizes
mostram-nos que prazeres são superiores a quais, mas a sua superioridade
resulta simplesmente da sua aprazibilidade intrínseca. «Ora», defende
Mill, «é um facto inquestionável que aqueles que estão igualmente
familiarizados com ambos [os prazeres], e que são igualmente capazes de
apreciá-los e de se deleitar com eles, dão uma preferência muitíssimo
marcada ao modo de existência que emprega as suas faculdades mais
elevadas».[14] Há
quem defenda que a teoria de Mill enfrenta um dilema insuperável: ou não
constitui um avanço efectivo relativamente à perspectiva de Bentham,
permanecendo vulnerável à objecção decorrente do cenário de Haydn e
da ostra, ou não é genuinamente hedonista. Vejamos como surge este
suposto dilema. A
primeira parte do dilema consiste no seguinte argumento. Um hedonista
total tem de aceitar que só a aprazibilidade torna uma experiência mais
valiosa que outra. Suponha-se então, imaginando uma espécie de balança
de prazeres, que colocamos num prato um prazer superior e no outro prato
um prazer inferior. Se formos aumentando a aprazibilidade do prazer
inferior, havemos de chegar a um ponto em que este pesará mais que o
superior, pois cada um deles só tem valor em virtude da sua
aprazibilidade. Mas suponha-se que Mill não aceita que os prazeres sejam
comensuráveis desta maneira. Nesse caso, diz-nos a segunda parte do
dilema, pode aceitar que os prazeres superiores têm mais valor, mas não
por serem mais aprazíveis. Tem de haver uma outra propriedade que não a
aprazibilidade que torna as experiências boas. Mas, sendo assim, Mill
deixa de ser hedonista. Roger
Crisp defende que este dilema não afecta a teoria de Mill: Segundo
Mill, o valor de uma experiência aprazível depende não só da sua duração
e intensidade, mas também da sua qualidade, da sua natureza intrínseca.
Mill pode sugerir, então, que o prazer superior é valioso devido à sua
aprazibilidade, evitando assim a primeira parte do dilema. Um prazer
inferior só poderia ultrapassar o peso de um prazer superior se a sua
natureza se transformasse de tal maneira que deixasse de ser um prazer
inferior. Aumentar apenas a quantidade —
isto é, a duração e intensidade da experiência aprazível —
não será suficiente. Além disso, enquanto se excluir uma
comensurabilidade cardinal total, Mill não tem que desistir de afirmar
que os prazeres superiores são mais aprazíveis, e por isso mais
valiosos. Isto significa que Mill pode evitar a segunda parte do dilema,
segundo a qual ele deixaria de ser um hedonista por postular uma
propriedade que torna as coisas boas distinta da aprazibilidade. Os
prazeres superiores são bons para as pessoas simplesmente devido à sua
aprazibilidade.[15 Parece
assim que a teoria de Mill, para além de ser coerentemente hedonista,
consiste num hedonismo mais sofisticado que o de Bentham. Existem
argumentos fortes contra ela, mas o dilema acima apresentado não
proporciona um deles. 3. A teoria do
certo: actos ou regras?
O
utilitarismo dos actos, tal como é habitualmente entendido, afirma que
uma acção moralmente certa é aquela que maximiza imparcialmente o
bem-estar. Parece que este tipo de utilitarismo não atribui um peso
significativo às regras que constituem a moralidade comum. Parece, por
exemplo, que um agente deve matar uma pessoa sempre que esteja numa situação
em que matá-la represente uma ligeira vantagem em termos de maximização
do bem-estar. O utilitarismo dos actos parece ter inúmeras consequências
que vão contra algumas das nossas intuições morais mais fortes, e além
disso parece exigir um tipo de vida insuportável, marcado pela constante
realização de cálculos destinados a avaliar as consequências prováveis
das diversas alternativas disponíveis. Estas suposições deram origem à
apresentação de outra forma de consequencialismo: o utilitarismo das
regras. Este tipo de utilitarismo afirma, em primeiro lugar, que uma acção
é moralmente certa em virtude de estar de acordo com certas regras.
