N.º 1 — 2003

O Guia Destinado a Não-Filósofos para «Os Homens Maus Podem Levar Cérebros Bons a Fazer Coisas Más?»

(ou Por que Razão Alguém Acha que Isto Tem Graça?)

Considere o seguinte caso:

Na Terra Gémea, um cérebro numa cuba está ao volante de um trólei em movimento. Ao aproximar-se de uma bifurcação, o cérebro vê que só dispõe de duas opções: ou vai para a linha direita ou vai para a linha esquerda. Não há qualquer maneira de parar ou fazer descarrilar o trólei e o cérebro está consciente disso, pois o cérebro conhece tróleis. O cérebro está causalmente conectado ao trólei de tal maneira que o cérebro pode determinar o caminho que o trólei vai seguir.

Na linha direita há um único trabalhador ferroviário, Jones, que morrerá de certeza se o cérebro desviar o trólei para a direita. Se o trabalhador que está à direita não morrer, irá matar cinco homens simplesmente porque lhe apetece matá-los, mas ao matá-los salvará inadvertidamente a vida de trinta órfãos (um dos cinco homens que ele matará está a planear destruir uma ponte que o autocarro dos órfãos irá atravessar nessa noite). Se não for morto, na vida adulta um dos órfãos tornar-se-á um tirano que levará homens utilitaristas bons a fazer coisas más. Outro dos órfãos crescerá e tornar-se-á G. E. M. Anscombe, e um terceiro inventará as latas de refrigerantes.

Se o cérebro numa cuba escolher ir para a linha esquerda, o trólei atingirá e matará de certeza o trabalhador ferroviário que está na linha esquerda, «Esquerdino». Também atingirá e destruirá dez corações vivos que estão na linha, que poderiam ser (e seriam) transplantados para dez pacientes do hospital mais próximo que morrerão na ausência de corações de doadores. Estes são os únicos corações disponíveis, e o cérebro está consciente disto, pois o cérebro conhece corações. Se o trabalhador que está na linha esquerda sobreviver, também ele matará cinco homens – na verdade, os mesmos cinco homens que o trabalhador da linha direita mataria. No entanto, no caso de «Esquerdino» a morte dos cinco homens será uma consequência não pretendida de salvar dez homens: ele matará inadvertidamente os cinco homens enquanto corre para o hospital mais próximo de modo a entregar os corações a tempo. O acto de «Esquerdino» terá ainda outro resultado: o autocarro dos órfãos será poupado. Entre os cinco homens que «Esquerdino» matará contam-se o homem responsável por ter posto o cérebro a conduzir o trólei e a autora deste exemplo. Se os dez corações e «Esquerdino» forem destruídos pelo trólei, os dez pacientes a aguardar um transplante de coração morrerão e os seus rins serão utilizados para salvar a vida de vinte pacientes que aguardam um transplante de rim – um deles descobrirá a cura do cancro quando for crescido, e outro tornar-se-á Hitler. Existem outros rins e máquinas de hemodiálise, mas o cérebro não conhece rins, e por isso este não é um factor a ter em conta.

Presuma que a escolha do cérebro, seja ela qual for, será tomada como exemplo por outros cérebros em cubas e que assim os efeitos da sua decisão serão ampliados. Presuma também que se o cérebro escolher a linha direita isso resultará numa guerra injusta sem crimes de guerra, enquanto que se o cérebro escolher a linha esquerda isso resultará numa guerra justa com crimes de guerra. Além disso, há um génio cartesiano intermitentemente activo que ilude o cérebro de tal maneira que este nunca sabe se está a ser iludido.

 

Questão: O que deve fazer o cérebro?

 

Exemplo alternativo: O mesmo que o anterior, só que desta vez o cérebro foi sujeito a uma comissurotomia: agora a metade esquerda do cérebro é consequencialista, mas a metade direita é absolutista.  


 

Terra Gémea – Este exemplo foi usado pela primeira vez por Hilary Putnam em «The Meaning of Meaning» num argumento a favor da ideia de que diferenças microscópicas em substâncias ou objectos macroscopicamente indistinguíveis mudariam o significado das nossas palavras. Nesse artigo, Putnam diz-nos que na Terra Gémea aquilo que a nós, terrestres, parece água na verdade não é composto de H2O, mas de xyz. Assim, se fôssemos transportados para a Terra Gémea todos os nossos juízos sobre xyz parecer-nos-iam juízos verdadeiros sobre água, mas na verdade seriam juízos falsos sobre xyz. Isto é em parte uma resposta ao descritivismo russelliano e ao nominalismo enquanto perspectiva sobre o significado dos termos.

