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N.º 1 — 2003 |
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Ética das Virtudes sem Traços de Carácter Gilbert Harman Department of Philosophy – Princeton University As supostas partes da filosofia moral normativaPensa-se
geralmente que a filosofia moral normativa se ocupa de pelo menos três
questões. Usando a (enganadora) terminologia habitual, estas questões são
as seguintes: (1) O que determina o nosso dever moral? (2) Como
podemos determinar o que há de bom ou valioso em diversas
situações? (3) Quais são as virtudes e vícios morais?
Assim, presume-se frequentemente que a filosofia moral normativa tem
pelo menos três partes: a teoria do dever, a teoria do valor e a teoria
da virtude. É
suposto que a deontologia, ou estudo do dever moral, se
ocupe daquilo que moralmente os agentes devem fazer em diversas
circunstâncias,
daquilo que estes têm de fazer ou são moralmente obrigados a fazer, daquilo
que é moralmente permissível ou que estes podem fazer, bem como daquilo que é
moralmente certo ou errado. Esta teoria pode também discutir que
tipo obrigações morais têm as pessoas, e talvez até quais são os seus
deveres morais num sentido comum de «dever». É
suposto que a teoria do valor
tente dizer o que, considerados todos os factores, torna um estado de
coisas bom, ou o que, também considerados todos os factores, torna uma
situação melhor do que outra. De um modo mais geral, uma tal teoria pode
tentar esclarecer o que é isso de avaliar uma situação como
certa ou errada, justa ou injusta, etc. Há quem pense que,
embora faça sentido perguntar se um estado de coisas é melhor do que
outro num ou noutro aspecto específico, não faz sentido perguntar se um
estado de coisas é simplesmente melhor do que outro, considerados todos
os factores. Philippa Foot[1]
e Judith Jarvis Thomson[2]
defenderam que não faz sentido perguntar isso; outros pensam que faz
sentido perguntar o que Foot e Thomson pensam não fazer sentido
perguntar. Um problema é que Thomson admite que faz sentido dizer que uma
situação é melhor do que outra para as pessoas em geral. Seja como for,
Thomson tem uma teoria do valor neste sentido: uma teoria sobre o que é
algo ser bom ou mau num ou noutro aspecto específico. Por
fim, é suposto que a teoria da virtude moral tente especificar as
virtudes e vícios morais. Esta teoria tenta esclarecer não só o que é
agir virtuosa ou viciosamente em ocasiões específicas, mas também o
modo como isso se relaciona com a posse de um bom ou mau carácter.
Tenta determinar, entre os traços de actos ou de carácter, quais são
virtudes morais, quais são vícios morais e quais não são virtudes nem
vícios morais. É
controverso que a filosofia moral tenha estas três partes ou que a
terminologia relativamente habitual que usei seja a melhor. Quem alega que
a noção comum de «dever» é tão estrita que em rigor não existe nada
que seja o «dever moral», pode dizer que não é boa ideia chamar «teoria
do dever moral» ao primeiro tipo de teoria. Já mencionei a objecção de
Foot e Thomson à ideia de que em qualquer situação há um único tipo de bem
relevante para a moralidade. E há razões para duvidar da existência
dos traços de carácter robustos que figuram na teorias da virtude padrão.[3] Muitos autores fazem uma
distinção entre «o certo» e «o bem», que pode ser a distinção
entre aquilo a que chamei teoria do dever e aquilo a que chamei teoria do
valor,[4]
com ou sem uma teoria específica sobre o que torna as situações boas.
