|
N.º 1 — 2003 |
|
Meatética: Introdução James Lenman Department of Philosophy – University of Sheffield Estas
vão ser aulas de metaética. Na metaética o que nos interessa não
é descobrir respostas para questões morais – esse é o objectivo da ética
normativa –, mas tentar compreender questões como as seguintes. Será
que as questões morais são questões que têm realmente respostas? E, se
têm, como é isso possível? Existem verdades morais cuja descoberta é o
objectivo da ética normativa? Se existem, qual é a melhor perspectiva
filosófica para as compreender? Se não existem, em que situação é que
ficamos? Realismo moralUma
questão central será a do realismo moral. O que se entende por
isso? Bom, devo avisá-los que na verdade o termo «realismo moral» é um
termo extremamente ambíguo que autores diferentes entendem de maneira
diferente. Por agora vou ser razoavelmente vago. Digamos que alguém é um
realista moral se acredita que os juízos morais que fazemos na ética
normativa podem ser – e por vezes são – verdadeiros, e que
aquilo que os torna verdadeiros é um acordo com um domínio de factos
morais objectivos. Hoje
existem muitas posições filosóficas que envolvem negar de alguma
maneira a existência de factos morais objectivos – o emotivismo, por
exemplo, e o relativismo. Mas podemos chamar anti-realismo (ou irrealismo) à posição que
nega simplesmente a existência
de factos morais objectivos. Podemos
encontrar tal posição expressa, por exemplo, por Wittgenstein na sua «Lecture
on Ethics», uma conferência proferida em Oxford no fim dos anos vinte do
século passado [DGR, 3].[1]
Nesta conferência, Wittgenstein convida o seu auditório a fazer a
seguinte experiência mental. Imagine-se que há uma pessoa omnisciente.
Essa pessoa conhece todos os factos do mundo: conhece todos os movimentos
de todos os corpos que constituem o universo desde a sua origem até ao
seu termo, conhece todos os factos psicológicos relativos a todos os
pensamentos de todas as pessoas que alguma vez viveram. E o mesmo se
verifica noutros domínios: tudo o que é um facto ele conhece. Imagine-se
agora que esta pessoa escreve um livro enorme em que indica todos os
factos que conhece, ou seja, todos os factos do mundo. Esse livro, defende
depois Wittgenstein, não incluiria quaisquer proposições éticas.
Obviamente, incluiria proposições sobre os acontecimentos a que
atribuímos importância ética. Incluiria assim descrições de vários
assassinatos desagradáveis, e incluiria proposições sobre as nossas
atitudes éticas. Deste modo, poderia dizer-nos que esses assassinatos
foram condenados ou considerados errados nas sociedades em que ocorreram.
Mas o livro não incluiria o facto de um certo assassinato ser
errado, perverso ou mau, pois, diz Wittgenstein, tais factos não existem. Folheando
este livro enorme de todos os factos, poderíamos encontrar certos factos
– por exemplo, os factos sobre o 11 de Setembro – que
consideraríamos especialmente terríveis e chocantes; e poderíamos
encontrar outros factos – talvez relativos àquilo que algumas pessoas fazem
nas organizações de beneficência – que consideraríamos
particularmente bons e comoventes. Mas dizer que os primeiros destes
factos são factos terríveis e que os segundos são factos bons não é
indicar outros factos. Seguramente seria um facto termos essas reacções,
esses sentimentos de consternação ou satisfação, mas não existiriam
quaisquer factos que correspondessem a esses sentimentos. Por
que razão havemos de negar a existência de factos objectivos? Aqui vale
a pena concentrarmo-nos em J. L. Mackie, um autor mais recente. Vamos
examinar preliminarmente algumas das coisas que Mackie diz no capítulo
inicial do seu livro de 1977, Ethics: Inventing Right and Wrong
[excerto: DGR. 6]. O capítulo apresenta uma abordagem extremamente
influente a estas questões que nos proporciona um enquadramento
apropriado para o que virá mais tarde. J. L. Mackie não era um realista
moral. Segundo Mackie, não há quaisquer valores morais objectivos. Ele
apresenta-nos dois argumentos a favor desta ideia: o Argumento da
Relatividade e o Argumento da Esquisitice. Anti-Realismo: O Argumento da RelatividadeO
Argumento da Relatividade parte da observação de que sociedades
diferentes têm códigos morais diferentes. Na nossa sociedade talvez
pensemos que é um pouco excessivo decapitar as pessoas por adultério.