Depois, o utilitarismo das regras diz-nos que regras são essas: são
regras que, se fossem universalmente reconhecidas, contribuiriam para
promover o fim último, ou seja, a maximização do bem-estar. Que
tipo de teoria utilitarista está Mill a propor? Há uma passagem
importante que pode sugerir que a teoria de Mill é um utilitarismo das
regras: É
estranho pensar que o reconhecimento de um primeiro princípio é
inconsistente com a admissão de princípio secundários. Informar um
viajante sobre o lugar do seu destino último não é proibir o uso de
referências e sinais pelo caminho. A proposição de que a felicidade é
o fim e o objectivo da moralidade não significa que não se deve
construir nenhuma estrada para se chegar a esse objectivo, ou que as
pessoas que se dirigem para lá não devem ser aconselhadas a seguir uma
direcção em vez de outra. (...) Ninguém defende que, como os
marinheiros não podem esperar para fazer os cálculos do Almanaque Náutico,
a arte da navegação não se baseia na astronomia. Sendo criaturas
racionais, vão para o mar com os cálculos já feitos, e todas as criaturas
racionais vão para o mar da vida com as suas mentes já preparadas para
as questões comuns sobre o que está certo e errado, assim como para
muitas das questões, de longe mais difíceis, sobre o que é ser sábio
ou tolo (...). Seja o que for que adoptemos como princípio fundamental da
moralidade, precisamos de princípios subordinados para o aplicarmos através
deles; a impossibilidade de passarmos sem eles, sendo comum a todos os
sistemas, não pode proporcionar qualquer argumento contra um deles em
particular (...).[16] Nesta
passagem, Mill deixa claro que o utilitarismo não nos permite prescindir
das regras morais reconhecidas pela moralidade comum. Esta, aliás,
incorpora a longa experiência da humanidade e resulta em grande parte da
«influência tácita de um padrão não reconhecido», que é o próprio
utilitarismo. Pode assim parecer que nesta passagem Mill está a sugerir
que agir correctamente de um ponto de vista moral é uma questão de
seguir as regras aprovadas pelo padrão utilitarista. Esta interpretação,
no entanto, é muito precipitada. Note-se
que o utilitarismo é antes de mais um critério
que nos permite determinar que acções estão moralmente certas. Assim, o
utilitarismo não é primariamente uma teoria sobre como tomar decisões,
e por isso a aceitação do critério utilitarista não nos compromete com
a ideia de que devemos sempre tomar decisões realizando cálculos para
determinar qual é a melhor opção em termos de promoção do bem-estar.
Um utilitarista que defendesse esta ideia bizarra reconheceria um único nível
de pensamento moral, inteiramente dominado pelo objectivo de produzir o
melhor resultado possível. Neste utilitarismo de nível único não há
qualquer lugar para as regras da moralidade comum. Como deve ser óbvio,
este tipo de utilitarismo derrota-se a si próprio, pois quem vivesse
tentando permanentemente calcular da melhor maneira os resultados prováveis
de cada curso de acção acabaria por não promover o bem-estar. Na
passagem citada Mill está, não a defender um utilitarismo das regras,
mas a rejeitar o utilitarismo de nível único e, assim, a defender um
utilitarismo dos actos que reconhece vários níveis de pensamento moral.
Na maior parte dos casos, defende Mill, devemos agir de acordo com a
moralidade comum, baseando-nos nos princípios secundários ou
subordinados que a constituem,
pois essa é a melhor maneira de promover o bem-estar. Há casos,
no entanto, em que se justifica tomar decisões recorrendo directamente ao
padrão utilitarista. Segundo Mill, esses casos correspondem às situações
em que os princípios secundários entram em conflito. Aí o pensamento
utilitarista deve intervir para resolver o conflito. J.
O. Urmson, que defende que a teoria de Mill é um utilitarismo das regras,
argumenta a favor desta interpretação a partir da própria formulação
do Princípio da Maior Felicidade: «as acções estão certas na medida
em que tendem a promover a
felicidade, erradas na medida em que tendem
a produzir o reverso da felicidade».[17]
Segundo Urmson, este princípio aplica-se não a actos individuais, mas a
tipos de actos, pois só faz sentido falar de tendências em relação a
este últimos. «Beber álcool pode tender a produzir alegria», afirma,
«mas o meu acto de beber este copo particular ou produz ou não produz
alegria. Assim, parece que se pode muito bem interpretar Mill como alguém
que considera que as regras morais proíbem ou prescrevem tipos de acções,
como alguém que diz, na verdade, que as regras morais acertadas são
aquelas que promovem o fim último».[18] Esta
interpretação, no entanto, depende do pressuposto errado de que só faz
sentido falar de tendências em relação a tipos de acções. Numa carta
de 1872 a John Venn, o próprio Mill, aliás, supõe claramente que faz
todo o sentido falar de tendências de actos de individuais: Concordo
consigo quando diz que a maneira correcta de testar as acções pelas suas
consequências é testá-las pelas consequências naturais da acção
particular, e não por aquelas consequências que ocorreriam se todos
fizessem o mesmo. Mas, na maior parte dos casos, considerar o que
aconteceria se todos fizessem o mesmo é a única maneira que temos de
descobrir a tendência do acto no caso particular.[19] Esta
passagem, para além de mostrar que Mill fala de tendências de actos
individuais, deixa clara a sua aceitação do utilitarismo dos actos.