Por vezes pensa-se que teoria do «bem» inclui a teoria da virtude. Mas
também é possível usar o termo «virtude» no lugar de qualquer
característica
que contribua para tornar algo bom, o que nos permite falar, por exemplo,
das virtudes do exercício aeróbico – neste caso, a teoria da virtude não
se distingue da teoria do valor. Por vezes presume-se que o certo inclui a
correcção de estados de coisas e mesmo a justiça básica de um Estado,[5]
mas para muitos autores estas são questões que fazem parte não da
teoria do dever, mas daquilo a que chamei teoria do valor. Deste modo,
existem várias divergências terminológicas e substantivas. Ainda assim,
muitos autores aceitam algo semelhante à distinção entre as três noções que
estou aqui a usar. Considerar básica uma noção ou teoriaAs
teorias morais normativas gerais por vezes consideram uma destas noções
mais «básica» do que as outras. Há pelo menos três maneiras de fazer
isto, representadas pela ética deontológica, pelo consequencialismo e
pela ética das virtudes. A
ética deontológica considera a teoria do dever mais básica. Por
exemplo, uma teoria deontológica pode dizer que uma situação é boa na
medida em que implica uma pessoa cumprir o seu dever ou (numa espécie de
versão kantiana) uma pessoa tentar cumprir o seu dever. Um carácter
virtuoso pode ser identificado com uma disposição robusta para cumprir o
dever. Pode-se identificar virtudes e vícios diferentes através de
disposições diferentes para cumprir deveres diferentes. O
utilitarismo ou o consequencialismo considera mais básica a teoria
do valor e explica o resto da moralidade em termos de valor. Os deveres
morais podem ser vistos como actos que tornam ou tendem a tornar as coisas
melhores (ou melhores para as pessoas em geral), ou então como actos que
exemplificam regras que tornariam as coisas melhores se todos as
seguissem. As virtudes morais podem ser identificadas com certos traços
de carácter, nomeadamente com aqueles cuja posse tende a tornar as coisas
melhores (ou melhores para as pessoas em geral), e os vícios morais podem
ser identificados com aqueles traços de carácter cuja posse tende a
tornar as
coisas piores em geral. Por
fim, a ética das virtudes considera a virtude e o vício pelo
menos tão básicos como o dever moral e o valor das situações.
Muitas versões da ética das virtudes consideram os traços de carácter
básicos. Por exemplo, uma versão supõe que aquilo que há de bom numa situação
(ou pelo menos aquilo que há de bom para as pessoas em geral) diz respeito à dimensão do florescimento humano envolvido, exigindo o florescimento
humano a posse total dos traços carácter moralmente virtuosos. Presume-se que ser uma pessoa virtuosa é o mesmo que ser uma pessoa na
posse total dos traços de carácter virtuosos. Esta versão explica a noção
de dever moral em termos da noção de pessoa virtuosa: aquilo que devemos
fazer numa dada situação é aquilo que uma pessoa virtuosa faria nessa
situação.[6] Em
estudos recentes, Judith Jarvis Thomson também tem desenvolvido uma
teoria moral que em alguns aspectos se assemelha à ética das virtudes,
embora seja diferente da versão padrão em aspectos importantes.
[7]
O objectivo do presente artigo é discutir certos aspectos desta teoria de
Thomson. O
meu propósito é muito limitado. Não vou discutir, por exemplo, as objecções
de Thomson ao consequencialismo, pois estou exclusivamente interessado na
sua ética das virtudes. Desejo ver, especificamente, até que ponto a
versão da ética das virtudes proposta por Thomson evita objecções que
parecem refutar conclusivamente uma outra versão da teoria. Por isso,
começo por descrever essa outra versão e as fortes objecções que lhe
foram dirigidas. Depois descrevo alguns aspectos da teoria de Thomson e
determino como esta se comporta perante essas objecções.
Uma versão da ética das virtudesNuma
versão da ética das virtudes,[8]
as virtudes são traços de carácter robustos que as pessoas idealmente
virtuosas de um ponto de vista moral possuem. Os traços de carácter em
questão são hábitos robustos adquiridos que dizem respeito à percepção, motivação e
acção: hábitos de ver as situações de certas maneiras, hábitos de
estar motivado para agir de certas maneiras e hábitos de agir efectivamente
dessas maneiras. Segundo esta perspectiva, especificar uma virtude moral
é especificar os hábitos perceptivos, motivacionais e comportamentais
relevantes. Vale
a pena indicar resumidamente alguns aspectos dos traços de carácter. Em
primeiro lugar, devemos distingui-los da posse de certos conhecimentos ou
aptidões, do temperamento inato ou das perturbações mentais. Em segundo
lugar, é suposto as pessoas diferirem nos traços de carácter que
possuem. Em terceiro lugar, os traços são robustos em virtude de serem
relativamente duradouros e de se manifestarem em diversas circunstâncias.
