N.º 2 — 2003

Embora seja conhecido sobretudo pela seu trabalho no domínio da epistemologia, Dancy tem desenvolvido estudos importantes  no âmbito da ética. O seu livro Moral Reasons (1993) consiste em grande medida numa defesa do realismo moral e numa crítica profunda ao consequencialismo.

Particularismo Moral

Jonathan Dancy

Department of Philosophy – The University of Reading

Na sua versão mais incisiva, o particularismo moral é a perspectiva segundo a qual não há quaisquer princípios morais defensáveis, o pensamento moral não consiste na aplicação de princípios morais a casos particulares e não se deve conceber a pessoa moralmente perfeita como uma pessoa de princípios. No entanto, há versões mais cautelosas desta perspectiva. De acordo com aquela que é, talvez, a versão defensável mais forte, ainda que possam existir alguns princípios morais, a racionalidade do pensamento e julgamento morais não depende de modo algum de um aprovisionamento adequado de tais princípios, e um juiz moralmente perfeito não precisaria apenas de compreender um conjunto apropriado de princípios e de saber como aplicá-los. Quando muito, os princípios morais são muletas que uma pessoa moralmente sensível dispensaria -- e, na verdade, o uso dessas muletas pode mesmo fazer-nos incorrer em erros morais.

O adversário do particularista é o generalista. O generalismo ético é a perspectiva segundo a qual a racionalidade do pensamento e julgamento morais depende de um aprovisionamento adequado de princípios morais.

1. Duas concepções dos princípios morais

Dado que vamos discutir a questão de saber se necessitamos de princípios morais, precisamos de ter alguma ideia sobre o significado de «princípio moral». Infelizmente, existem duas concepções radicalmente diferentes da natureza dos princípios morais. De acordo com a primeira concepção, a concepção «absoluta», um princípio moral é uma asserção universal que nos diz que todas as acções de um certo tipo são globalmente erradas (ou certas). O princípio «Não quebres as tuas promessas» pode ser formulado de várias maneiras: «É errado quebrar as promessas que fazemos», «Todas as acções que implicam quebrar uma promessa são erradas» e assim por diante. Segundo a concepção absoluta, todas estas frases querem dizer que todo o acto de quebrar uma promessa é um acto errado, independentemente do que se possa dizer a seu favor. Cada um desses actos é globalmente errado, sejam quais forem os seus aspectos redentores.

De acordo com uma maneira muito diferente de entender os princípios morais, estes são «contributivos», e não absolutos. Entendido desta segunda maneira, o nosso princípio diz-nos que, se uma acção implica quebrar uma promessa, isso conta contra si. A acção é pior em virtude de consistir na quebra de uma promessa. Obviamente, pode ser pior em virtude de consistir na quebra de uma promessa, mas melhor devido a outros aspectos  -- por exemplo, devido à propriedade de ser bem intencionada. A concepção contributiva dos princípios morais admite que pode-se aplicar mais do que um princípio a um dado caso, pois sustenta que cada princípio é, por assim dizer, parcial -- cada princípio especifica o modo como as coisas são apenas num certo aspecto. No entanto, as acções têm muitos aspectos relevantes. Alguns contam a seu favor; outros contam contra si. O facto de a acção ser globalmente certa ou errada depende do saldo determinado a partir daquilo que esta tem de certo e de errado. Os próprios princípios contributivos não nos dizem como determinar esse saldo. Só especificam as contribuições uma a uma, deixando-nos a tarefa de descobrir como estas se combinam. Algumas pessoas supõem que os próprios princípios podem ser ordenados em função da sua importância. Se isto fosse verdade, seria mais fácil descobrir aquilo que mais importa num dado caso. Outros supõem não dispomos de qualquer ordenação lexical desse género e que a questão fica entregue ao «julgamento» intuitivo.

Dado que existem estas duas concepções bastante diferentes acerca daquilo que nos diz um princípio moral, a nossa discussão precisa de ter em conta ambas as possibilidades. Se o particularismo for verdadeiro, não existirá muito espaço para princípios morais de qualquer um dos géneros.

2. Aquilo em que o particularista não acredita

Pelo menos nas culturas marcadas pela tradição cristã, é habitual conceber a pessoa moral como uma pessoa de princípios. Esta pessoa é aquela que aprendeu, ou desenvolveu para si própria, um leque suficiente de princípios morais sólidos (de qualquer um dos géneros) e que é suficientemente competente a aplicá-los aos casos que vão aparecendo. Não há qualquer necessidade de subestimar o tipo de competência necessária para fazer isso; o procedimento seguramente está longe de ser mecânico. Precisamos de julgar para decidir se um princípio se aplica e, caso se aplique, para descobrir exactamente o que este exige de nós. Ainda assim, por muito difícil que seja, a formulação de juízos morais é aqui concebida como a aplicação de princípios a casos.

Se a actividade de fazer juízos morais é racional, tem de estar sujeita a restrições de consistência. O que temos de fazer quando nos exigem que sejamos consistentes nos nossos juízos morais? A resposta é que temos de aplicar os nossos princípios consistentemente, isto é, aplicar o mesmo princípio a casos similares. É inconsistente aplicar o princípio «Não mintas» a casos que envolvem os nossos amigos e não o aplicar àqueles que envolvem desconhecidos. Se o leitor quiser comportar-se dessa maneira, o seu princípio será «Não mintas aos teus amigos». Isto mostra, obviamente, que a consistência não é a única exigência. É suposto os nossos princípios morais serem imparciais, e não é óbvio que o princípio «Não mintas aos teus amigos» satisfaça esta condição. Porém, pelo menos aquele que aceita este princípio pode dizer a verdade aos seus amigos e mentir aos desconhecidos sem cometer uma inconsistência.