Interpretar a teoria de Mill como um utilitarismo das regras é um erro
que, provavelmente, resulta da confusão que ocorre por vezes entre este
tipo de teoria e o utilitarismo dos actos que reconhece diversos níveis
de pensamento moral. 4. A teoria do
certo: consequencialismo?
Geralmente,
entende-se que, por definição, qualquer teoria consequencialista
incorpora estas
duas teses: é sempre permissível
maximizar o bem e é sempre obrigatório
maximizar o bem. Como talvez tenha já ficado claro, as teorias deontológicas
rejeitam ambas as teses. Afirmam, em primeiro lugar, que o
consequencialismo é demasiado permissivo.
Contra o consequencialismo, os defensores destas teorias afirmam então
que há
«restrições centradas no agente» que proíbem certos actos cuja
realização maximizaria o bem. Em segundo lugar, os defensores das
teorias deontológicas consideram o consequencialismo demasiado exigente.
Por isso, reconhecem «prerrogativas centradas no agente» que permitem o
desenvolvimento de projectos pessoais alheios à maximização do bem. Estaria
Mill disposto a aceitar as duas teses acima enunciadas? Será Mill um «consequencialista»
no sentido em que o termo é usado habitualmente? Quanto à primeira tese,
segundo a qual é sempre permissível maximizar o bem, parece não ser
razoável duvidar de que Mill a aceitaria. O Princípio da Maior
Felicidade é apresentado explicitamente como o único princípio moral
fundamental. Mill não o qualifica de modo nenhum em nenhuma passagem e,
por isso, podemos dizer que não reconhece quaisquer «restrições
centradas no agente». É claro que Mill está consciente da existência
de uma tensão entre o princípio utilitarista e outras supostas fontes de
obrigação moral. Está consciente, mais precisamente, da existência de
uma tensão entre o utilitarismo e as exigências da justiça, declarando
que aí se encontra «a única dificuldade real da teoria utilitarista da
moral».[20]
Dedica o último capítulo de Utilitarismo
a uma tentativa de dissolver essa tensão, chegando à seguinte
conclusão: A
partir do que foi dito parece que a justiça é um nome para certas exigências
morais que, consideradas colectivamente, ocupam um lugar elevado na escala
da utilidade social, e que por isso têm uma obrigatoriedade mais forte
que quaisquer outras; mas podem ocorrer casos particulares em que algum
outro dever social é tão importante que ultrapassa qualquer uma das máximas
gerais da justiça. Assim, para salvar uma vida, pode não só ser permissível,
mas também um dever, roubar ou tirar à força a comida ou os
medicamentos necessários, ou raptar e forçar a trabalhar o único
praticante de medicina qualificado.[21] Infelizmente,
não sabemos o que Mill pensaria quanto ao que seria permitido (ou obrigatório)
fazer em casos particulares mais delicados. Estaria Mill disposto a
aceitar, por exemplo, que é permissível (ou obrigatório) assassinar uma
pessoa para salvar cinco? Não sabemos se um exame atento aos casos hipotéticos
muito problemáticos que os filósofos contemporâneos têm discutido
detalhadamente levaria Mill a rever a sua posição, admitindo algum tipo
de «restrições centradas no agente». Mas sabemos bem que posição
defendeu Mill: mesmo as «máximas da justiça» devem ser avaliadas pelo
padrão utilitarista e não se impõem absolutamente. Há por isso casos
em que o Princípio da Maior Felicidade exige que realizemos acções
contrárias àquilo que normalmente se considera justo. Consideremos
agora a segunda tese consequencialista, segundo a qual estamos
permanentemente sob a obrigação de maximizar o bem. Antes de tentarmos
determinar se Mill aceitaria esta tese, vejamos melhor o que ela
significa. Para um consequencialista agir bem (fazer o que está certo) é
maximizar aquilo que é bom. Isto significa que em qualquer situação,
entre todas as opções disponíveis, todas as que não maximizam o bem
(ou, mais plausivelmente, a utilidade esperada) são moralmente erradas.