Em quarto lugar, os traços de carácter são explicativos, pois
presume-se que pelo menos por vezes é correcto explicar as acções em
termos de traços de carácter e não apenas em termos de características
da situação. Por exemplo, pelo menos por vezes é correcto explicar uma
acção honesta apelando à honestidade do agente, e não apenas a
características da situação que levariam qualquer um a agir
honestamente nessa situação. Nesta
abordagem, supõe-se frequentemente que possuir as virtudes morais é uma
condição necessária para levar o melhor tipo de vida para um ser
humano; por outras palavras, presume-se geralmente que possuir as virtudes
morais faz parte daquilo que o florescimento humano implica. Segundo esta
perspectiva, mesmo que uma pessoa seja materialmente bem sucedida e esteja
satisfeita com a vida, não poderá levar o melhor tipo de vida nem
florescer no sentido relevante se não possuir uma virtude moral
importante. De
acordo com esta teoria, as pessoas idealmente virtuosas estão
robustamente dispostas a fazer o que devem fazer de um ponto de vista
moral. As outras
pessoas devem tentar adquirir essa mesma disposição e imitar a virtude
em várias situações. Numa situação típica de escolha moral, um
agente deve fazer aquilo que uma pessoa virtuosa faria nessa situação. No
entanto, segundo este ponto de vista o objectivo não é apenas fazer o
que está certo: é também ser o tipo certo de pessoa. Precisamos de
desenvolver um carácter virtuoso. Assim, a educação moral das crianças
deve visar um tal desenvolvimento do carácter, e pode consistir em
descrever-lhes as virtudes ideais tal como se exprimem na acção[9],
bem como em treiná-las para adquirir hábitos virtuosos.[10] Objecção à tentativa de explicar o que moralmente devemos fazer em termos daquilo que uma pessoa idealmente virtuosa fariaUma
objecção óbvia à forma padrão da ética das virtudes diz respeito ao
modo como esta apresenta a relação entre aquilo que
moralmente uma pessoa deve fazer e aquilo que é ser uma pessoa virtuosa. A ideia
objectável é a de que aquilo que moralmente devemos fazer numa dada
situação é aquilo que uma pessoa virtuosa faria nessa situação. A
objecção diz-nos que esta perspectiva não pode abranger todos os casos,
pois por vezes uma pessoa não-virtuosa está numa situação em que uma
pessoa virtuosa nunca estaria.[11] Esta
objecção revela-se em
parte na ideia de que uma pessoa que ainda não é virtuosa deve tentar
desenvolver as virtudes. Ora, isto é algo que uma pessoa virtuosa não
precisa de fazer. Por isso, a pessoa não-virtuosa deve agir por vezes de
uma maneira que não é uma simples imitação da maneira como a pessoa
virtuosa agiria. Mas podemos substanciar a objecção com outros casos. Por
exemplo, uma pessoa que agiu mal tem o dever moral de pedir desculpa aos
que foram afectados pela sua acção. No entanto, uma pessoa idealmente
virtuosa nunca agiria mal, e por isso nunca teria de pedir desculpa a
ninguém. Imaginemos
também uma pessoa que sabe que tende a ser fraca de
vontade e a ceder às tentações. Uma tal pessoa deverá fazer planos com
outros sabendo que esses planos ficarão arruinados caso ela ceda à tentação
quando estes estiverem a ser executados? Talvez não, mas uma pessoa
idealmente virtuosa não sofreria de fraqueza de vontade, e por isso
poderia fazer planos com outros sem recear estragar tudo ao ceder à tentação
no momento errado. Neste tipo de caso uma pessoa deve precisamente não
fazer aquilo que uma pessoa idealmente virtuosa faria; caso contrário,
estará a fingir que tem um tipo de carácter que na verdade não tem. Fazer o que uma pessoa virtuosa aconselharia fazerPodemos
tentar modificar esta perspectiva sobre aquilo que um agente não
inteiramente virtuoso deve fazer dizendo o seguinte: moralmente tal agente
deve fazer aquilo que uma pessoa virtuosa o aconselharia fazer. Isto
implica um certo afastamento da versão inicial da ética das virtude em
direcção a uma teoria moral centrada no crítico ou centrada no
espectador, que tem os seus próprios problemas. Um agente moralmente
virtuoso pode pensar que não deve dar conselhos a outra pessoa sobre
certos assuntos, talvez porque seja melhor que a outra pessoa descubra as
coisas por si própria ou então por outras razões. Além disso, do mesmo