Por que razão concebemos a pessoa moral como uma pessoa de princípios? E por que pensamos que os juízos morais estão sujeitos a este género de restrição de consistência? (Como veremos depois, a restrição de consistência pode assumir outras formas.) Creio que a resposta é que supomos que, na ausência de princípios morais, não poderia haver qualquer diferença entre o certo e o errado. A propriedade de ser certo e a propriedade de ser errado são peculiares, e uma acção só pode adquiri-las em virtude de estar relacionada de algum modo com um princípio. Assim, caso não existissem princípios que dissessem que tipos de acções são certas e que tipos de acções são erradas, nenhuma acção seria certa nem errada. Deste ponto de vista, dificilmente será surpreendente que o bom juiz moral seja a pessoa capaz de seguir na sua mente o modo pelo qual as acções se tornam certas ou erradas, o que exige conhecer os princípios relevantes e ver que estes têm um certo efeito numa ocasião e outro efeito noutra ocasião. E dificilmente será surpreendente que a consistência na actividade de julgar corresponda apenas à aplicação de princípios similares a casos similares.

Um argumento bastante difere apela mais a uma necessidade epistemológica do que a uma necessidade metafísica de princípios. Se existe uma distinção entre acções certas e erradas, como a podemos detectar? Tem de haver uma diferença detectável entre as propriedades das certas e as propriedades das erradas. Ora, se uma acção é errada, é errada devido a algumas das outras características que possui -- às características não-morais que a tornam errada. Essas características não-morais serão detectáveis da maneira habitual, seja ela qual for. Os bons juizes morais, tendo-as detectado, podem de alguma maneira descobrir se estas tornam a acção certa ou errada. Se esta capacidade não é uma questão de lógica, pelo menos tem de se basear num conhecimento implícito das regularidades que ligam as características não-morais das acções às suas propriedades morais. Os princípios morais especificam essas regularidades. Assim, para que seja possível fazer juízos morais, tem de existir, contrariamente àquilo que o particularista defende, um conjunto de princípios que liguem as propriedades morais a propriedades não-morais.

Se esta é a nossa imagem do indivíduo que tenta descobrir o que deve fazer, como tenderemos a conceber a maneira de resolver desacordos entre dois indivíduos? Obviamente, terão de esclarecer alguns factos. Depois, presumivelmente terão de tentar estar de acordo pelo menos a respeito dos princípios considerados relevantes (isto é, têm ambos de aceitar os princípios e de os considerarem relevantes para o caso em questão). Por fim, terão de concordar quanto ao curso de acção que esses princípios recomendam na situação que enfrentam. Esta seria, poderíamos dizer, uma resolução total de qualquer desacordo inicial. De outro modo, estaremos a procurar alguma forma de compromisso. É possível, por exemplo, que um desacordo relativo a princípios acabe por não fazer qualquer diferença em termos práticos, pelo que pode ser resolvido noutra ocasião.

Resumindo, temos aqui uma perspectiva sobre o modo como as razões morais funcionam e uma descrição do agente perfeitamente moral cujos processos de decisão estão de acordo com o modo como as razões funcionam, isto é, estão de acordo com o modo pelo qual uma acção se torna certa ou errada. Contudo, o modo como as razões morais funcionam provavelmente é muito diferente do modo como as outras razões funcionam. As outras razões não são conduzidas por princípios. A moralidade é especial, pois sem princípios esta é impossível. (Recordemos que os dois argumentos a favor da necessidade de princípios acima apresentados apelam à natureza especial do certo e do errado, ou das propriedades morais em geral.)

3. Aquilo em que o particularista acredita

Tal como o generalista, o particularista acredita que a pessoa perfeitamente moral é aquela que é totalmente sensível às razões morais presentes no caso. Contudo, o particularista apresenta uma ideia muito diferente acerca do que é ser totalmente sensível a essas razões. A ideia do particularista é a de que as razões morais não operam de maneiras significativamente diferentes das outras razões -- razões para agir mais comuns, por exemplo, ou razões para acreditar. A moralidade pode distinguir-se pelo seu assunto, mas o pensamento moral não tem uma estrutura distinta.

Para formarmos uma perspectiva sobre o que significa a total sensibilidade a razões, precisamos de ter uma imagem do modo como funcionam as razões morais. O aspecto central do particularismo é a sua insistência na variabilidade. Essencialmente, o generalista exige igualdade na maneira como uma e a mesma consideração funciona em cada caso, mas o particularista não considera isso necessário. Um certo aspecto pode fazer uma diferença moral num caso e outra diferença noutro caso. Os aspectos ou características têm, por assim dizer, uma relevância variável. A relevância de um aspecto numa nova situação e, caso esse aspecto seja relevante, o papel exacto que nela desempenha (a «forma» que a sua relevância aí assume), é sensível a outros aspectos da situação. Esta tese emerge como consequência da doutrina particularista essencial, a que podemos chamar holismo de razões. Segundo esta doutrina, aquilo que constitui uma razão num caso pode não constituir qualquer razão, ou mesmo constituir uma razão para fazer o contrário, noutro caso. Na ética, um aspecto que torna melhor uma acção pode tornar pior outra acção e não fazer qualquer diferença numa terceira acção.

Os particularistas supõem que esta doutrina é verdadeira para as razões em geral. Por isso, a sua aplicação às razões morais é apenas uma parte ou uma parcela de uma história mais ampla. Para dar um exemplo não-moral, suponha-se que agora parece-me que está uma coisa vermelha à minha frente. Podemos dizer que geralmente isso é uma razão (mas não, necessariamente, uma razão suficiente) para eu acreditar que existe uma coisa vermelha à minha frente. Porém, num caso em que eu também acredito que tomei recentemente uma droga que faz as coisas azuis parecerem vermelhas e as coisas vermelhas parecerem azuis, a aparência de vermelho é uma razão para eu acreditar que existe uma coisa azul, e não vermelha, diante de mim. As coisas não se passam da seguinte maneira: uma razão que eu tinha antes para acreditar que uma coisa é vermelha foi esmagada por razões contrárias. Na verdade, esta razão deixou se ser uma razão para acreditar que há uma coisa vermelha diante de mim  -- é uma razão para acreditar no oposto.