Noutras sociedades considera-se isso perfeitamente justo. Na nossa cultura
a circuncisão de raparigas é considerada bárbara e errada. Mas noutras
culturas esta prática é considerada normal. No entanto, como Mackie sabe
muito bem, esta variação por si nada nos diz sobre metaética: o facto
de pessoas diferentes terem crenças diferentes sobre x não serve
de muito como argumento a favor do cepticismo relativamente a x.
(As pessoas discordaram quanto a quem venceria o Campeonato do Mundo, mas
isso não impediu que algumas delas tivessem razão.) Na
verdade, sob um exame cuidado vemos que o argumento diz respeito à explicação
do desacordo. Se algum de vocês discordasse de mim quanto a uma questão
factual não-moral, isso poderia suceder por um de nós ter uma teoria de
fundo falsa, por um de nós estar a raciocinar mal ou por um de nós não
dispor de dados adequados; e o mesmo sucede quando duas culturas se
encontram em desacordo. Mas, segundo Mackie, quando encontramos um
desacordo moral entre duas culturas a explicação de que precisamos é
meramente sociológica. Estas têm modos de vida diferentes e o seu
desacordo moral reflecte isso. Suponha-se
que acreditamos que descendemos de primatas, os mesmos primatas de que os
chimpanzés e os gorilas descendem. Por que acreditamos nisto? Bom,
provavelmente acreditamos nisto porque isto é verdade: porque estes são
efectivamente os factos, e esses factos deixaram certos vestígios susceptíveis
de ser descobertos no registo fóssil, nos nossos genes, nas estruturas
anatómicas dos nossos corpos e na distribuição biogeográfica das espécies.
Depois aparecemos, descobrimos estes vestígios e usámos técnicas científicas
e analíticas sofisticadas – datação por carbono, análise estatística
e assim por diante – para deduzir e apoiar a teoria em questão. Mas
talvez a tribo Kambu (não procurem referências a ela, pois inventei-a) não
acredite nisto. Os seus membros acreditam que os deuses nos criaram a
partir de metal que tiraram do centro do sol. E podemos explicar isto
sugerindo que os Kambu desconhecem os dados e as técnicas que nós
conhecemos. Suponha-se
agora que os Kambu têm uma reverência e um respeito profundos pelos que
são hábeis e bem sucedidos a mentir. Entre os Kambu, nada é melhor para
ficar bem visto aos olhos dos outros que cometer fraudes eficazes sem ser
apanhado. E suponha-se que os seus vizinhos, os Membini (que também
inventei), são muito diferentes a este respeito. Os Membini têm uma
moralidade de escrupulosa honestidade e são contra o menor desvio
relativamente a esta. Se a ética fosse como a biologia, diríamos uma vez
mais que estava aqui em questão um facto genuíno – talvez o facto de
os Membini terem razão – e que o desacordo se devia ao acesso a
melhores dados ou à melhor capacidade de raciocinar dos Membini. Mas
Mackie pensa que não podemos esperar obter aqui este tipo de explicação.