modo que algumas pessoas são boas a aconselhar mas não a fazer o que está
certo, também um agente que é bom a agir virtuosamente pode não ser bom
a aconselhar os outros a agir.[12] Objecção à suposição de que existem traços de carácterUma
objecção menos óbvia, mas a meu ver mais importante do que as que dizem
respeito àquilo que uma pessoa idealmente virtuosa faria, parte da
psicologia social actual. Parece que, quando as pessoas atribuem traços
de carácter robustos a outros agentes, fazem-no baseando-se em dados
muito escassos e tendem a ignorar completamente a relevância das características
das situações em que os agentes se encontram que contribuem para
explicar aquilo que eles fazem. E, embora as pessoas expliquem
frequentemente as acções dos outros apelando a traços de carácter
robustos, não há quaisquer dados científicos a favor da existência
desses tipos de traços que as pessoas costumam atribuir aos outros. Mesmo
admitindo uma certa variação aleatória, aquilo que uma pessoa com um
carácter aparentemente ideal faria numa situação específica é
praticamente o mesmo que aquilo que qualquer pessoa faria nessa mesma
situação.[13] Isto
não é negar todas as diferenças individuais. As pessoas têm
temperamentos inatos diferentes, conhecimentos diferentes, objectivos
diferentes, capacidades diferentes, e tendem a estar ou a pensar que estão
em situações diferentes. Todas estas diferenças podem afectar aquilo
que as pessoas fazem, mas não há quaisquer dados que mostrem que as
pessoas também diferem em traços de carácter robustos ou que as diferenças
nos objectivos, nos conhecimentos e assim por diante devem ser explicadas
em termos de diferenças nos traços de carácter robustos. Tal
como os psicanalistas acham inaceitável a ideia de que não existem
quaisquer dados que mostrem o valor terapêutico da psicanálise, também
as pessoas que não estão familiarizadas com a psicologia social
consideram estas conclusões inaceitáveis. Mas as nossas convicções
comuns sobre as diferenças nos traços de carácter podem ser vistas como
o resultado de um «erro de atribuição fundamental» em conjunção com
uma «confirmação tendenciosa». Discuti isto noutra ocasião e aqui não
vou tentar acrescentar nada.[14] Do
mesmo modo, não há quaisquer dados que mostrem que a educação através
do «desenvolvimento do carácter» é necessária para o comportamento
moral comum ou que chega alguma vez a acontecer. A ideia de que um tal
treino é necessário é semelhante à ideia de que geralmente é preciso
ensinar às crianças a sua língua materna.[15] A versão da ética das virtudes de ThomsonPara
entendermos a abordagem de Thomson, é importante observar, em primeiro
lugar, que usamos a terminologia das virtudes e vícios particulares não
só para especificar traços de carácter, mas também para descrever
actos particulares. Uma pessoa que de um modo geral não é honesta nem desonesta pode ainda assim agir honesta ou desonestamente numa ocasião
particular. Do mesmo modo, uma pessoa pode agir generosamente, ser
conscienciosa ou ser cruel numa única ocasião. Ao desenvolver a sua
perspectiva, Thomson parte não da ideia de que uma pessoa possui um ou
outro traço de carácter, mas da ideia de que uma pessoa age virtuosa ou
viciosamente. Em
segundo lugar, Thomson distingue as virtudes morais propriamente ditas das
virtudes genéricas, como a coragem, a diligência, a prudência e a
lealdade, que são úteis tanto para propósitos morais como para propósitos
malévolos. Um acto malévolo pode ser corajoso. Um criminoso pode ser
prudente e diligente. Podemos ser leais a pessoas vis. Assim, a coragem, a
diligência, a prudência e a lealdade não são em si virtudes morais. Thomson
sugere que as virtudes morais propriamente ditas se distribuem por dois
grupos. Entre as virtudes da confiança contam-se a justiça e a
honestidade (pelo menos se a honestidade não for «uma simples determinação
para não mentir, aconteça o que acontecer», o que é «uma forma
particularmente pouco atraente de preocupação em manter as mãos limpas,
e consequentemente um vício menor») (285). Entre as virtudes do
cuidado contam-se a generosidade, a bondade e a consideração.[16] A
coragem, a diligência, a lealdade e a prudência podem ser moralmente
louváveis apenas no caso de se revelarem na conduta que é virtuosa num