Exemplos como este estabelecem a variabilidade das razões para acreditar. Passando às razões para agir, podemos observar que em alguns contextos o facto de uma coisa ser contra à lei é um razão para não a fazer, mas que noutros contextos é uma razão para fazê-la (por exemplo, de maneira a protestar contra a existência de uma lei que governa um aspecto da vida privada no qual a lei não deve interferir). Os exemplos deste género podem ser multiplicados à vontade. Parecem estabelecer o holismo, isto é, a variabilidade das razões para acreditar e das razões comuns para agir. O particularista sugere que não há qualquer razão para supor que as razões morais funcionam de uma maneira radicalmente diferente. Na verdade, há uma espécie de presunção contra essa ideia. Essa presunção baseia-se em parte no facto de que ninguém é capaz de dizer com confiança que razões são morais e que razões não o são. Isto significa que introduzir uma diferença radical no modo como os dois tipos de razões funcionam tem de parecer algo bastante peculiar. Mas a presunção também se baseia em parte no facto de a diferença proposta pelo generalista ser muito radical, pois afecta aquilo a que poderíamos chamar a própria lógica do pensamento moral. Supor que o pensamento moral tem uma lógica diferente das outras formas de pensamento é adoptar uma concepção bifurcada da racionalidade. A racionalidade moral está ligada a princípios, baseia-se em razões invariantes. As outras formas de racionalidade não são nada assim. Os particularistas pensam que esta sugestão é muito estranha.

Estas ideias sobre o holismo ou a variabilidade das razões têm de ser formuladas de maneiras diferentes, consoante a concepção dos princípios que visam atingir -- a absoluta ou a contributiva. Os princípios visam sempre especificar razões invariantes, mas as razões que especificam têm um estilo bastante diferente. Os princípios absolutos, que especificam um aspecto ou uma combinação de aspectos que torna sempre errada (ou certa) uma acção em todos os casos em que está presente procuram especificar, por assim dizer, uma razão global invariante. Os contra-exemplos a princípios deste género consistem em casos nos quais o suposto aspecto ou combinação de aspectos está presente sem que, no entanto, a acção seja globalmente errada (ou globalmente certa). Os princípios contributivos são diferentes. Visam especificar aspectos que fazem sempre a mesma contribuição, seja qual for o contexto. Os contra-exemplos a princípios contributivos propostos consistem em casos em que o aspecto indicado está presente mas não tem qualquer importância ou é importante da maneira errada (por exemplo, uma propriedade que alegadamente contribui para tornar certa uma acção torna-a pior, e não melhor). Os particularistas entendem que o seu holismo é uma razão para rejeitar qualquer invariância de razões, seja ao nível global ou ao nível contributivo. As razões enquanto tais, dizem, não precisam de se comportar dessa maneira. No entanto, isto é consistente com o reconhecimento de algumas razões invariantes. Porém, o particularista diz que a possibilidade da moralidade não depende de forma alguma de um aprovisionamento adequado das razões invariantes que os princípios tentam especificar. As concepções da moralidade baseadas em princípios, como as que especificam dez (ou qualquer outro número) de princípios morais básicos (e. g. Gert 1998), começam a parecer bastante peculiares.

Vimos até agora que as acções tornam-se certas ou erradas de muitas maneiras diferentes. Os particularistas são «pluralistas», acreditam que há mais do que uma propriedade moralmente relevante. Muitas propriedades (ou aspectos) podem fazer uma diferença quanto ao modo como devemos agir e, por isso, podem ser moralmente relevantes. No entanto, uma propriedade pode ser relevante numa ocasião, mas não noutra, e pode contar a favor da acção num certo contexto e contra a acção noutro contexto. Não é tudo isto terrivelmente confuso? Se tudo isto é tão confuso, como poderemos orientar-nos? Será que não podemos fazer mais que olhar para o caso em questão e esperar que as complexas inter-relações entre os vários aspectos que são relevantes nesse caso se nos revelem de algum modo? Não existe qualquer conhecimento moral geral que possamos extrair da experiência e usar num novo caso? Os particularistas não precisam de negar esta possibilidade. A questão é determinar a forma que um tal conhecimento moral geral assumirá se não for um conhecimento do tipo de invariabilidades a que o particularismo se opõe e que os princípios tentam captar. Sugiro que aquilo que o juiz moral experiente conhece é a ampla variedade de maneiras pelas quais um aspecto pode contribuir para determinar como devemos agir. Não tem de existir um núcleo duro, um elemento comum nesse conjunto de «tipos de contribuição», um conjunto limitado de casos paradigmáticos. Em vez disso, ao compreender o conteúdo prático de um conceito como o de crueldade, aquilo que conhecemos é o tipo de diferença que este pode fazer quando aquilo que nos propomos fazer seria cruel, isso de uma maneira que nos permite ver novas diferenças em situações bastante diferentes das que encontrámos até agora. Os particularistas podem sugerir que isto assemelha-se bastante àquilo que sabemos quando conhecemos o conteúdo semântico de um termo. Em virtude de conhecermos o conteúdo semântico (o significado) de «e», dominamos diversas contribuições que «e» pode fazer nas frases em que ocorre. Não tem de existir um «significado central» de «e»; seria errado sugerir que «e» significa basicamente conjunção. Se só conhecêssemos a conjunção, não seríamos utilizadores competentes de «e» em português, pois existem muitos usos que pouco ou nada têm a ver com a conjunção. Por exemplo: «Dois e dois são quatro»; «E o que pensas que estás a fazer?» (uma pergunta a uma criança que brinca na sala a meio da noite); «O João e a Maria levantaram o pedregulho»; «O pássaro voava e voava». Aqueles que são competentes com «e» não ficam confundidos com exemplos como estes, mas não estão a tentar compreendê-los vendo-os como semelhantes a um caso conjuntivo considerado central ou paradigmático . Os particularistas morais dirão o mesmo tipo de coisa sobre aquilo que sabemos quando conhecemos o conteúdo prático de um conceito -- familiarizamo-nos com a sua gramática prática. Assim, existe aqui complexidade, mas esta é controlável.