 

Cérebro numa cuba – Uma actualização do génio cartesiano à maneira dos filmes de ficção científica dos anos cinquenta. O cenário do cérebro numa cuba é uma experiência mental concebida para mostrar a plausibilidade do cepticismo radical. Se fôssemos apenas cérebros em cubas, ligados a computadores capazes de enviar impulsos eléctricos iguais aos que o nosso corpo costuma receber, teríamos experiências indistinguíveis das que constituem a «vida real» e ficaríamos sem qualquer hipótese de descobrir a nossa verdadeira situação. Assim, de acordo com os que consideram este exemplo persuasivo, é possível que o cepticismo radical – a tese de que não temos qualquer conhecimento seguro – seja verdadeiro. Hilary Putnam reagiu ao cenário do cérebro numa cuba com uma versão do argumento a favor da ideia de que o cepticismo radical tem de ser falso. Putnam usa uma versão do argumento da linguagem privada para defender que um cérebro numa cuba não teria quaisquer crenças verdadeiras. De acordo com a teoria do céptico radical, devemos supor que um cérebro numa cuba que estivesse ligado ao computador de modo a receber os mesmos inputs que teria recebido se estivesse num corpo acreditaria nas mesmas coisas em que nós acreditamos. Mas não teria qualquer referente público para as suas palavras e frases, e por isso não poderia ter qualquer linguagem humana, pois segundo Putnam todas as linguagens precisam de referentes públicos. Putnam defende que o céptico que pensa que todas nossas crenças são (ou poderiam ser) falsas tem de supor que nós somos como cérebros em cubas. Mas como cérebros em cubas não poderiam ter uma linguagem e nós temos...

 

Conhece – No artigo de Judith Jarvis Thomson que reanimou o problema do trólei, «Killing, Letting Die, and the Trolley Problem», a palavra «conhece» surge em itálico quando se estipula que o condutor do trólei tem apenas duas opções. Ele pode parar ou fazer descarrilar o trólei, escreve Thomson, e o condutor tem consciência disto porque ele conhece tróleis. Peguei neste aspecto e abusei dele ao longo do artigo, o que teve um grande efeito cómico, não acha?

 

Jones – Jones é o nome habitual do infeliz «homem comum» em todos os exemplos filosóficos desde o tempo daqueles rapazes ousados de Cambridge (Bertie Russell, G. E. Moore e Alfred North White-Westinghouse) Jones? Não podiam ter arranjado um nome mais original? Grandes génios criativos, não há dúvida...

 

G. E. M. Anscombe – A Sr.ª Anscombe é uma filósofa moral inglesa muito famosa.

 

Latas de refrigerantes – Não são giras? Especialmente as novas, com uma abertura grande? Meu Deus, adoro tecnologia...

 

Consequência não pretendida – Quem está familiarizado com a Igreja Católica e a sua influência na filosofia moral, sabe que esta é uma referência à sua Doutrina do Duplo Efeito, a doutrina segundo a qual é permissível fazer absolutamente tudo a toda a gente desde que o queiramos e ninguém nos possa impedir. Não, espere! Esta é a sua Doutrina da Vida Quotidiana. A Doutrina do Duplo Efeito é a doutrina segundo a qual em certas circunstâncias um agente não é culpável pelas consequências previstas, mas não pretendidas, de acções moralmente permissíveis, mesmo que essas consequências sejam imorais ou impermissíveis. Esta doutrina surge frequentemente em discussões sobre o bombardeamento de alvos civis durante a guerra. Por outras palavras, se alguma coisa que eu disse aqui o ofendeu, paciência. Eu não tinha a intenção de o ofender, só pretendia esclarecê-lo, e por isso não fiz nada de mal!

 

Autora deste exemplo – Esta parte do exemplo também deve muito ao artigo de Judith Jarvis Thomson, «Killing, Letting Die, and the Trolley Problem». Thomson foi a filósofa que concebeu o caso parecido conhecido por problema do transplante ou problema do trólei. Neste problema temos que decidir se sacrificamos uma pessoa cujos órgãos podem ser utilizados para salvar cinco pessoas que estão prestes a morrer. É certo que a maior parte das pessoas desviaria o trólei para cima de um trabalhador de modo a salvar cinco, mas é ainda mais certo que não sacrificariam um paciente de modo a salvar cinco no caso cirúrgico. Esta assimetria deu origem a um enorme esforço de análise das supostas diferenças morais que se verificam entre os dois casos. Penso que Jonathan Bennett resolveu a disputa em «Killing and Letting Die» e no seu livro Events and Their Names.