Tudo o que podemos dizer, afirma, é que as sociedades dos Kambu e dos
Membini são muito diferentes nos mais diversos aspectos, e podemos
esperar, no caso de sermos bons antropólogos, descobrir uma boa maneira
de entender as diferenças no seu modo de vida que se reflectem nas suas
diferentes moralidades. Mas é pura e simplesmente errado, defende, pensar
que há uma verdade a que as duas tribos não conseguem aceder com o mesmo
sucesso. Anti-Realismo: O Argumento da EsquisiticeExaminemos
agora o outro argumento de Mackie, o Argumento da Esquisitice: «Se
existissem valores objectivos», escreve, «estes seriam entidades,
qualidades ou relações de um género muito estranho, radicalmente
diferentes de tudo o resto no universo.» [p. 95] Na verdade, este
argumento desenvolve-se em três conjuntos distintos de considerações. ExplicaçãoEncontramos
considerações sobre explicação: se existem valores objectivos,
como poderemos alguma vez descobrir algo sobre eles? Este
é um facto não-ético: há alguns seres humanos neste quarto. E este
facto é natural, ou seja, é o género de facto com que a ciência
costuma lidar: um facto empírico, um facto que descobrimos através do
funcionamento normal dos nossos cinco sentidos. Os factos da física, da
biologia, da química, da psicologia e da geografia são factos naturais,
factos sobre o mundo que nós – ou os cientistas – descobrimos
observando as coisas. A ciência e o senso comum estão ancorados em
factos naturais. Como os conhecemos? Mais especificamente, como sabemos
que há seres humanos neste quarto? Todos sabemos bastante sobre o modo
como sabemos isto. Sabemos que há fontes de luz no quarto e que a luz é
reflectida pelos seres humanos de uma maneira que os torna visíveis.
Sabemos que essa luz atinge as retinas dos nossos olhos, activando
processos mentais complexos que contribuem para definir as nossas crenças
sobre o nosso ambiente. Tudo isto é hoje simples senso comum, mas é óbvio
que o conhecimento que a ciência nos faculta sobre os processos
perceptivos naturais através dos quais conhecemos os factos naturais é
extremamente rico e vasto. Então
e os factos morais? Como é que os conhecemos? Alguns filósofos respondem
que os conhecemos precisamente pelos mesmos meios empíricos. Estes filósofos
– conhecidos por realistas morais naturalistas – pensam que os
factos morais são apenas uma espécie de factos naturais. Este realismo
moral naturalista conheceu um certo reflorescimento nos anos 80 e é hoje
bastante popular, mas quando Mackie escreveu o seu livro em 1977 esta
perspectiva era amplamente considerada muito pouco plausível.[2]
Pensava-se que duas pessoas podiam estar completamente de acordo quanto a
todos os factos naturais empíricos e ainda assim estarem em desacordo ético.
Deste modo, os factos morais – se existissem – teriam de ser factos de
um género especial não-natural. Aqueles que pensam que tais factos éticos
não-naturais existem – conhecidos por não-naturalistas éticos
– são assim o alvo principal de Mackie. Se
existem mesmo factos éticos não-naturais, como é suposto
conhecermo-los? Certamente não pelos meios empíricos comuns, pelo uso
dos nossos sentidos, pois todos os factos que conhecemos assim são factos
naturais. Os não-naturalistas éticos apelam aqui a um «sentido moral»
ou à «intuição moral», uma faculdade especial para apreender verdades
morais. Mas de que dados dispomos a favor da existência de uma tal
faculdade e o que sabemos sobre ela? Aqui, sugere Mackie, as respostas só
podem embaraçar o não-naturalista. Afinal, termos crenças morais parece
ser o único indício da existência dessa faculdade. Postulamos depois
essa faculdade para justificarmos perante nós próprios a convicção de
que tais crenças reflectem verdades morais, mas não temos qualquer outra
razão para acreditar na existência de uma faculdade moral. E,
obviamente, não sabemos nada sobre esta faculdade e o modo como funciona.
É possível escrever livros enormes sobre a anatomia e a fisiologia do
olho humano, bem como sobre o funcionamento da visão. Mas tudo o que o não-naturalista
pode fazer é invocar injustificadamente uma faculdade especial sobre a
qual não nos pode dizer nada. Mackie não fica impressionado. MotivaçãoVejamos
agora as considerações sobre motivação. Os factos morais parecem
diferir de todos os outros tipos de factos em virtude de poderem exercer,
quando conhecidos, uma influência directa na vontade. Isto parece torná-los
peculiarmente diferentes de todos os outros tipos de factos mais comuns.
Esta observação sobre a motivação tem as suas raízes na filosofia
moral de Hume, mas enquanto que Hume a exprimiu falando da razão, hoje é
mais usual exprimi-la como uma tese sobre factos e crenças. A
maior parte dos factos, sublinha Mackie, não nos dizem o que fazer.
Obviamente, alguns factos são interessantes de um ponto de vista prático,
mas só o são contingentemente: tudo depende dos interesses que temos.