Isto mostra-nos como os particularistas concebem a deliberação moral, a maneira como um indivíduo tenta descobrir como agir. Não há qualquer tentativa de olhar para a situação à luz de princípios, mas há uma tentativa de descobrir os aspectos que importam e o modo como estes importam no caso em questão, e isto pode envolver um apelo indirecto ao modo como as coisas foram ou poderiam ser noutros casos. Quando dois particularistas estão em desacordo, não têm de limitar-se a dizer «Eu vejo a situação desta maneira». Há vários modos de apoiar e defender a maneira como vemos a situação. Um particularista pode perfeitamente indicar o modo como as coisas são noutro caso talvez mais simples, e sugerir que isto revela algo sobre o modo como as coisas são no caso em questão, mais difícil. Não é preciso fazer a sugestão generalista de que, como este aspecto fez uma certa diferença ali, tem de fazer a mesma diferença aqui. Mas podemos apoiar, e até defender, o nosso juízo vendo como o aspecto funciona em situações que se assemelham de várias maneiras ao caso em questão. Deste modo, não descobrimos como têm de ser as coisas nesse caso, mas descobrimos como podem muito bem ser. O debate entre duas pessoas que divergem quanto à maneira como vêem um caso pode progredir à medida que cada uma delas apela a outras situações que são apropriadamente diferentes e apropriadamente semelhantes. Não há qualquer garantia de que este processo conduza ao acordo, mas a ideia do generalista sobre como se resolvem desacordos também não nos leva a supor que todos os desacordos podem ser resolvidos caso os tratemos apropriadamente. No entanto, uma coisa pode acontecer mesmo quando não há qualquer garantia de que aconteça.

Para concluir esta secção, importa perguntar: como entende o particularista alguém que diz «Isso é roubar e portanto não o deves fazer»? Podemos entender esta afirmação como uma versão abreviada do seguinte argumento: «Isso é roubar e roubar é sempre errado; logo, isso é errado.» Esta interpretação introduz um apelo implícito a um princípio -- absoluto ou contributivo, consoante a nossa noção de «isso é errado». E sugere que temos aqui uma inferência, ou argumento, com premissas e uma conclusão. O particularista não tenderá a ver as coisas assim. Tenderá a pensar que «Isso é roubar e portanto é errado» quer dizer «Isso é roubar e é errado por essa razão». Isto não é um argumento e não envolve nada que mereça ser considerado uma inferência -- consiste simplesmente em apontar a presença de uma razão e indicar que razão é essa, isto é, para que coisa esta é uma razão a favor (ou contra).

4. Problemas para os princípios absolutos

Na secção anterior tentei apresentar os aspectos principais da concepção particularista do pensamento moral e da maneira pela qual as acções se tornam certas e erradas. No entanto, os particularistas não se limitam a expor a sua perspectiva. Obviamente, inclinam-se a dizer que a sua perspectiva pelo menos pode ser verdadeira e que o generalismo tende meramente a presumir o contrário e a seguir em frente com jovialidade. A simples possibilidade de o particularismo ser verdadeiro tem alguma importância na dialéctica. Mas existem também razões para duvidar de que alguma forma de generalismo possa realmente ser verdadeira. Algumas delas já emergiram, nomeadamente as que envolvem tentativas de estabelecer, através de exemplos, um amplo holismo de razões. Existem respostas a estas tentativas, que consideraremos mais à frente (em Problemas para o Particularismo); essas respostas traduzem-se na tese segundo a qual, apesar das aparências, o holismo tem de ser falso.

Nesta secção vou considerar as razões para pensar que a moralidade não pode consistir num sistema de princípios absolutos.

A primeira razão é que os princípios absolutos não podem entrar em conflito e, se não podem entrar em conflito, um aspecto vital da nossa vida moral (isto é, o conflito) fica completamente excluído por qualquer teoria que supõe que a moralidade é inteiramente governada por princípios absolutos.

Se dois supostos princípios absolutos entram em conflito num caso particular, um deles tem de ser abandonado. Suponha-se, por exemplo, que um princípio diz que todas as acções do tipo A são erradas e que outro diz que todas as acções do tipo B são certas. Suponha-se também que, globalmente, nenhuma acção pode ser ao mesmo tempo certa e errada, e que é possível uma acção ser simultaneamente do tipo A e do tipo B. Até agora as coisas têm corrido bem, mas se surgir uma acção de ambos os tipos um dos princípios terá de ser abandonado. Mas isto significa que não temos espaço para o conflito. Por conflito moral, não entendo aqui um conflito entre dois indivíduos, mas um conflito entre razões a favor e contra um curso de acção num dado caso. Se todas as razões forem especificadas por princípios absolutos, esse tipo de conflito não pode existir, já que se as razões estivessem em conflito também os princípios que as especificam estariam em conflito, e isso mostraria simplesmente que um dos princípios era uma fraude. Nesse caso, o conflito não seria mais do que um produto dos nossos equívocos. Não existiria qualquer verdadeiro conflito.

Este princípio traduz-se na ideia de que precisamos de conseguir tornar inteligíveis os casos em que existem razões morais de ambos os lados, a favor e contra um curso de acção. Mas não conseguiremos realmente fazer isso se todas as razões morais forem especificadas por princípios absolutos. Logo, a moralidade não pode consistir apenas num sistema de princípios absolutos. A única maneira de podermos continuar a pensar que a moralidade é governada por princípios absolutos é supor que há apenas um princípio moral (não havendo assim qualquer possibilidade de existir um conflito entre princípios) ou organizar as coisas de outra maneira para que os princípios não possam entrar em conflito. (Obviamente, mesmo nesse caso existiria o problema de o conflito ser real: organizar as coisas de maneira a torná-lo meramente aparente seria apagar algo importante.) Conhecemos uma posição que oferece um único princípio: o utilitarismo clássico. O argumento contra esta posição «monista» é bastante diferente. O argumento é a afirmação directa de que o monismo é falso. Existe mais do que um tipo de propriedade relevante ou mais do que uma maneira pela qual as propriedades podem tornar-se moralmente relevantes. Por isso, uma posição que propõe um único princípio absoluto é falsa, e uma posição que inclui mais do que um princípio absoluto não pode explicar apropriadamente o conflito.