Por isso, como nunca devemos fazer algo de errado, devemos sempre
maximizar o bem. Julgo que, se considerarmos atentamente o Princípio da
Maior Felicidade, verificaremos que este não impõe uma tal obrigação tão
forte. Recordemos este princípio: O
credo que aceita a Utilidade, ou o Princípio da Maior Felicidade, como
fundamento da moralidade, defende que as acções estão certas na medida
em que tendem a promover a felicidade, erradas na
medida em que tendem a produzir o reverso da felicidade.[22] Não
há dúvida que Mill defende aqui que a única coisa que determina a
correcção moral de uma acção é a sua tendência para promover a felicidade geral. Mas isso é muito diferente de dizer
que uma acção só é moralmente certa se maximizar
a felicidade. Na verdade, Mill está a pressupor que o certo e o errado
admitem graus: o seu princípio pretende permitir-nos ordenar as opções
disponíveis numa dada situação de modo a dizer quais são melhores que
quais, mas não nos diz que temos a obrigação de optar sempre pelo melhor
curso de acção, ou seja, que devemos maximizar o bem-estar. Mill,
aliás, nunca pensa em termos da maximização, referindo-se sempre apenas
à promoção da felicidade geral, do bem público ou do interesse
colectivo. Ora, é perfeitamente possível promover a felicidade geral
seguindo um curso de acção que não a maximiza. Como
exemplo, suponha-se que um agente maximizará o bem-estar se der
exactamente 25% dos seus rendimentos a organizações de combate à
pobreza. Nestas circunstâncias, o consequencialista típico terá de
dizer que esse agente procederá erradamente se der 20% ou mesmo
30%! dos seus rendimentos, pois essas opções não maximizam o bem-estar.
Felizmente, o utilitarismo de Mill não tem esta implicação suspeita. O
Princípio da Maior Felicidade pode implicar que não dar nada é
profundamente errado, mas permite-nos dizer que as opções de dar 20%,
25% ou 30% são todas moralmente correctas, pois todas contribuem para
promover quase na mesma medida o bem-estar. Compreender este aspecto da teoria de Mill faz-nos perceber que o seu utilitarismo, como não prescreve qualquer maximização do bem-estar, não é uma teoria tão exigente como se poderia esperar. Mas, ainda assim, é uma teoria que pode parecer demasiado exigente, pois não deixa de prescrever uma forte imparcialidade: a
felicidade que forma o padrão utilitarista sobre o que está certo na
conduta não é a felicidade do próprio agente, mas a de todos os
envolvidos. Quanto à escolha entre a sua própria felicidade e a
felicidade de outros, o utilitarismo exige que ele seja tão estritamente
imparcial como um espectador benevolente e desinteressado.[23] Mill
leva a sério a objecção à sua teoria segundo a qual esta propõe um «padrão
demasiado elevado» para a humanidade. Enfrenta esta objecção declarando
que a ética «ocupa-se de nos dizer quais são os nossos deveres, ou por
que teste podemos conhecê-los, mas nenhum sistema de ética exige que o
único motivo do que fazemos seja um sentimento de dever; pelo contrário,
noventa e nove centésimos de todas as nossas acções são feitas por
outros motivos, e feitas correctamente, se a regra do dever não as
condena».[24]
Por outras palavras, o utilitarismo é primariamente um critério de
correcção moral, e por isso ser utilitarista não implica, como vimos,
pensar sempre em termos utilitaristas, realizando cálculos infindáveis
para determinar as consequências prováveis de cada alternativa. Por essa
razão, aceitar o utilitarismo é compatível com agir por motivos não
utilitaristas. O utilitarismo não parece assim intoleravelmente exigente.