Que se pode chegar à Universidade de Lisboa descendo até ao Marquês de
Pombal e apanhando o metro até à estação da Cidade Universitária tem
um grande interesse caso se deseje chegar à Universidade a partir das
Amoreiras. Que é possível ficar doente por se comer carne mal passada é
muitíssimo interessante para quem goste de comer carne e não queira
ficar doente. Mas os factos morais são peculiares a este respeito, pois a
ética é essencialmente prescritiva. É suposto que os factos
morais, em virtude da sua própria natureza, de algum modo nos digam o
que fazer. E é suposto que conhecer os factos morais nos leve a
fazer algo. É suposto, enfim, que o conhecimento dos factos morais
influencie o nosso comportamento, mas não apenas em virtude de acontecer
estarmos interessados naquilo a que dizem respeito: o seu alcance prático
é um aspecto essencial do tipo de facto que são. Mas como podem existir
factos assim? Como pode o mundo conter aquilo a que Mackie chama «entidades
essencialmente prescritivas» [p. 96]? Coisas que nos levam a agir pelo
simples facto de as conhecermos? Esta
dificuldade ocupa um lugar central na metaética contemporânea. Quase
todos os anti-realistas sublinham que a ética se torna muito estranha se
não a resolvermos, e a maioria dos realistas pensa que resolvê-la é a
parte mais difícil da sua tarefa. Mackie faz notar que é difícil ver
como poderiam existir factos que fossem essencialmente prescritivos, que
em seu entender é aquilo que os factos morais teriam de ser caso
existissem. Quaisquer factos desse género teriam de ser extremamente
esquisitos. Outros anti-realistas vão mais longe e defendem que a noção
de
um facto essencialmente prescritivo é pura e simplesmente
incoerente e não faz o menor sentido. Por
vezes diz-se a este respeito que a ética é directiva em relação
às acções. Obviamente, muitas outras coisas podem ser directivas: a
informação sobre onde vão dar as ruas de Lisboa pode dirigir as nossas
acções se tivermos interesses apropriados. Mas a directividade parece
ser a própria essência da ética. A ética é o domínio em que se diz o
que devemos fazer, como nos devemos comportar. E esta relevância prática
não caracteriza simplesmente uma aplicação possível da ética: há um
sentido em que dizer-nos o que fazer faz parte do conteúdo das
proposição éticas, mas não do conteúdo de «A Universidade de Lisboa
fica perto do Campo Grande», mesmo que por vezes as pessoas tenham um
grande interesse prático em ir à Universidade de Lisboa. Normatividade
é outro termo usado frequentemente neste contexto. A ética,
defende-se plausivelmente, difere de uma disciplina como a química em
virtude de ser normativa. Geralmente contrasta-se aquilo que é normativo
com aquilo que é descritivo. Imaginem que eu lhes digo: «Ninguém
fuma durante as aulas». Este juízo pode ser interpretado tanto normativa
como descritivamente. Entendido como um juízo descritivo é apenas uma
afirmação sociológica, uma afirmação sobre como as pessoas de facto
se comportam nas aulas. Entendido como um juízo normativo visa funcionar
prescritivamente, estabelecer uma regra ou norma para dirigir o vosso
comportamento. Podem saber sem qualquer dificuldade qual é a interpretação
correcta vendo simplesmente o que eu faço quando, cinco minutos depois,
um de vocês acende um cigarro. Se eu disser «Lamento muito, mas estava
enganado, pois afinal há quem fume durante as aulas», podem concluir que
o meu juízo era descritivo. Mas se eu disser, apontando para quem está a
fumar, «No fim da aula vamos ter uma conversa!», concluirão que o meu
juízo era normativo. Por vezes esclarece-se a diferença dizendo que
quando fazemos um juízo descritivo estamos a dizer algo que pretendemos
que se ajuste ao mundo, que o descreva fielmente, e se o mundo não
estiver de acordo com o que dizemos acabaremos por rejeitar ou rever o juízo.
