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N.º 2 — 2003 |
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Do Suicídio David Hume Um
benefício considerável que surge da filosofia consiste no antídoto
soberano que esta fornece para a superstição e falsa religião. Todos os
outros remédios para esta pestilenta doença são inúteis, ou pelo menos
incertos. O simples bom senso e a experiência de vida, que são
suficientes para a maior parte dos propósitos da vida, aqui revelam-se
ineficazes: a história, bem como a experiência quotidiana, fornecem
exemplos de homens dotados com a mais forte capacidade para negócios e
afazeres que vivem escravizados pela maior superstição. Mesmo a
graciosidade e a delicadeza de temperamento, que infunde um bálsamo em
qualquer outra ferida, não fornece qualquer remédio para um veneno tão
virulento, como se pode afirmar particularmente do belo sexo que, embora
possua geralmente estas ricas dádivas da natureza, vê muitas das suas
alegrias serem destruídas por este intruso inoportuno. Mas, logo que a sã
filosofia se apodera da mente, a superstição é eficazmente excluída; e
pode-se afirmar razoavelmente que o seu triunfo sobre este inimigo é mais
completo que sobre a maior parte dos vícios e imperfeições próprios da
natureza humana. O amor ou a ira, a ambição ou a avareza, têm a sua
raiz no temperamento e nas afeições, coisas que a mais sã razão quase
nunca é capaz de corrigir inteiramente; mas a superstição, estando
baseada na falsa opinião, tem de cessar imediatamente quando a verdadeira
filosofia inspira sentimentos mais justos de poderes superiores. Aqui a
luta entre a doença e o remédio é mais equilibrada; e, a não ser que o
segundo seja falso e enganador, nada o pode impedir de ser eficiente. Seria
aqui supérfluo exaltar os méritos da filosofia, expondo a tendência
perniciosa do vício do qual esta cura a mente humana. O homem
supersticioso, diz Túlio[1],
é miserável em qualquer situação, em qualquer incidente da vida. Mesmo
o próprio sono, que bane todas as outras preocupações dos infelizes
mortais, fornece-lhe matéria para novos terrores enquanto examina os seus
sonhos e encontra nessas visões nocturnas presságios de futuras
calamidades. Posso acrescentar que, embora só a morte possa pôr fim à
sua miséria, ele não se atreve a procurar esse refúgio; prolonga uma
existência miserável, pois tem um receio infundado de ofender o seu
criador usando o poder com o qual esse ser beneficente o dotou. As dádivas
de Deus e da Natureza são-nos arrebatadas por esta inimiga cruel; e,
embora esse passo nos retirasse das regiões da dor e da mágoa, as suas
ameaças ainda nos acorrentam a um ser odiado, que sobretudo ela própria
contribui para tornar miserável. Aqueles
que foram reduzidos pelas calamidades da vida à necessidade de empregar
este remédio fatal notam que, se a preocupação inoportuna dos seus
amigos os priva daquela espécie de morte que propuseram a si próprios,
raramente se aventuram a procurar qualquer outra ou conseguem reunir tanta
determinação uma segunda vez, de modo a executar o seu propósito. O
nosso horror à morte é tão grande que, quando esta se apresenta a um
homem sob qualquer forma que não aquela com a qual ele se esforçou por
reconciliar a sua imaginação, esta adquire novos terrores e supera a sua
débil coragem. Mas, quando as ameaças da superstição se juntam a esta
timidez natural, não é surpreendente que esta prive os homens de todo o
poder sobre as suas vidas, pois mesmo muitos prazeres e deleites, aos
quais somos conduzidos por uma forte propensão, são-nos arrancados por
esta tirana desumana. Esforcemo-nos aqui por devolver o homem à sua
liberdade nativa, examinando todos os argumentos comuns contra o suicídio
e mostrando, de acordo com as opiniões de todos os filósofos antigos,
que essa acção pode estar livre de qualquer imputação de culpa ou
censura. Se
o suicídio é um crime, tem de ser uma transgressão do nosso dever em
relação a Deus, aos nossos semelhantes ou a nós próprios. De
modo a provar que o suicídio não é qualquer transgressão do nosso
dever em relação a Deus, as seguintes considerações talvez sejam
suficientes. Para governar o mundo material, o criador todo-poderoso
estabeleceu leis gerais e imutáveis, pelas quais todos os corpos, do
maior planeta à menor partícula de matéria, são mantidos dentro da sua
esfera e função próprias. Para governar o mundo animal, ele dotou todas
as criaturas vivas com poderes corporais e mentais (com sentidos, paixões,
apetites, memória e a capacidade de julgar), pelos quais elas são
impelidas ou reguladas no curso da vida para que estão destinadas. Cada
um destes dois princípios distintos do mundo material e animal invade
continuamente a esfera do outro, e cada um retarda ou apressa a operação
