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N.º 2 — 2003 |
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Procrastinação Estruturada John Perry Department of Philosophy – Stanford University Há
meses que ando com a intenção de escrever este ensaio. Por que razão
estou finalmente a escrevê-lo? Porque encontrei por fim algum tempo
livre? Errado. Tenho trabalhos para corrigir, encomendas de manuais para
preencher, uma proposta de investigação para avaliar, esboços de
dissertações para ler. Estou a trabalhar neste ensaio de maneira a não
fazer nenhuma dessas coisas. Isto é a essência daquilo a que chamo procrastinação
estruturada, uma estratégia incrível descoberta por mim que
transforma procrastinadores em seres humanos produtivos, respeitados e
admirados por tudo o que conseguem realizar e pelo bom uso que fazem do
seu tempo. Todos os procrastinadores adiam aquilo que têm de fazer. A
procrastinação estruturada é a arte de fazer essa má característica
jogar a nosso favor. A ideia central é a de que procrastinar não
significa não fazer absolutamente nada. É raro os procrastinadores não
fazerem absolutamente nada; geralmente fazem coisas marginalmente úteis,
como jardinar, afiar o lápis ou desenhar um diagrama para reorganizar os
arquivos quando estiverem para aí virados. Por que razão faz o
procrastinador estas coisas? Porque são uma maneira de não fazer algo
mais importante. Se o procrastinador tivesse apenas que afiar alguns lápis,
nenhum força conhecida poderia levá-lo a afiá-los. No entanto, o
procrastinador pode ser levado a realizar tarefas difíceis, oportunas e
importantes, desde que essa tarefas sejam uma maneira de não fazer algo
mais importante. A
procrastinação estruturada consiste em moldar a estrutura das tarefas
que temos de realizar de maneira a tirar partido deste facto. A lista de
tarefas a ter em mente obedece a uma ordem de importância. As tarefas que
parecem mais urgentes e importantes estão no topo. Contudo, também
existem tarefas válidas mais abaixo. Realizar essas tarefas torna-se uma
maneira de não fazer as coisas que estão mais acima na lista. Com esta
maneira de estruturar as tarefas, o procrastinador torna-se um cidadão útil.
Na verdade, o procrastinador pode mesmo adquirir, como aconteceu no meu
caso, a fama de fazer muita coisa. Vivi
a situação mais perfeita para a procrastinação estruturada quando eu e
a minha mulher éramos Resident Fellows na Soto House, uma residência
universitária em Stanford. À noite, confrontado com trabalhos para
corrigir, aulas para preparar e trabalho burocrático para fazer, saía da
nossa pequena casa próxima da residência e ia passear e jogar ping-pong
com os residentes, conversar com eles nos seus quartos ou simplesmente ler
o jornal. Fiquei com a reputação de ser um excelente Resident Fellow,
bem com de ser um dos raros professores que passavam algum tempo com os
estudantes de licenciatura e que os conhecia. Que chatice: joga ping-pong
de maneira a não fazeres coisas mais importantes e fica com fama de
porreiro. Muitas
vezes, os procrastinadores seguem precisamente o caminho errado. Tentam
reduzir os seus compromissos, imaginando que, se tiverem apenas algumas
coisas para fazer, deixarão de procrastinar e farão essas coisas. Mas
isto vai contra a natureza fundamental do procrastinador e aniquila a sua
fonte de motivação mais importante. As tarefas que restarem na sua lista
serão, por definição, as mais importantes, e a única maneira de as
evitar será não fazer nada. Essa será uma maneira de se tornarem molengões,
e não seres humanos produtivos. Neste
ponto, o leitor poderá perguntar: «Então e as tarefas importantes do
topo da lista, aquelas que nunca realizamos?» Há que admitir que existe
aqui um problema potencial. O
truque é escolher o tipo apropriado de projectos para o topo da lista. Os
projectos ideais têm duas características. Em primeiro lugar, parecem
ter prazos claros e improrrogáveis (mas na verdade não têm). Em segundo
lugar, parecem ser extremamente importantes (mas na verdade não são).
Felizmente, a vida está cheia de tarefas deste género. Nas
universidades, a grande maioria das tarefas caem nesta categoria, e estou
certo de que acontece o mesmo na maior parte das outras grandes instituições.
Consideremos, por exemplo, o item que está agora no topo da minha lista:
acabar um ensaio para um livro de filosofia da linguagem. Já devia tê-lo
acabado há onze meses. Fiz uma enorme quantidade de coisas importantes de
maneira a não trabalhar nele. Há uns meses atrás, incomodado por
sentimentos de culpa, escrevi uma carta ao organizador do livro em que
dizia como lamentava estar tão atrasado e exprimia as minhas boas intenções
de voltar ao trabalho. Escrever a carta, obviamente, foi uma maneira de não
trabalhar no artigo. Vim a descobrir que, na verdade, não estava muito
mais atrasado do que os outros. E, afinal, que importância tem o artigo?
Não tanta que não acabe por aparecer alguma coisa que pareça mais
importante. Nessa altura acabarei o artigo. Outro
exemplo são as encomendas de livros. Estou a escrever isto em Junho. Em
Outubro vou estar a ensinar epistemologia. Já devia ter entregue na
livraria os impressos das encomendas. É fácil entender isto como uma
tarefa importante com um prazo improrrogável (reparo que para vós, não-procrastinadores,
os prazos só começam a incomodar realmente uma ou duas semanas depois de
terem passado). Quase todos os dias recebo avisos do secretário do
departamento, por vezes os estudantes perguntam-me qual será a
bibliografia, e os papéis por preencher estão precisamente no meio da
minha secretária, por baixo dos guardanapos da sandes que comi na última
quarta-feira. Esta tarefa está quase no topo da minha lista; incomoda-me
e leva-me a fazer outras coisas úteis, mas superficialmente menos
importantes. Contudo, a livraria está suficientemente ocupada com
encomendas já preenchidas por não-procrastinadores. Posso entregar as
minhas a meio do Verão e tudo correrá bem. Precisarei apenas de
encomendar livros conhecidos de editoras eficientes. Entre hoje e,
digamos, um de Agosto, aceitarei outra tarefa aparentemente mais
importante. Então a minha psique sentir-se-á inclinada para preencher as
encomendas de maneira a não realizar essa nova tarefa. O
leitor atento poderá sentir neste momento que a procrastinação
estruturada exige uma certa auto-engano,[1]
pois ao praticá-la estaremos a propor a nós próprios um esquema de pirâmide.
É mesmo isso. Precisamos de conseguir reconhecer e comprometermo-nos com
tarefas que apresentam uma importância exagerada e prazos irreais, ao
mesmo tempo que nos convencemos de que elas são importantes e urgentes.
Isto não constitui um problema, pois virtualmente todos os
procrastinadores têm uma excelente capacidade para se enganarem a si próprios.
E o que poderia ser mais nobre que usar uma falha de carácter para
cancelar os maus efeitos de outra? ©
John Perry, 1995. Tradução: ©
Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados. Publicado
com a autorização do autor.
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