Mas ao dizer algo de normativo estamos a pretender que o mundo se ajuste
àquilo que dizemos, e se isso não acontecer o problema não reside em nós,
mas no mundo. Ora,
é óbvio que todos os juízos descritivos visam indicar factos,
geralmente factos simples como o de que há pessoas na sala e nenhuma
delas está a fumar. Mas o realista moral parece comprometido com um género
de factos muito especial: factos normativos. Os juízos éticos de algum
modo têm de ser normativos (em virtude de visarem dirigir a acção) e
descritivos
(em virtude de visarem descrever
factos éticos normativos). E o que Mackie está a dizer é que
tais factos, os factos normativos, seriam muito diferentes dos
factos com que estamos mais familiarizados, teriam de ser factos de um género
muitíssimo especial. SuperveniênciaTeremos
muito mais a dizer sobre motivação e directividade. Por agora, vamos
concentrar-nos num terceiro aspecto do Argumento da Esquisitice, um
aspecto que diz respeito à superveniência. Os factos morais parecem
depender dos factos naturais: parecem ser supervenientes em relação a
estes. Mas como poderemos compreender esta superveniência e como a
conhecemos? Pensemos
uma vez mais num exemplo, considerando esta pequena história. Era uma vez
um homem chamado João. João tinha um hobby: aos fins-de-semana saía
para se encontrar com senhoras de idade encantadoras. Atraía-as para a
sua casa e aí cortava-as aos pedaços com um cutelo de talhante. João
fazia isto porque lhe dava prazer. Fim da história. Note-se
que a minha história não contém quaisquer factos éticos: limita-se a
descrever uma curta série de factos naturais perfeitamente claros. Mas é
óbvio que vocês, depois de conhecerem a minha história, retirarão uma
conclusão ética. A partir dos factos indicados concluirão que João é
um homem vil e que o seu comportamento é errado. Assim, as propriedades
éticas das acções de João estão dependentes ou são uma consequência
das suas propriedades naturais – ou, como Mackie diz, as primeiras são supervenientes
relativamente às segundas. Mas
como podemos entender esta relação? Esta certamente não parece ser uma
relação de consequência lógica. Quem ouvisse a minha história
e concluísse que João tem de ser um homem bom e decente estaria a
cometer um erro, mas não um erro lógico. Não existiria qualquer
contradição na sua opinião. E esta certamente também não parece ser
uma relação causal. Podemos dizer que a embriaguez habitual de João
causou a perda do seu emprego, mas não parece que as propriedades
naturais das acções de João causem de algum modo certas propriedades
morais. Mas então que relação existe entre estas? Mackie pensa que
neste ponto devemos sentir-nos perplexos. E, além disso, sabemos que essa
relação se verifica? Veja-se
a este respeito que tipo de conhecimento parece estar aqui em questão. A
história de João é fictícia: eu inventei-a. Quando invento uma história,
certamente compete-me a mim decidir quais são os factos que a constituem.
Então imaginemos que eu conto a história da seguinte maneira. Era uma
vez um homem chamado João que cortava aos pedaços senhoras de idade com
um cutelo de talhante para se divertir. Estas acções eram todas
moralmente muito boas. Fim da história. Por que razão não posso contar
a história assim? A verdade é que se eu tentar contá-la desta maneira
vocês pura e simplesmente discordarão: dirão que não, que as acções
de João não foram nem podem ter sido boas. Mas como sabem isso?
Imaginem que João é uma pessoa real que vive perto da Cidade Universitária.
Falo-lhes das coisas que João faz e colocamos a questão: as acções de
João são erradas? E eu respondo: «Isso não sei. Sei que o João gosta
de matar senhoras idosas, mas quando investiguei a situação esqueci-me
de ver isso. Esqueci-me de ver várias coisas: em que quarto ele as mata,
onde vai para as conhecer e se aquilo que ele faz é certo ou errado.