Acrescenta Mill: é
uma incompreensão do modo de pensamento utilitarista concebê-lo como
algo que implica que as pessoas devem fixar as suas mentes numa
generalidade tão grande como o mundo ou a sociedade no seu todo. A grande
maioria das boas acções não têm em vista o benefício do mundo, mas o
de indivíduos, dos quais o bem do mundo é constituído; e nestas ocasiões
os pensamentos do homem mais virtuoso não precisam de ir além das
pessoas específicas envolvidas, excepto na medida em que é necessário
que ele se assegure de que ao beneficiá-las não está a violar os
direitos, isto é, as expectativas legítimas e autorizadas, de nenhuma
outra pessoa. A multiplicação da felicidade é, segundo a ética
utilitarista, o objectivo da virtude: as ocasiões em que qualquer pessoa
(excepto uma em mil) tem o poder de fazer isso a uma escala abrangente
(por outras palavras, de ser um benfeitor público) são excepcionais, e
apenas nessas ocasiões uma pessoa é chamada a considerar a utilidade pública;
em qualquer outro caso, a utilidade privada, o interesse ou felicidade de
apenas algumas pessoas, é tudo aquilo a que tem de dar atenção. Apenas
aqueles cujas acções têm uma influência que se estende à sociedade em
geral precisam de se preocupar habitualmente com um objectivo tão amplo.[25]
Podemos
criticar a teoria de Mill por não reconhecer quaisquer restrições
deontológicas, mas não faz sentido criticá-la por estabelecer um padrão
de tal modo exigente que aniquila a integridade pessoal. Um utilitarista não
tem de viver permanentemente empenhado na promoção do interesse geral.
Além disso, o Princípio da Maior Felicidade não prescreve qualquer
maximização do bem-estar. Não é por isso surpreendente que Mill tenha
pensado que a aceitação do utilitarismo na teoria e na prática pode
perfeitamente harmonizar-se com uma plena realização pessoal.[26] BibliografiaCrisp,
Roger (1997) Mill on Utilitarianism,
Londres e Nova Iorque: Routledge Crisp,
Roger (1998) «Editor’s Introduction» em J. S. Mill, Utilitarianism, Oxford: Oxford University Press Crisp,
Roger (1999) «Teachers in an Age of Transition: Peter Singer and J. S.
Mill» em Dale Jamieson, Singer and
His Critics, Oxford: Blackwell Frankena,
William (1973) Ethics, Englewood
Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 2ª ed. Gensler,
Harry (1998) Ethics – A
Contemporary Introduction, Londres e Nova Iorque: Routledge Mill,
J. S. (1871) Utilitarianism,
Oxford: Oxford University Press, ed. por Roger Crisp, 1998. Pettit,
Philip (1991) «Consequentialism» em Peter Singer (ed.), A Companion to Ethics, Oxford: Blackwell Rawls,
John (1971) Uma Teoria da Justiça,
trad. Carlos Pinto Correia, Lisboa: Editorial Presença, 1993. Scheffler,
Samuel (1982) The Rejection of
Consequentialism, Oxford: Clarendon Press. Urmson, J. O. (1953) «The Interpretation of the moral Philosophy of J. S. Mill», Philosophical Quarterly 3.
[1]
E eu sou parcialmente
responsável por esta situação, pois a minha tradução do livro de
Mill aguarda já há vários anos a revisão profunda que, espero, a
tornará apta para publicação. [2]
Veja-se Rawls (1971: 42 e 46) e Frankena (1973: 14). Ambos usam uma
terminologia diferente, opondo as «teorias teleológicas» às «teorias
deontológicas». [3]
Note-se que Scheffler, embora aceite a segunda parte desta definição,
não parece fiel à primeira. Quando enfrenta a objecção ao
consequencialismo decorrente da justiça distributiva, admite teorias
consequencialistas que definem aquilo que é bom em termos morais.
Veja-se Scheffler (1982: 26-32). [4]
Pettit (1991: 231). [5]
Scheffer (1982: 1), como muitos outros, inclui a exigência de
imparcialidade no significado do termo «consequencialismo». Gensler
(1998: 143), pelo contrário, classifica as teorias egoístas como
consequencialistas. [6]
Mill 2.2 (O primeiro número refere o capítulo; o segundo o número
do parágrafo.) [7]
Crisp (1997: 26). [8]
Mill 2.2 [9]
Mill 2.3 [10]
Mill 2.4 [11]
Mill 2.4 [12]
Crisp (1997: 24-25). [13]
Mill 2.5 [14]
Mill 2.6 [15]
Crisp (1997: 33). [16]
Mill 2.24 [17]
Mill 2.2. Itálicos meus [18]
Urmson (1953). [19]
Mill citado a partir de Crisp (1998: 17). [20]
Mill 5.38 [21]
Mill 5.37 [22]
Mill 2.2. Itálicos meus. [23]
Mill 2.18 [24]
Mill 2.19 [25]
Mill 2.19 [26]
Este ensaio beneficiou da
apreciação atenta do Prof. António Franco Alexandre, que leu a sua
versão inicial quando eu preparava, sob a sua orientação, a minha
dissertação de mestrado.
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