5. Problemas para os princípios contributivos

A melhor forma de generalismo, portanto, recorre apenas a princípios contributivos -- princípios que especificam considerações que contam sempre como razões contributivas. Nesta imagem, é bem possível que existam razões de ambos lados. O exemplo clássico de uma teoria deste género é a teoria dos deveres prima facie de W. D. Ross (veja-se o seu 1930, Cap. 2). Esta consiste simplesmente numa tentativa de organizar teoricamente as nossas intuições espontâneas que indicam que muitas coisas podem fazer diferença no modo como devemos agir. Há um princípio que diz «Deves ser justo», mas isto não significa que todas as acções justas sejam efectivamente certas; significa apenas que a justeza de uma acção conta a seu favor ou que uma acção torna-se melhor em virtude de ser justa. Infelizmente, uma acção pode ser justa mas ainda assim ser errada por outras razões. Isto significa que, por vezes, talvez seja moralmente obrigatório agir injustamente. Se for, existirão aspectos da situação que nos exigem isso -- talvez devamos estar muito gratos a alguém ou talvez essa acção injusta possa impedir a inundação da Holanda.

O generalista que adopta esta perspectiva supõe, enquanto generalista, que um aspecto que faz diferença num caso fará o mesmo tipo de diferença em todos os casos, e que existe um princípio contributivo que especifica a sua contribuição regular. É isto que particularista quer contestar. Os particularistas aplaudem a insistência de Ross no facto de poderem existir muitos aspectos numa situação que podem fazer diferença no modo como devemos agir; simplesmente querem acrescentar que o assunto não é tão regular como Ross, enquanto generalista, supõe. Os particularistas têm três objecções a fazer. A primeira implica produzir contra-exemplos aos contribuidores regulares sugeridos. Em conformidade com uma longa tradição, Ross supõe, por exemplo, que o facto de termos prometido fazer uma coisa constitui sempre uma razão para a fazermos. Um contra-exemplo a esta tese seria um caso em que, sem dúvida por razões peculiares, o facto de termos prometido fazer uma coisa não constitui qualquer razão para a fazermos ou constitui mesmo uma razão para não a fazermos. Suponha-se, por exemplo, que prometi não manter as minhas três promessas seguintes. O que fazer? E teremos sempre alguma razão para dizer a verdade? Um pouco de engenho permite-nos conceber um caso em que o facto de algo ser verdade é uma razão para não o dizer. E assim por diante.

A segunda linha do ataque particularista consiste em perguntar por que deveremos supor que um aspecto que conta a favor de um caso tem de contar favoravelmente sempre que está presente. Creio que ninguém apresentou qualquer resposta genuína para esta questão. Os generalistas tendem a afirmar que, se sustentamos que um aspecto é favorável num caso e desfavorável noutro caso, temos de explicar por que razão isso acontece. Mas o particularista admite isto. É verdade que, se um aspecto é favorável num caso e desfavorável noutro caso similar, tem de haver uma explicação para isso. Essa explicação consistirá presumivelmente em indicar outras diferenças entre os casos. No segundo caso, talvez uma coisa que é necessária para o aspecto ser favorável esteja ausente, embora esteja presente no primeiro caso. Estas explicações têm de existir e podem ser encontradas. Nada disto contribui para restaurar a concepção generalista do funcionamento das razões.

A terceira linha de ataque ao generalismo contributivo implica pedir uma epistemologia apropriada. A partir daquilo que conseguimos discernir caso a caso, como havemos de concluir que um certo aspecto funcionará da mesma maneira sempre que estiver presente? Ross, o nosso generalista, sustenta que começamos por reconhecer que um certo aspecto é favorável num dado caso, mas que podemos concluir imediatamente (através de um processo que designa por «indução intuitiva») que tem de ser favorável em todos os casos. O problema é saber como é suposto este processo funcionar. O que é aquilo que discernimos num caso e que nos diz que aquilo que temos aqui tem de se repetir em todos os outros casos? (Ross supõe, e com razão, que não descobrimos os princípios morais por indução comum.) A resposta habitual a esta questão, e provavelmente não há outra, é errada. Esta resposta traduz-se numa perspectiva acerca do que é fazer diferença num caso particular -- acerca do que é ser relevante num dado caso. Segundo essa perspectiva, um aspecto é relevante num caso particular se, e somente, decidiria a questão em qualquer caso em que fosse o único aspecto relevante. Ora, se esta perspectiva acerca da relevância fosse defensável, teríamos efectivamente alguma razão para supor que aquilo que é relevante num caso também é relevante em qualquer outra situação. Para cada nova situação, seria verdade que, se este fosse o único aspecto relevante, decidiria a questão. Por isso, a esta luz a relevância é na verdade uma relevância geral. E isto proporciona ao generalista a epistemologia de que ele precisa, pois agora é fácil compreender como, ao percebermos que um certo aspecto é importante num certo caso, vemos imediatamente que este fará a mesma diferença em qualquer caso. Afinal, em cada caso é verdade que esse aspecto, se fosse o único aspecto relevante, decidiria a questão.

Infelizmente, esta perspectiva acerca da relevância aqui pressuposta não é defensável. Afinal, podemos dizer de qualquer aspecto que, se este fosse o único aspecto relevante, decidiria a questão. A palavra «relevante» surge dentro desta formulação e não pode ser eliminada. Se tivéssemos dito apenas que se este aspecto fosse o único aspecto então decidiria a questão, teríamos feito uma afirmação provavelmente falsa e, pior ainda, incoerente. Seria incoerente porque a ideia de estar presente apenas um aspecto, sem quaisquer outros aspectos, é seguramente descabida. A ideia de que uma acção pode ser simplesmente generosa, por exemplo, sem possuir quaisquer outras propriedades, não faz o menor sentido. Além disso, talvez existam propriedades que podem ser relevantes apenas se outra propriedade também for relevante -- propriedades que (em termos de razões) nos dão razões apenas se outra propriedade também nos dá razões. Por exemplo, no Dilema dos Prisioneiros um prisioneiro tem razões somente se o outro tem razões. Se isto pode ocorrer, qualquer «teste de isolamento» para razões tem de ignorar algumas razões. Por fim, tentar isolar a contribuição de um aspecto perguntando como as coisas teriam sido se nenhum outro aspecto tivesse feito qualquer contribuição é, quando pensamos bem nisso, uma actividade bastante peculiar. Realizá-la parece ser tão incómodo como determinar a contribuição de um jogador de futebol para o sucesso da sua equipa perguntando como teriam corrido as coisas se não estivessem mais jogadores no campo. Deste modo, a noção de relevância necessária para fundamentar a epistemologia generalista é inaceitável.