Voltamos lá para investigar?» Considerariam muito estranho eu dizer
isto. Depois de ouvirem falar dos hábitos de João não pensam que haja
mais alguma coisa a determinar, que seja preciso investigar mais
antes de decidirmos se João procede bem ou mal. É suposto seguir-se –
em algum sentido de «seguir» – dos factos naturais que as suas acções
são más. Existe assim uma espécie de ligação muito forte entre os
factos naturais e os factos morais, mas ainda não conseguimos explicar a
sua natureza nem o modo como a conhecemos. E, dirá Mackie uma vez mais,
isto só mostra como os factos morais são esquisitíssimos. Na verdade,
suficientemente esquisitos para isso nos fazer duvidar da sua existência. Teoria do erroSimon
Blackburn apresenta argumentos muito semelhantes contra a existência de
factos morais objectivos em Spreading the Word [Blackburn, 1984,
caps. 6 e 7]. Blackburn também desenvolve considerações sobre explicação,
motivação e superveniência, mas a sua perspectiva difere da de Mackie
num aspecto importante. Mackie
pensa que o pensamento moral comum está comprometido com a suposição de
que existem factos morais objectivos. Pensa que, se estamos interessados
em analisar conceitos morais como «bem», «certo» e «dever» tal como
normalmente os entendemos, temos de concluir que estes conceitos
incorporam de algum modo a noção de objectividade. Assim, segundo Mackie
o pensamento moral comum incorpora um erro. A sua teoria, como ele próprio
diz, é uma teoria do erro da moralidade. Aqui
é útil introduzir uma distinção de Michael Smith [Smith 1994, pp.
63-66 e 185]. Um realista moral é alguém que acredita na objectividade
dos valores morais, mas na verdade o realismo é complexo e devemos
distinguir duas teses:
A
tese conceptual é apenas uma tese sobre os nossos conceitos: procura
indicar-nos as condições de verdade das crenças morais. A minha crença
de que castigar criminosos é moralmente certo, por exemplo, é verdadeira se, e
apenas se, as acções de castigar criminosos têm a propriedade objectiva
em questão. Mackie
pensa que esta tese conceptual é verdadeira, mas nega a existência de
uma tal propriedade. Pensa que as nossas crenças morais comuns
comprometem-nos com a sua existência e que, por esta razão, todas essas
crenças são falsas. Assim, embora aceite a tese conceptual, rejeita a
tese substantiva. Pode
valer a pena recorrer aqui a uma analogia de Smith [1994, p. 64].
Suponha-se que decidimos fazer uma investigação sobre bruxas. A
primeira questão que podemos colocar é esta: o que são exactamente as
bruxas? Esta questão requer alguma análise conceptual, e obviamente é
suposto os filósofos serem bons nisso. De que estão a falar as pessoas
que falam de bruxas? Quais são as condições de verdade das afirmações
sobre bruxas? Como teria de ser o mundo para que, por exemplo, a afirmação
de que trabalham seis bruxas na Universidade de Lisboa fosse verdadeira?
Podemos responder a esta última questão dizendo que a afirmação seria
verdadeira se existissem seis mulheres com poderes mágicos a trabalhar na
Universidade de Lisboa, mas por agora estamos apenas a investigar
conceitos. Ainda não começámos a investigar o próprio mundo: ainda não
avançámos para a próxima questão, a questão substantiva. Depois de
termos esclarecido o que é suposto serem as bruxas, podemos perguntar se
existem bruxas. Depois de termos compreendido o que é preciso para o
conceito ser satisfeito, podemos perguntar se de facto alguma coisa o
satisfaz. Neste ponto muitos de nós adoptariam uma teoria do erro
sobre bruxas. Depois de termos decidido que algo é uma bruxa se, e apenas
se, é uma mulher com poderes mágicos, podemos determinar que nada é uma
bruxa. Analogamente, a tese conceptual do realista é apenas uma tese
sobre o conceito de (por exemplo) moralmente certo. Diz-nos que este é o
conceito de uma propriedade objectiva, deixando em aberto o problema de
saber se alguma coisa satisfaz esse conceito, ou seja, o problema de saber
se a tese substantiva é verdadeira. É esta tese substantiva que Mackie,
um defensor da teoria do erro quanto à moralidade, rejeita. Blackburn
não defende a teoria do erro. Tal como Mackie, rejeita a tese substantiva
do realista, mas também rejeita a tese conceptual. Pensa que podemos
considerar perfeitamente inteligível todo o discurso moral comum sem
pensar que este nos compromete com a existência de um domínio de factos
morais. Admite que aparentemente esse compromisso se verifica, ou seja,
que a um nível superficial a linguagem que usamos para fazer juízos
morais dá a ideia de estarmos a indicar factos, mas pensa que podemos
entendê-la perfeitamente sem pressupor isso. Na verdade, pensa que o
anti-realista pode ir muito longe na tentativa de explicar por que razão,
embora não existam factos morais, a um nível superficial a nossa
linguagem moral dá a ideia de que existem. Blackburn chama quase-realismo
a este projecto que examinaremos mais adiante.