do outro. Os poderes do homem e de todos os outros animais estão
restringidos e são controlados pela natureza e qualidades dos corpos
circundantes; e as modificações e acções destes corpos são
incessantemente alteradas pela operação de todos os animais. O homem é
detido por rios na sua passagem pela superfície da Terra; e os rios,
quando são apropriadamente controlados, emprestam a sua força ao
movimento das máquinas, que estão ao serviço do homem. Mas, embora as
províncias dos poderes materiais e animais não se mantenham inteiramente
separadas, não resulta daí qualquer desacordo ou desordem na criação;
pelo contrário, a partir da mistura, união e contraste de todos os
diversos poderes dos corpos inanimados e das criaturas vivas, surge essa
proporção e harmonia surpreendente que fornece o argumento mais seguro a
favor da sabedoria suprema. A
providência da divindade não surge imediatamente em qualquer operação,
governando todas as coisas através daquelas leis gerais e imutáveis que
estão estabelecidas desde o início do tempo. Todos os acontecimentos,
num certo sentido, podem ser manifestações da acção do todo-poderoso;
todos procedem daqueles poderes com que ele dotou as suas criaturas. A ruína
de uma casa destruída pelas mãos dos homens não resulta menos da sua
providência que a ruína de uma casa que cai devido ao seu próprio peso,
nem as faculdades humanas resultam menos do seu trabalho que as leis do
movimento e da gravitação. Quando as paixões actuam, quando a
capacidade de julgar decreta, quando os membros obedecem, estamos sempre
perante a operação de Deus; e sobre estes princípios animados, bem como
sobre os inanimados, ele estabeleceu o governo do universo. Qualquer
acontecimento tem a mesma importância aos olhos desse Ser infinito, que
abarca num relance as regiões mais distantes do espaço e os períodos
mais remotos do tempo. Não há qualquer acontecimento, por muito
importante que seja para nós, que ele tenha dispensado das leis gerais
que governam o universo, ou que tenha reservado singularmente para sua acção
e operação imediatas. A revolução dos estados e impérios depende do
menor capricho ou paixão de um único homem; e as vidas dos homens são
encurtadas ou prolongadas pelo menor acidente do ar ou da dieta, da luz
solar ou da tempestade. A natureza ainda mantém o seu progresso e operação;
e, se alguma vez as leis gerais são violadas por volições particulares
de Deus, isso dá-se de uma maneira que escapa inteiramente à observação
humana. Assim como os elementos e outras partes inanimadas da criação
desenvolvem a sua acção sem considerar a situação e o interesse
particulares dos homens, também os homens estão entregues aos seus próprios
juízos e critérios nos vários choques da matéria, e podem utilizar
qualquer faculdade com que estejam dotados para providenciar o seu
conforto, felicidade ou preservação. Qual
é então o sentido daquele princípio segundo o qual um homem que,
cansado da vida e perseguido pela dor e pela miséria, supera com bravura
todos os terrores naturais da morte, e realiza a sua fuga dessa situação
cruel, segundo o qual um homem, dizia, incorreu na indignação do seu
criador, intrometendo-se no ofício da providência divina e perturbando a
ordem do universo? Afirmaremos que o todo-poderoso reservou para si próprio,
de uma maneira peculiar, a disposição das vidas dos homens, e não
submeteu esse acontecimento, como todos os outros, às leis gerais que
governam o universo? Isto é claramente falso: as vidas dos homens
dependem das mesmas leis que as vidas de todos os outros animais; e estas
estão sujeitas às leis gerais da matéria e do movimento. A queda de uma
torre ou a infusão de um veneno destruirão um homem da mesma maneira que
a criatura mais desprezível; uma inundação varre sem distinção
qualquer coisa que fique ao alcance da sua fúria. Por isso, como as vidas
dos homens estão para sempre dependentes das leis gerais da matéria e do
movimento, será um crime um homem dispor da sua vida por ser sempre um
crime interferir nessas leis ou perturbar a sua operação? Mas isto
parece absurdo: todos os animais estão entregues à sua própria prudência
e aptidão para a sua conduta no mundo, e têm toda a autoridade, até
onde vai o seu poder, para alterar as operações da natureza. Sem o exercício
desta autoridade, não poderiam subsistir um só momento; qualquer acção,
qualquer movimento de um homem, inova a ordem de algumas partes de matéria
e desvia do seu curso comum as leis gerais do movimento. Deste modo,
juntando estas conclusões descobrimos que
a vida humana depende das leis gerais da matéria e do movimento, e que
perturbar ou alterar essas leis gerais não é uma intromissão no ofício
da providência: não terá cada uma destas afirmações como consequência