dos sentidos básicos. Louvar a coragem, a diligência, a lealdade e a
prudência na acção é algo que «deriva de outras razões para apreciar
o acto favoravelmente» (286). Thomson
aproxima-se de uma ética das virtudes utilitarista ao sugerir que podemos
distinguir as verdadeiras virtudes morais das virtudes genéricas, como a
coragem, indicando «o facto de ser bom para nós que existam pessoas que
possuam as virtudes [morais]» (282). É bom para nós que existam pessoas
generosas e justas, mas não é bom para nós que existam pessoas
corajosas, a não ser que essas pessoas sejam também generosas e justas. O
passo seguinte é especificar aquilo que a moralidade exige. Supondo que
para cada verdadeira virtude moral existe um vício moral correspondente
que é o contrário desse virtude (como ser injusto, malévolo ou cruel),
Thomson propõe que aquilo que a moralidade exige é que evitemos cada um
desses contrários. «A moralidade exige que façamos uma coisa se,
e apenas se, não a fazer seria injusto, malévolo, cruel e assim por
diante. A moralidade exige que não façamos uma coisa se, e somente
se, fazê-la seria injusto, malévolo, cruel e assim por diante» (286).[17] Como a versão de Thomson evita os problemas das versões padrão da ética das virtudesA
versão da ética das virtudes de Thomson diz respeito primariamente não
a traços de carácter virtuosos, mas a acções virtuosas. A sua versão
é compatível com a existência de traços de carácter robustos, mas não
exige que as pessoas tenham efectivamente traços de carácter robustos. É
verdade que Thomson afirma estar tentada a identificar as virtudes dizendo
que é bom para nós que existam pessoas virtuosas. Assim, a sua ideia
poderia ser a de que é bom para nós que as pessoas tenham certos traços
de carácter robustos e que estes são as virtudes. Mas na verdade a sua
ideia é apenas a de que é bom para nós que existam pessoas que ajam
virtuosamente. Isto é compatível com a ideia de que as pessoas não têm,
e talvez nem possam ter, os traços de carácter robustos correspondentes.[18] O
modo como Thomson explica as exigências da moral também evita o problema
de uma pessoa poder estar numa situação em que uma pessoa idealmente
virtuosa nunca estaria. Thomson não explica as exigências da moral em
termos daquilo que uma pessoa idealmente virtuosa faria numa dada situação.
Mesmo numa situação em que uma tal pessoa nunca estaria, um agente pode
ainda assim evitar agir cruel ou injustamente.[19] Além
disso, a versão de Thomson não está comprometida com a suposição de
que a «educação moral» consiste no «desenvolvimento do carácter». A ética das virtudes de Thomson versus a teoria dos deveres prima facie de Ross?O
que distingue a teoria de Thomson de uma teoria deontológica como a de
Ross, que reconhece duas famílias de deveres prima facie, deveres
de justiça e deveres de benevolência? Parece haver uma forte paralelismo
entre as duas perspectivas. Onde Thomson vê uma virtude numa acção possível,
Ross vê um dever prima facie, e onde Ross vê um dever prima
facie, Thomson vê uma virtude numa acção possível. Talvez
haja aqui um desacordo quanto à ordem de explicação. Talvez Thomson
pense que compreendemos melhor o que é alguém agir injusta ou cruelmente
numa dada ocasião, e Ross pense que percebemos melhor num dever prima
facie, como o de ser honesto ou o de ser benevolente, aquilo que está
em questão. Uma
diferença é a seguinte: enquanto que os deveres de Ross são prima
facie, as virtudes e vícios de Thomson são uma questão de tudo ou
nada. Do ponto de vista de Ross pode haver um conflito de deveres prima
facie, mas na perspectiva de Thomson não pode haver um conflito análogo.
Thomson considera impossível, por exemplo, estarmos numa situação em
que se fizermos A seremos injustos, mas se não fizermos A seremos cruéis.[20] Existem
seguramente casos em que parece haver um conflito entre a justiça e a
generosidade. Imagine-se um estudante que escreveu um mau ensaio. Se o
professor der a nota negativa que o ensaio merece, o estudante não
concluirá o curso, o que tornará as coisas financeiramente difíceis
tanto para o estudante como para a sua família. Mas parece que não seria
justo os outros estudantes ficarem sujeitos a um maior nível de exigência.