6. As respostas dos generalistas

Presumindo que aceitaram que muitos dos princípios contributivos inicialmente propostos foram refutados por contra-exemplos, os generalistas podem responder de duas maneiras a estes ataques. A primeira coisa que podem fazer é complicar os princípios. A segunda coisa que podem fazer é restringir o seu generalismo a um grupo limitado de razões.

Se seguirmos o primeiro caminho, poderemos sugerir que, se o facto de termos feito uma promessa em alguns casos não é uma razão para fazermos aquilo que prometemos, então há uma explicação para isso. Suponha-se que a explicação é termos prometido fazer algo imoral. Tudo o que precisamos de fazer é de atender a este aspecto na nossa descrição da razão supostamente geral. A razão será agora a de termos prometido fazer uma coisa e de essa coisa não ser imoral. Podemos objectar que mesmo isto nem sempre constitui uma razão. E se a nossa promessa tiver resultado de coacção? A resposta consistirá em atender também a esse aspecto na descrição da razão. Esta razão não pára de crescer: agora consiste em termos prometido fazer uma coisa, essa coisa não ser imoral e a promessa não ter resultado de coacção. A batalha pode continuar; não há um ponto final óbvio. Ainda assim, poderíamos dizer, o engenho acabará por se esgotar e chegaremos a uma especificação (agora muito complexa) de uma razão para a qual não conseguimos conceber qualquer contra-exemplo.

Mas reparemos no que aconteceu aqui. Partimos de uma consideração que julgávamos contar a favor da nossa acção e chegámos a uma especificação complexa de algo que desempenha um papel bastante diferente. Aquilo a que chegámos assemelha-se mais a uma elaborada garantia de que algo mencionado na garantia conta a favor da acção. Consideremos o exemplo da promessa. O facto de eu ter prometido fazer uma coisa, admitamos, conta a favor de eu fazer essa coisa. Mas o facto de a minha promessa não resultar de coacção não funciona assim. Este facto funciona como uma condição permissão: uma condição que, se não for satisfeita, tornará o primeiro aspecto (o facto de eu ter feito a promessa) uma razão diferente. A ausência de coacção não constitui ela própria uma razão para agir; esse papel é diferente e é aqui desempenhado apenas pelo facto de eu ter feito uma promessa. Observemos, além disso, que a combinação desta razão e desta condição de permissão não constitui ela própria uma (outra) razão para agir. Assim, segundo os particularistas, esta distinção entre «contar a favor» e «permitir que uma outra coisa conte a favor» é importante. Ao defender a sua suposta razão através de complicações, o generalista chegou a uma coisa que não é uma razão, mas apenas uma garantia (quando por fim estiver completa) de que há uma razão algures no seu interior. E por que havemos de supor que nada pode ser uma razão a não ser que possamos especificar uma condição que garanta o seu estatuto de razão, e que só temos uma razão quando esta é apresentada num contexto mais amplo no qual se garante que esta funciona como tal? Não há aqui qualquer resposta óbvia. Toda a tentativa de defender a nossa razão através de complicações começa a parecer estranhamente irrelevante e o seu produto afigura-se desnecessário. Podemos pensar que podem existir razões capazes de funcionar perfeitamente bem sem este tipo de garantia. E as razões avançadas pelo generalismo (veja-se Aquilo em que o particularista não acredita) não mostram o contrário.

A segunda linha de defesa do generalista implica moderar a sua perspectiva. Ross distingue os deveres prima facie derivados dos não-derivados. Entre os não-derivados contam-se o dever de fazer aquilo que é justo, o dever de beneficiar os outros, o dever de não maltratar e o dever de manter as nossas promessas. Os outros deveres derivam destes. Deste modo, existe, por assim dizer, um núcleo de invariabilidade com uma periferia variável. Posso ter o dever de ir hoje a Londres visitar o meu filho Hugh. Mas este dever deriva do dever geral de fazer aquilo que prometi. Podemos dizer que o facto de Hugh esperar ver-me hoje em Londres por vezes dá-me uma razão para ir a Londres e por vezes não me dá essa razão. Esta é uma razão derivada e, por isso, variável. Se esse facto me dá uma razão, isso acontece por estar ligado de alguma maneira a uma razão invariante, não-derivada. Assim, as razões derivadas são variáveis e as não-derivadas são invariáveis. De acordo com esta perspectiva, os contra-exemplos só produzirão danos se visarem as supostas razões não-derivadas. (Veja-se McNaughton e Rawling 2000).

Segundo uma versão diferente desta perspectiva, essas razões invariantes derivam das virtudes (veja-se Crisp 2000). O facto de uma acção ser generosa, honesta, justa, prudente ou benéfica constitui sempre uma razão para a realizarmos. Deste modo, o núcleo invariante é produzido pelas virtudes e a periferia variante depende desse núcleo. Esta última ideia é importante, já que quem defende o generalismo desta maneira precisa de dizer por que razão a moralidade requer uma base de invariância. Apresentar algumas razões invariantes não chega para esclarecer a questão. Aqueles que supõem poder atingir seriamente o particularismo especificando algumas razão invariantes (provavelmente bastante complexas) pouco fazem para mostrar que o pensamento moral (como dissemos na introdução) depende de um aprovisionamento adequado de princípios (agora entendidos como «razões invariantes»). A sugestão que estamos a examinar comporta-se bem a este respeito. Proporciona um núcleo invariante e explica-nos por que razão o pensamento moral só é possível com um núcleo desse tipo.