a livre disposição da própria vida? E não poderá o homem utilizar
legitimamente esse poder com que a natureza o dotou? Para
destruir a evidência desta conclusão, temos que apresentar uma razão
que mostre por que este caso particular é uma excepção. Será por a
vida humana ter uma importância tão grande que dispor dela é presunçoso
para a prudência humana? Mas a vida de um homem não tem uma importância
maior para o universo que a vida de uma ostra: e, se tiver uma importância
tão grande, a verdade é que a ordem da natureza humana submeteu-a
efectivamente à prudência humana e reduziu-nos a uma necessidade, em
qualquer incidente, de decidir a seu respeito. Se
a disposição da vida humana estivesse tão reservada como a província
peculiar do Todo-poderoso que seria uma intromissão nos seus direitos em
relação aos homens estes disporem das suas vidas, seria tão criminoso
agir para a preservação da vida como para a sua destruição. Se desvio
uma pedra que vai cair na minha cabeça, perturbo o curso da natureza e
invado a província peculiar do Todo-poderoso, dilatando a minha vida para
além do período que, pelas leis gerais da matéria e do movimento, ele
lhe atribuiu. Um
cabelo, uma mosca ou um insecto é capaz de destruir este ser poderoso
cuja vida é tão importante. Será absurdo supor que a prudência humana
pode dispor legitimamente daquilo que depende de tais causas
insignificantes?
Não seria um crime eu desviar o Nilo
ou o Danúbio, se eu fosse capaz de realizar esses propósitos. Onde está
então o crime de desviar algumas onças de sangue dos meus canais
naturais! Imaginais
que eu me queixo da providência, ou amaldiçoo a minha criação, por ter
saído da vida e posto fim a um ser que, se continuasse a existir,
tornar-me-ia miserável? Tais sentimentos estão longe de mim. Só estou
convencido de uma questão de facto que vós próprios considerais possível:
que a vida humana pode ser infeliz, e que a minha existência, caso se
prolongasse mais, tornar-se-ia inaceitável. Mas eu agradeço à providência,
tanto pelo bem de que já desfrutei como pelo poder de que estou dotado
para escapar aos males que me ameaçam.[2]
Só podem queixar-se da providência aqueles que tolamente imaginam não
ter tal poder, e precisam de prolongar uma vida detestada, apesar de
carregada de dor e de doença, de vergonha e de pobreza. Não
ensinais que quando algum mal me sucede, mesmo que resulte da malícia dos
meus inimigos, devo resignar-me à providência, e que as acções dos
homens, tal como as acções dos seres inanimados, são operações do
Todo-poderoso? Assim, quando caio sobre a minha espada recebo a minha
morte igualmente das mãos da divindade, como se esta tivesse resultado de
um leão, de um precipício ou de uma febre. A
submissão à providência que exigis em qualquer calamidade que me suceda
não exclui a perícia e a diligência humanas, se possivelmente através
delas puder evitar ou fugir à calamidade. E porque não poderei utilizar
tanto um remédio como o outro? Se
a minha vida não fosse minha, seria para mim um crime colocá-la em
perigo, bem como dispor dela; e não mereceria ser chamado herói um homem a quem a glória ou a amizade transportasse para os
maiores perigos; e outro, que pusesse fim à sua vida por motivos iguais
ou semelhantes, mereceria ser acusado de desprezível
ou infame. Não
há qualquer ser que possua qualquer poder ou faculdade que não tenha
recebido do seu criador; nem há qualquer ser que possa alguma vez, através
de uma acção tão irregular, intrometer-se no plano da sua providência
ou quebrar a ordem do universo. As operações de um ser são obra do seu
criador, tal como a cadeia de eventos que ele invade; e, seja qual for o
princípio que prevaleça, podemos concluir por essa mesma razão que esse
será aquele que o criador mais favorece. Seja esse ser animado ou
inanimado, racional ou irracional, a situação é sempre a mesma: o seu
poder ainda deriva do criador supremo, e está abrangido do mesmo modo na
ordem da sua providência. Quando o horror à dor prevalece sobre o amor
à vida, quando uma acção voluntária antecipa os efeitos de causas
cegas, isso só ocorre em consequência daqueles poderes e princípios que
ele implantou nas suas criaturas. A providência divina permanece
inviolada, situada muito para além do alcance das injúrias humanas.[3]
É
ímpio, diz a velha superstição romana,
desviar os rios do seu curso ou invadir as prerrogativas da natureza. É
ímpio, diz a superstição francesa,
inocularmo-nos contra a varíola ou intrometermo-nos nos assuntos da
providência, produzindo voluntariamente doenças e enfermidades. É ímpio,
diz a moderna superstição europeia,
pormos fim à nossa própria vida, e revoltarmo-nos desse modo contra o
nosso criador. E porque não há-de ser ímpio, digo eu, construir casas,
cultivar o solo ou navegar no oceano?