Parece que seria injusto dar uma nota positiva ao estudante, mas também
parece que seria cruel dar-lhe uma nota negativa. Como
resolver este conflito aparente? Thomson sustenta que ambas as coisas não
podem ser verdadeiras. Não pode ser ao mesmo tempo injusto dar a nota
positiva ao estudante e cruel dar-lhe a nota negativa. Não pode ser
injusto fazer algo que seria cruel não fazer e não pode ser cruel fazer
algo que seria injusto não fazer. Assim, temos de escolher entre as duas
possibilidades. Mas qual? Será cruel dar a nota negativa ou injusto dar a
nota positiva? Ross
diria que temos de escolher entre dois deveres prima facie: o dever
de não ser injusto para os outros estudantes e o dever de não prejudicar
o estudante pobre. Se o dever de não ser injusto prevalecer, então
não estaremos a violar o dever de não prejudicar o estudante se lhe
dermos uma nota negativa. Se prevalecer antes o dever de não prejudicar o
estudante, então na verdade o nosso dever é dar a nota positiva e neste
caso não temos um dever de justiça. Por
mim, considero difícil dizer se alguma destas maneiras de olhar para a
questão faz mais sentido do que a outra. ObjectivismoThomson
é uma objectivista quanto às exigências da moralidade. Afirma o
seguinte: «uma pessoa ter feito o que a moralidade exige não diz
respeito às intenções, mas ao sucesso — e pela minha parte acredito
que devemos aceitar uma perspectiva objectivista das propriedades
relativas às virtudes (e das suas contrárias), isto é, uma perspectiva
segundo a qual um acto possuir uma propriedade relativa às virtudes (ou a
sua contrária) diz respeito ao sucesso e não às intenções.»[21]
Isto significa que as intenções são irrelevantes ou apenas que são
insuficientes? Suponha-se
que Joana tem a obrigação moral de devolver um livro a Pedro.
Indiferente a esta exigência, deixa o livro num banco do jardim. Mas
acontece que Pedro está no jardim, encontra o livro e presume que o
deixaram ali para ele. Será que Joana satisfez a exigência moral de
devolver o livro? Terá agido justamente? Não foi negligente ao ter
deixado o livro do banco do jardim e a negligência não é um vício?
Talvez se possa responder a isto dizendo que a negligência não é um vício
moral: ser cuidadoso é uma virtude genérica, não uma virtude
moral. E talvez, dada a maneira como as coisas correram, não tenha sido
injusto ela ter deixado o livro no banco! Mas
não poderá alguém fazer algo de errado devido à quebra de uma virtude
genérica? Será que também tem de estar sempre envolvida a quebra de uma
virtude moral? Se por imprudência Joana não devolver o livro que ela
tem de entregar a João, talvez tenha agido injustamente em relação a João
devido à sua imprudência. Mas se ela permitir que João seja prejudicado
devido à sua falta de coragem, terá agido mal? Aqui não sei ao certo
qual é a melhor perspectiva nem qual é a perspectiva de Thomson. ConclusãoOs
filósofos que se sentem atraídos pela ética das virtudes devem ter em
conta a perspectiva que Thomson tem desenvolvido. Esta perspectiva incide
em propriedades de acções particulares, evitando assim os sérios
problemas da ética das virtudes que se centra em traços de carácter robustos.[22]
[1]
«Utilitarianism and the virtues», Proceedings and "Addresses
of the American Philosophical Association 57 (1983) pp.