Obviamente, a sugestão só funcionará se for verdade que as virtudes funcionam invariantemente. Os particularistas tendem a dizer, por exemplo, que uma acção pode ser atenciosa sem que isso a torne melhor. Pode ser atencioso limpar a testa do torturador, mas este facto dificilmente funcionará como uma razão para esse acto ou tornará o seu suor uma razão para o limparmos. As outras actividades do torturador anulam aquilo que geralmente nos daria uma razão para proceder dessa maneira. Similarmente, as circunstâncias podem exigir precisamente uma resposta cruel. Segundo os particularistas, a crueldade não tem de constituir uma razão invariante. Um generalista pode responder dizendo que estas sugestões dependem da capacidade de mostrar que não se podem fazer observações similares sobre (um conjunto suficientemente grande) de outras virtudes.

O que está em questão no debate entre o particularismo e o generalismo é a natureza da racionalidade moral. Os particularistas sustentam que podem existir razões -- razões morais -- mesmo que os aspectos que nos dão essas razões funcionem variavelmente, e não invariavelmente. Os generalistas supõem que isto não é possível. Sustentam que todas razões devidamente entendidas têm de funcionar invariavelmente ou que existe um núcleo invariante mesmo que haja uma periferia variável. Para defender a primeira tese, exigem frequentemente que, para cada razão, exista uma garantia formulável do seu estatuto enquanto razão. No entanto, na ausência de uma justificação para esta exigência o generalismo é infundado. A posição de Crisp é um modelo da segunda abordagem porque explica por que razão a variabilidade que o particularista tanto aprecia tem de existir em torno de um núcleo invariante. Mas eu diria que, na verdade, as supostas virtudes não desempenham o papel que aqui seria necessário.

7. O particularismo e o generalismo diferem apenas teoricamente ou também na prática?

Os particularistas gostam de dizer que os generalistas tomarão más decisões. Afinal, o generalismo parece validar certos padrões de raciocínio que os particularistas consideram inválidos. Por exemplo, um generalista pode pensar: «O aspecto F fez diferença nesse caso; logo, também aqui tem de fazer o mesmo tipo de diferença». Segundo o particularista, se no segundo caso a nossa decisão for influenciada por este «raciocínio», será influenciada por um erro. Os particularistas supõem que não podemos extrair de um caso algo que garantidamente faça diferença noutro caso. Recomendam que nos concentremos no caso antes de tentarmos extrair a resposta para um problema a partir da resposta para outro problema. Isto não mostra que nada podemos aprender a partir de outros casos. Os particularistas podem mesmo admitir que, por vezes, pode ser impossível ver a resposta certa se não tentarmos descobri-la considerando outros casos apropriadamente concebidos ou fornecidos pela experiência. Podemos perfeitamente dizer: «Este aspecto foi importante aí e, por isso, pode muito bem também ser importante aqui -- é melhor ver se é esse o caso.» Aquilo que não podemos e não devemos fazer é dizer «Este aspecto foi importante aí e, portanto, tem de ser importante aqui.» Deste modo, os particularistas atribuem relevância à experiência moral; não estão condenados a olhar vagamente para o caso que enfrentam e a propor uma resposta que de alguma forma parece apropriada. Existe uma diferença prática entre o particularismo e o generalismo, mas não é esta.

Existe outra possível diferença prática entre as duas doutrinas. Esta revela-se quando consideramos dois casos bastante similares acerca do quais, no entanto, queremos fazer juízos diferentes. Ninguém supõe que isto é impossível. O problema é saber o que é racionalmente exigido do juiz num caso desses. O generalista pode acabar por exigir que façamos o mesmo juízo em ambos os casos se não conseguirmos apresentar um princípio que os distinga. O particularista, pelo contrário, pode exigir apenas que façamos o mesmo juízo em ambos os casos se não pudermos apresentar uma razão para não o fazer. Alguns, no entanto, nem isso exigiriam. Todos aceitam que tem de haver uma diferença relevante entre quaisquer dois casos acerca dos quais queremos fazer juízos diferentes. Não será suficiente admitir que existe essa diferença ainda que ninguém saiba qual é? Ou será racionalmente exigível apresentar alguma sugestão a esse respeito? E a nossa sugestão terá de ser formulada como um princípio possível que governa todos os casos similares? Podemos distinguir os particularistas dos generalistas pelo modo como respondem a estas questões.

8. Problemas para o particularismo

Em termos gerais, as pessoas rejeitam os encantos persuasivos do particularismo por dois tipos de razões: razões relativas à racionalidade e razões relativas à motivação. Consideremos primeiro a racionalidade. Existem três ideias a este respeito. A primeira e mais directa é a de que pensar racionalmente exige pelo menos que pensemos consistentemente, e na ética isto significa apenas julgar que o mesmo aspecto constitui a mesma razão sempre que está presente. Por isso, o particularismo nega a racionalidade do pensamento moral. Além disso, qual é a diferença entre as escolhas morais e escolher chocolates? De acordo com a segunda ideia, a diferença é a seguinte: quando escolhemos moralmente temos de fazer escolhas similares em circunstâncias similares, mas isso não é verdade quando temos de escolher entre trufas de rum e chocolate com recheio de menta. A terceira ideia exprime-se neste problema: como pode o particularista explicar a nossa capacidade para aprender a partir da nossa experiência moral? Obviamente, é possível uma pessoa educar-se moralmente a si própria. Um adolescente que até agora se recusou a aceitar que o tacto é uma virtude pode acabar por ver num caso particular que é importante possuir tacto, e depois estará em condições de aplicar este conhecimento de uma forma mais geral. O generalista pode entender isto como a extracção de um princípio a partir de um dado caso, princípio esse que aplicamos depois a outros casos. Que perspectiva alternativa poderá oferecer o particularista? Entre estas três ideias, a terceira constitui a objecção mais forte.

A resposta à primeira é que, quando estamos a pensar em razões para acreditar, a consistência exige-nos apenas que não adoptemos crenças que não podem ser conjuntamente verdadeiras. Por que deveremos entender a exigência de consistência de uma maneira diferente quando consideramos as razões morais? Insistir simplesmente que essa exigência tem de ser diferente é cometer uma petição de princípio no ataque ao particularismo.