Em todas estas acções utilizamos os nosso poderes da mente e do
corpo para produzir alguma inovação no curso da natureza, e em nenhuma
delas fazemos mais do que isso. Por isso, todas elas são igualmente
inocentes ou igualmente criminosas. Mas
estás colocado pela providência num posto particular, como uma
sentinela; e, quando o abandonas sem ser chamado, és igualmente culpado
de rebelião contra o teu Soberano Todo-poderoso e incorres no seu
desagrado.
Pergunto: porque concluís que a providência me colocou neste posto? Pela
minha parte, constato que devo o meu nascimento a uma longa cadeia de
causas, das quais muitas dependeram de acções voluntárias dos homens. Mas
a providência guiou todas essas causas, e nada ocorre no universo sem o
seu consentimento e cooperação. Se é assim, então também a minha
morte, mesmo que seja voluntária, não ocorre sem o seu consentimento; e
sempre que a dor ou a mágoa ultrapassam tanto a minha paciência que me
fazem ficar cansado da vida, posso concluir que sou chamado do meu posto
nos termos mais claros e explícitos. Foi
certamente a providência que me colocou neste presente momento neste
quarto: mas não poderei deixá-lo quando considerar apropriado sem estar
sujeito à imputação de ter abandonado o meu posto ou posição? Quando
estiver morto, os princípios de que sou composto continuarão a
desempenhar o seu papel no universo, e serão tão úteis na grande fábrica
como o eram quando compunham esta criatura individual. A diferença para o
todo não será maior que a diferença entre eu estar num quarto e estar
ao ar livre. A primeira mudança tem mais importância para mim do que a
outra, mas não tem mais importância para o universo. É
uma espécie de blasfémia imaginar que qualquer ser criado pode perturbar
a ordem do mundo ou invadir os assuntos da providência! Isso supõe que
esse ser possui poderes e faculdades que não recebeu do seu criador, e
que não estão subordinados ao seu governo e autoridade. Um homem pode
perturbar a sociedade, sem dúvida, e incorrer dessa maneira no desagrado
do todo-poderoso, mas o governo do mundo está situado muito para além do
seu alcance e violência. E como se revela o desagrado do todo-poderoso em
relação àquelas acções que perturbam a sociedade? Através de princípios
que ele implantou na natureza humana, e que nos inspiram um sentimento de
remorso se nós próprios tivermos sido culpados de tais acções, bem
como o sentimento de censura e reprovação se alguma vez as observarmos
noutros. Examinemos agora, de acordo com o método proposto, se o suicídio
é uma acção desse tipo e constitui uma violação do nosso dever em
relação ao nosso próximo e à
sociedade.
Um
homem que se retira da vida não faz qualquer mal à sociedade: só deixa
de fazer bem, o que, se é uma injúria, é do género menos grave. Todas
as nossas obrigações de fazer bem à sociedade parecem implicar algo recíproco.