 

Hitler – Está a brincar, não está? Não sabe quem foi Hitler? Volte para cima.

 

Ampliação do efeito – Mais tarde ou mais cedo, qualquer utilitarista digno desse nome tem de enfrentar um exemplo de ilha deserta. Os críticos do utilitarismo nunca deixam de sublinhar que, se um utilitarista estivesse numa ilha deserta sem qualquer possibilidade de vir a ser resgatado ou descoberto, nas circunstâncias apropriadas qualquer curso de acção seria permissível. Suponho que leram demasiadas vezes A Ilha do Tesouro quando eram jovens. Seja como for, a ideia é mostrar que, segundo os cálculos utilitaristas, todas as formas de comportamento repreensível devem ser reprimidas apenas porque seria mau (i.e., provocaria mais infelicidade que prazer) as más acções serem descobertas. Numa ilha deserta a ameaça de descoberta desapareceria e nós, utilitaristas, ficaríamos como os miúdos de O Senhor das Moscas. Para impedir as lamúrias dos anti-utilitaristas, incluo no meu caso a ideia de que todos os cérebros em cubas se comportariam exactamente como o cérebro.  

 

Guerra justa – Santo Agostinho foi um dos primeiros filósofos que dedicou muito tempo e energia mental à defesa da ideia de que podem haver guerras justas desde que certas condições rigorosas sejam satisfeitas. Desde então outros filósofos desenvolveram o projecto e passaram ainda mais tempo a pensar no problema de saber que guerras são justas e que guerras são injustas. Investigue.

 

Génio cartesiano – Ser imaginado por René Descartes nas suas extremamente influentes Meditações sobre a Filosofia Primeira. Descartes está interessado em assegurar-se de que todas as suas crenças são dignas de confiança, e por isso decide suspender todas as crenças de que não pode estar absolutamente seguro. Para ter a certeza de que não persistem quaisquer crenças duvidosas, imagina um ser omnipotente cujo objectivo principal é enganá-lo sistematicamente. Descartes conclui que um tal ser poderia iludi-lo fazendo-o enganar-se em todas as suas crenças excepto nesta – a crença na sua própria existência. Esta é a fonte da famosa expressão Cogito, ergo sum.

 

Comissurotomia – Uma operação (tome atenção, pois estamos precisamente a falar de cirurgia cerebral) na qual os neurónios e o tecido que ligam os hemisférios esquerdo e direito (ou direito e esquerdo, consoante o ponto de vista) são cortados, de tal modo que deixa de ocorrer qualquer comunicação entre os dois lados do cérebro. Esta operação foi realizada sobretudo em pessoas com epilepsia de maneira a reduzir a intensidade dos seus ataques, mas os resultados deram origem a um bom terreno para exploração filosófica chamado Ciência Cognitiva. Os efeitos da comissurotomia são assombrosos, até porque não se manifestam fora das condições laboratoriais. Uma das coisas mais surpreendentes que se descobre quando se investiga o assunto é a facilidade com que as pessoas deixavam os médicos brincar com o seu cérebro nos anos 50 e 60. Na altura não devia haver advogados suficientes. Duas leituras recomendáveis são o bom livro de Charles Marks, Commissurotomy, Consciousness, and Unity of Mind, e o ensaio de Thomas Nagel, «Brain Bisection and the Unity of Consciousness».

 

Consequencialista – Um consequencialista é um filósofo moral que pensa que a correcção ou incorrecção de uma acção depende apenas das suas consequências: não interessa se um acto cai dentro de uma certa categoria, a intenção do agente ou qualquer outro aspecto da acção. O utilitarismo é uma forma muito conhecida de consequencialismo (apresentada, entre outros, por Mill e Bentham), segundo a qual a consequência relevante é quantidade de felicidade que um acto produz.

 

Absolutista – Um absolutista é um filósofo moral que pensa que algumas acções são categoricamente erradas, de tal maneira que nunca podemos ponderar a possibilidade de as realizar. Immanuel Kant (tal como G. E. M. Anscombe) é um absolutista muito conhecido: defendeu que nunca é permissível dizer uma mentira, por muito trivial que seja, de modo a conseguir um bem, por muito grande que seja.

 


Autor: Michael Patton. Tradução: Pedro Galvão, 2002. Todos os direitos reservados.

Publicado com a autorização do autor.