A segunda questão pede-nos que justifiquemos a distinção entre caprichos, como a escolha de chocolates, e assuntos que envolvem razões poderosas, como os que dizem respeito às escolhas morais. Mas isto não tem de ser um problema. As razões morais, tal como o particularista as entende, estão presentes em alguns casos mas não noutros. Nada que se lhes assemelhe aplica-se (geralmente) à escolha de chocolates. Isto não contribui para mostrar que na moralidade, por oposição aos caprichos, temos de fazer escolhas similares em situações similares. Existem muitas outras diferenças entre a moralidade e os caprichos.

A terceira questão pergunta-nos que relevância têm os outros casos para um novo caso, supondo que não têm o tipo de relevância que o generalista lhes atribui. A resposta é que a experiência de casos similares pode dizer-nos que tipo de coisa havemos de procurar e que tipo de relevância pode ter um certo aspecto. Deste maneira, o nosso juízo sobre um novo caso pode ser informado, ainda que não seja forçado ou imposto, pela nossa experiência de casos similares. Não temos de supor que as coisas funcionam através da extracção de princípios a partir de casos anteriores, princípios esses que depois impomos ao novo caso.

Discutido este tipo de objecção, consideremos agora as questões centradas na motivação. A ideia geral é a de que a moralidade particularista é frouxa: na ausência de princípios, vale tudo. Esta ideia, no entanto, pode ser concebida de várias maneiras. Uma dessas maneiras consiste em dizer que a moralidade diz respeito à imposição de restrições às nossas escolhas. Para existirem restrições, tem de haver regulação, a regulação implica regras e as regras implicam princípios. Isto, no entanto, pura e simplesmente é falso. Podem existir restrições inteiramente particulares que se aplicam às acções, e o juízo de que uma certa acção seria errada constitui seguramente um exemplo disso. Tal como as razões, as restrições não têm de ser gerais.

Outra linha de ataque consiste em dizer que a pessoa de princípios será firme; tendo tomado uma posição num dado assunto, não se afastará dela. Um particularista não será assim. Contudo,  tenho aqui duas coisas a dizer. Em primeiro lugar, nada impede um particularista de ter convicções firmes caso a caso. Uma convicção firme pode basear-se na natureza do caso, e não em princípios. A firmeza e os princípios nada têm de essencialmente em comum. Em segundo lugar, mesmo que seja verdade que uma pessoa de princípios será firme em alguns aspectos, o que importa é saber se ela terá razão nesses aspectos. A ideia preocupante é a de que pode não ter -- ao ser conduzida por princípios, essa pessoa distorcerá a relevância dos aspectos relevantes em virtude de insistir em filtrá-los recorrendo princípios sem atender à falsidade do generalismo. Na minha opinião, a firmeza e os princípios ficam muito mal juntos. A firmeza pode ser uma virtude, mas a firmeza envolvida numa distorção não constitui um grande triunfo. Se somos incorrigíveis, é melhor que tenhamos razão; o erro incorrigível é o pior dos mundos.

Uma sugestão diferente é a de que a moralidade exerce sobre nós uma autoridade que apenas uma regra pode proporcionar. Aqui, no entanto, penso que os particularistas devem simplesmente afirmar a sua perspectiva, e insistir que as razões morais possuem já toda a autoridade necessária. Imagine-se que uma mulher precisa de auxílio médico e que só eu posso procurá-lo. Esta situação exige de mim uma certa resposta, exerce uma autoridade sobre mim porque não tenho maneira de sair dela.

Ainda assim, poderíamos dizer, existe na ética o perigo da fraqueza: vemos aquilo que está certo, mas de algum modo não conseguimos levar-nos a fazê-lo. Com princípios, temos algo capaz de fortalecer o nosso propósito vacilante. Sem princípios, seremos vencidos pela fraqueza demasiadas vezes. Uma resposta a isto é dizer que estamos perante uma hipótese empírica insuficientemente apoiada. Além disso, a necessidade de fortalecimento moral surge apenas depois de termos decidido o que a moralidade exige que façamos num dado caso, e a verdadeira questão é a de saber se essa decisão teria de se basear em princípios. Para efeitos de fortalecimento moral, não teria, pois a necessidade de princípios, se existir, verifica-se noutro contexto.

Uma dificuldade mais significativa diz respeito ao favorecimento pessoal. Este distingue-se da fraqueza, pois aqui o agente faz excepções a seu próprio favor. Não seria certo a maior parte das pessoas fazerem aquilo que tenho em mente, mas eu sou especial; por isso, não estou sujeito às mesmas restrições morais que os outros. Este tipo de favorecimento ocorre durante o processo de tomada de decisões morais; por oposição à fraqueza, não diz respeito à motivação que se segue a esse processo. Nos casos de fraqueza digo «Isto é errado, mas mesmo assim vou fazê-lo»; nos casos de favorecimento digo «Isto é errado para os outros, mas não para mim».

A razão pela qual há uma dificuldade genuína no favorecimento é o facto de podermos encontrar sempre uma diferença entre um dado acto e o nosso verdadeiro dever -- com os recursos do particularismo, parece não haver qualquer maneira de impedir de recorrer a tais diferenças aqueles que, de má fé, tentam livrar-se das exigências morais. Podemos pensar que um princípio impediria, ou deveria impedir, esta situação.

Aquilo que efectivamente se passa aqui é o seguinte: estamos a apelar a princípios para rectificar uma distorção natural da actividade de fazer juízos morais. Se esses juízos focam apenas as razões presentes no caso que enfrentamos, é fácil distorcer essas razões da maneira que mais nos convém. Usamos princípios para que isso não aconteça. No entanto, o verdadeiro remédio para os maus juízos morais não é um estilo diferente de juízos morais (juízos baseados em princípios), mas uma melhor maneira de fazer juízos morais. Há apenas uma boa maneira de não distorcermos as coisas a nosso próprio favor: examinar de novo e com todo o cuidado as razões presentes no caso, e ver se somos realmente tão diferentes dos outros que aquilo que eles teriam de fazer não é aquilo que nós temos de fazer. Eu sei que este método não é infalível, mas o recurso a princípios também falha.

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© Jonathan Dancy, 2001. Tradução: © Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados.

Publicado com a autorização do autor e do editor da Stanford Encyclopedia of Philosophy.