N.º 1 — 2003

Os Homens Maus Poderão Levar Cérebros Bons a Fazer Coisas Más?

Michael F. Patton, Jr.

University of Montevallo

 

Considere o seguinte caso:

Na Terra Gémea, um cérebro numa cuba está ao volante de um trólei em movimento. Ao aproximar-se de uma bifurcação, o cérebro vê que só dispõe de duas opções: ou vai para a linha direita ou vai para a linha esquerda. Não há qualquer maneira de parar ou fazer descarrilar o trólei e o cérebro está consciente disso, pois o cérebro conhece tróleis. O cérebro está causalmente conectado ao trólei de tal maneira que o cérebro pode determinar o caminho que o trólei vai seguir.

Na linha direita há um único trabalhador ferroviário, Jones, que morrerá de certeza se o cérebro desviar o trólei para a direita. Se o trabalhador que está à direita não morrer, irá matar cinco homens simplesmente porque lhe apetece matá-los, mas ao matá-los salvará inadvertidamente a vida de trinta órfãos (um dos cinco homens que ele matará está a planear destruir uma ponte que o autocarro dos órfãos irá atravessar nessa noite). Se não for morto, na vida adulta um dos órfãos tornar-se-á um tirano que levará homens utilitaristas bons a fazer coisas más. Outro dos órfãos crescerá e tornar-se-á G. E. M. Anscombe, e um terceiro inventará as latas de refrigerantes.

Se o cérebro numa cuba escolher ir para a linha esquerda, o trólei atingirá e matará de certeza o trabalhador ferroviário que está na linha esquerda, «Esquerdino». Também atingirá e destruirá dez corações vivos que estão na linha, que poderiam ser (e seriam) transplantados para dez pacientes do hospital mais próximo que morrerão na ausência de corações de doadores. Estes são os únicos corações disponíveis, e o cérebro está consciente disto, pois o cérebro conhece corações. Se o trabalhador que está na linha esquerda sobreviver, também ele matará cinco homens – na verdade, os mesmos cinco homens que o trabalhador da linha direita mataria. No entanto, no caso de «Esquerdino» a morte dos cinco homens será uma consequência não pretendida de salvar dez homens: ele matará inadvertidamente os cinco homens enquanto corre para o hospital mais próximo de modo a entregar os corações a tempo. O acto de «Esquerdino» terá ainda outro resultado: o autocarro dos órfãos será poupado. Entre os cinco homens que «Esquerdino» matará contam-se o homem responsável por ter posto o cérebro a conduzir o trólei e a autora deste exemplo. Se os dez corações e «Esquerdino» forem destruídos pelo trólei, os dez pacientes a aguardar um transplante de coração morrerão e os seus rins serão utilizados para salvar a vida de vinte pacientes que aguardam um transplante de rim – um deles descobrirá a cura do cancro quando for crescido, e outro tornar-se-á Hitler. Existem outros rins e máquinas de hemodiálise, mas o cérebro não conhece rins, e por isso este não é um factor a ter em conta.

Presuma que a escolha do cérebro, seja ela qual for, será tomada como exemplo por outros cérebros em cubas e que assim os efeitos da sua decisão serão ampliados. Presuma também que se o cérebro escolher a linha direita isso resultará numa guerra injusta sem crimes de guerra, enquanto que se o cérebro escolher a linha esquerda isso resultará numa guerra justa com crimes de guerra. Além disso, há um génio cartesiano intermitentemente activo que ilude o cérebro de tal maneira que este nunca sabe se está a ser iludido.

 

Questão: O que deve fazer o cérebro?

 

Exemplo alternativo: O mesmo que o anterior, só que desta vez o cérebro foi sujeito a uma comissurotomia: agora a metade esquerda do cérebro é consequencialista, mas a metade direita é absolutista.

 

O Guia Destinado a Não-Filósofos para «Os Homens Maus Poderão Levar Cérebros Bons a Fazer Coisas Más?»

(ou Por que Razão Alguém Acha que Isto Tem Graça?)

 


© American Philosophical Association, 1988. Tradução: Pedro Galvão, 2002. Todos os direitos reservados.

Publicado com a autorização do autor.