Rejeitar a moralidade?Dado
que Mackie é um defensor da teoria do erro, poderíamos esperar que
rejeitasse totalmente a moralidade. Podemos chamar niilista ou rejeicionista
quanto à moralidade a quem adopta essa posição. Mackie, no entanto, não
chega bem a adoptá-la. Pensa que devemos rejeitar a ideia de que existem
factos morais objectivos, mas não vê por que razão não poderemos ainda
assim construir uma moralidade para regular a nossa vida, e dedica a maior
parte do resto do seu livro à discussão de sugestões e argumentos sobre
a melhor maneira de a construir. Wittgenstein
também não recomendou que rejeitássemos a moralidade. Embora tenha
passado toda a sua conferência a defender que os juízos éticos são
literalmente absurdos, não deixou de insistir que tinha um enorme
respeito por esta forma de absurdidade! É
natural pensar que as reacções de Mackie e Wittgenstein às suas próprias
conclusões não são muito satisfatórias, mas estas suscitam uma questão
importante com que vamos terminar esta aula. Se o anti-realismo ético é
verdadeiro, o que podemos concluir? Em que situação é que ficamos? O
rejeicionismo não parece uma opção que possamos levar muito a sério.
Imagine-se que no caso de João, o assassino de senhoras idosas, decidimos
que na verdade não há qualquer facto objectivo sobre a sua perversidade.
Será que isto significa que devemos deixar de pensar que João é
perverso? Nesse caso, se João for condenado a uma pena de prisão muito
longa, não deveremos ir para junto da prisão com cartazes a protestar
contra a injustiça de castigar um homem que não fez nada de mal? É óbvio
que não, pois certamente isso seria inconsistente com uma posição
rejeicionista. Se alguns argumentos metaéticos nos convencerem a deixarmos de
nos preocupar com crueldades e assassinatos, também nos darão
razões para deixarmos de nos importar com injustiças.
Na verdade, talvez nos dessem razões para deixarmos de nos preocupar com quase tudo. Obviamente,
isto parece totalmente descabido. Importamo-nos com muitas coisas de
muitas maneiras diferentes, e por que razão deveremos pensar que
precisamos de uma teoria metafísica sobre factos morais objectivos para
tornar isso legítimo? Afinal, a ética é o domínio de investigação
que se ocupa do raciocínio prático, ou seja, do raciocínio sobre o que
é melhor fazer, e deixar de realizar este tipo de raciocínio é algo que
não conseguimos fazer. Deste modo, como devemos enfrentar as perspectivas
do anti-realista? Uma resposta a isto, como Blackburn sugere, é dizer que
Mackie está enganado quanto à tese conceptual do realista, isto é, que
na verdade o pensamento moral comum não nos compromete com uma metafísica
objectivista. Outra resposta é dizer simplesmente que o anti-realista está
enganado, que na verdade a sua perspectiva é descabida. Mas esta resposta
é ociosa, e quem se incline para ela terá de responder de alguma maneira
aos argumentos que, como vimos, o anti-realista tem para oferecer. Referências
Stephen
Darwall, Allan Gibbard and Peter Railton: Moral
Discourse and Practice (Nova Iorque: Oxford University Press, 1997). e Simon
Blackburn: Spreading the Word (Oxford:
Clarendon Press, 1984). Michael
Smith: The Moral Problem (Oxford:
Blackwell, 1994).
[1]
Referência do autor à antologia organizada por Darwall, Gibbard e
Railton. (N. do T.) [2]
Veja-se na Aula 2 as razões disto. ©
James Lenman, 2002. Tradução: ©
Pedro Galvão, 2003. Revisão: Paula Mateus. Todos os direitos reservados. Publicado
com a autorização do autor.
|