273-83. [2]
«The right and the good», Journal of Philosophy 94
(1997), 273-298; «Evaluatives and directives», Capítulo 7 de
Gilbert Harman and Judith Jarvis Thomson, Moral Relativism and
Moral Objectivity (Cambridge, MA: Blackwell, 1996), pp. 125-154;
«Goodness» and «Moral requirement», Tanner lectures, Princeton
University, March 24-25, 1999. [3]
Ross, L., and R. E., Nisbett, The Person and the Sutuation:
Perspectives of Social Psychology (New York: McGraw-Hill, 1991),
Peter Railton, «Made in the shade: moral compatibilism and the aims
of moral theory», Canadian Journal of Philosophy,
Supplementary Volume 21. John Doris, «Persons situations, and
virtue ethics», Nous 32 (1998). Gilbert Harman, «Moral
Philosophy Meets Social Psychology: Virtue Ethics and the Fundamental
Attribution Error», Proceedings of the Aristotelian Society
1998-99, 99, pp. 315-331. [4]
Thomson, «The right and the good». W. D. Ross, The Right and The
Good (Oxford: Clarendon Press, 1930). [5]
John Rawls, A Theory of Justice (Harvard University Press:
Cambridge, MA, 1971). [6]
E.g., Rosalind Hursthouse, «Virtue theory and abortion», Philosophy
and Public Affairs, 20 (1991), p. 225. No entanto,
Hursthouse modifica imediatamente a sua perspectiva inicial sobre
aquilo que uma pessoa deve fazer. [7]
Veja-se a nota de rodapé 2. [8]
Para um desenvolvimento, veja-se Gilbert Harman, «Human flourishing,
ethics, and liberty», Philosophy and Public Affairs 12 (1983)
pp. 307-322, e as referências aí incluídas. [9]
Bennett, W. J. (1993). The Book of Virtues. New York: Simon
& Schuster. [10]
Hursthouse, «Virtue theory and abortion», p. 227, nota de rodapé. [11]
Harman, «Human flourishing», p. 315. Hursthouse, «Virtue theory and
abortion», p. 227, faz uma observação semelhante: «como se a
rapariga de quinze anos que foi violada pudesse perguntar a si mesma:
“Será que Sócrates faria um aborto se estivesse nestas circunstâncias?”» [12]
Poderíamos pensar que ser um bom conselheiro moral é uma das
virtudes que uma pessoa idealmente virtuosa tem de possuir, mas nesse
caso parece que a perspectiva se tornaria circular e trivial:
moralmente devemos fazer aquilo que nos seria aconselhado por um
conselheiro se, e somente se, moralmente devemos fazer isso. [13]
Veja-se a nota de rodapé 3. [14]
Harman, «Moral philosophy meets social psychology ...» na nota de
rodapé 3. [15]
Gilbert Harman, «Moral philosophy and linguistics», Proceedings
of the 20th World Congress of Philosophy: Volume I: Ethics,
editado por Klaus Brinkmann (Bowling Green, OH: Philosophy
Documentation Center, 1999), pp. 107-115. [16]
James D. Wallace, Virtues and Vices (Ithaca, NY: Cornell
University Press, 1978) distingue três classes de traços de carácter:
(1) coragem, cobardia, auto-indulgência; (2) conscienciosidade; (3)
benevolência. A sua análise baseia-se parcialmente em Richard Brandt,
«Traits of Character: A Conceptual Analysis», American
Philosophical Quarterly 7 (1970), pp. 23-37. [17]
Wallace diz: «Uma tese plausível é a de que as acções faltosas
que os filósofos reúnem sob a designação de “moralmente
errado” são acções inteiramente características de algum vício...»
(p. 59). Hursthouse diz: «Qualquer virtude gera uma instrução
positiva (age justamente, generosamente, corajosamente, honestamente,
etc.) e qualquer vício produz uma proibição (não ajas
injustamente, cruelmente, como um cobarde, desonestamente, etc.).» «Virtue
theory and abortion», p. 227. Para Thomson, a proibição de agir
como um cobarde não seria uma proibição moral. [18]
Maria Merritt, Virtue Ethics and the Social Psychology of Character
(Ph. D. Dissertation, University of California, Berkeley, 1999). [19]
Hursthouse adopta esta abordagem quando discute aplicações. Veja-se
também o seu «Applying virtue ethics», in Virtues and Reasons:
Philippa Foot and Moral Theory, editado por Rosalind Hursthouse,
Gavin Lawrence, and Warrent Quinn (Oxford: Clarendon Press, 1995), pp.
57-75. [20]
Compare-se com a discussão de Hursthouse de um caso similar, «Virtue
theory and abortion», p. 231. «Alguém que, por exemplo, hesite em
revelar uma verdade dolorosa, pensando que mentir seria generoso mas
desonesto ou injusto, pode ter que perceber, no que diz respeito a
estas circunstâncias específicas, não que a generosidade é mais (ou
menos) importante do que a justiça, nem que a honestidade ou a justiça
exigem por vezes que se aja cruelmente, mas que não estamos a ser
generosos para as pessoas ocultando-lhes este tipo de verdade, por
muito dolorosa que seja.» [21]
«Rightness and Goodness», p. 286. [22]
Agradeço a Ralph Wedgewood os seus úteis comentários. ©
Gilbert Harman, 1999. Tradução: ©
Pedro Galvão, 2002. Todos os direitos reservados. Publicado
com a autorização do autor.
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