Recebo os benefícios da sociedade, e por isso devo promover os seus
interesses; mas será que quando me retiro da sociedade posso ficar
vinculado por mais tempo? Mas,
mesmo admitindo que as nossas obrigações de fazer o bem são perpétuas,
elas têm certamente alguns limites; não estou obrigado a fazer um
pequeno bem à sociedade à custa de um grande mal para mim próprio. Por
que deverei então prolongar uma existência miserável devido a algum
benefício frívolo que o público possa talvez receber de mim? Se por
causa da idade e de enfermidades posso abandonar legitimamente qualquer
profissão, utilizar todo o meu tempo na luta contra essas calamidades e
aliviar tanto quanto possível as misérias da minha vida futura, por que
não poderei acabar de uma vez com essas misérias através de uma acção
que não é mais prejudicial para a sociedade? Mas
suponha-se que já não está no meu poder promover o interesse do público,
suponha-se que sou um fardo para ele, suponha-se que a minha vida impede
alguma pessoa de ser muito mais útil para o público: em tais casos, o
meu abandono da vida tem de ser não só inocente, mas louvável. E a
maior parte das pessoas que permanecem sob qualquer tentação de
abandonar a existência estão em alguma situação desse género; aqueles
que têm saúde, poder ou autoridade têm geralmente melhores razões para
estar em paz com o mundo. Um
homem está envolvido numa conspiração a favor do interesse público,
está preso sob suspeita, ameaçado com a tortura, e em virtude da sua
fraqueza sabe que o segredo ser-lhe-á extorquido. Poderá alguém assim
atender melhor ao interesse público do que pondo um fim rápido a uma
vida miserável? Este foi o caso do famoso e bravo Strozzi
de Florença. Além
disso, suponha-se que um malfeitor é condenado justamente a uma morte
vergonhosa. Poder-se-á imaginar alguma razão para que ele não possa
antecipar o seu castigo, e salvar-se de toda a angústia de pensar nas
suas terríveis aproximações? Ele não invade mais os assuntos da providência
que o magistrado que ordenou a sua execução; e a sua morte voluntária
é igualmente vantajosa para a sociedade, que assim se vê livre de um
membro pernicioso. Quem
admite que a idade, a doença ou o infortúnio podem transformar a vida
num fardo, e torná-la ainda pior que a aniquilação, não pode
questionar que o suicídio pode muitas vezes ser consistente com o nosso
interesse e com o dever que temos em relação a nós
próprios. Acredito que nunca nenhum homem deitou fora a vida enquanto
valia a pena mantê-la, pois tal é o nosso horror natural à morte que
pequenos motivos nunca serão capazes de nos reconciliar com ela; e embora
talvez a situação da saúde ou fortuna de um homem não tenham parecido
exigir este remédio, podemos pelo menos estar seguros de que qualquer um
que, sem razão aparente, tenha recorrido a ele, estava amaldiçoado com
uma depravação ou melancolia de temperamento de tal maneira incurável
que tinha de envenenar todo o prazer, e torná-lo igualmente miserável
como se estivesse estado tão carregado com o mais doloroso infortúnio. Se
se supõe que o suicídio é um crime, só a cobardia pode impelir-nos
para ele. Se não é um crime, tanto a prudência como a coragem devem
levar-nos a livrar-nos de vez da existência quando esta se torna um
fardo. É só dessa maneira que, então, poderemos ser úteis à
sociedade, dando um exemplo que, se fosse imitado, faria qualquer um
mantiver a hipótese de ter felicidade na vida e libertá-lo-ia
eficazmente de todo o perigo ou miséria.[4]
[1]
De Divin. Lib. ii. 72. 150. [2]
Agamus Deo gratias, quod nemo in
vita teneri potest. Séneca, Epist. 12. [3]
Tácito,
Ann. lib. i. 79. [4]
Seria fácil provar que o suicídio é tão legítimo sob a revelação
cristã como o era para os pagãos. Não há um único texto da
sagrada escritura que o proíba. A grande e infalível regra de fé e
prática que tem de controlar toda a filosofia e raciocínio humanos,
deixou-nos neste caso entregues à nossa liberdade natural. De facto,
a resignação à Providência é recomendada na sagrada escritura,
mas implica submissão só aos males inevitáveis, não àqueles que
podem ser remediados através da prudência ou da coragem. Não
matarás pretende evidentemente excluir apenas o acto de matar
aqueles sobre cujas vidas não temos qualquer autoridade. A prática
dos magistrados, que condenam criminosos à morte apesar da letra da
lei, mostra claramente que este preceito, tal como a maior parte dos
preceitos da sagrada escritura, tem de ser modificado pela razão e
pelo senso comum. Mesmo que este mandamento condenasse o suicídio, não
teria agora qualquer autoridade, pois toda a lei de Moisés foi
abolida excepto na medida em que é estabalecida pela lei da Natureza.
E já nos esforçámos por provar que essa lei não proíbe o suicídio.
Em todos os casos os cristãos e os pagãos estão precisamente no
mesmo nível: Catão e Bruto,
Árria e Portia, agiram
heroicamente; aqueles que agora imitarem o seu exemplo devem receber
os mesmos louvores da posteridade. O poder de cometer suicídio é
visto por Plínio como uma vantagem que os homens possuem mesmo em
relação à própria Divindade. «Deus
non sibi potest mortem consciscere si velit, quod homini dedit optimum
in tantis vitæ pœnis.» --
Lib. ii. cap. 5.
Tradução:
Pedro Galvão, 2002.
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