N.º 2 — 2003

O livro mais recente de John Perry, Identity, Personal Identity and the Self (2002), reúne os ensaios que o tornaram um dos filósofos incontornáveis no debate acerca da identidade pessoal. O seu A Dialogue on Personal Identity and Immortality (1978) é uma introdução irresistível ao tema.   

Procrastinação Estruturada

John Perry

Department of Philosophy – Stanford University

Há meses que ando com a intenção de escrever este ensaio. Por que razão estou finalmente a escrevê-lo? Porque encontrei por fim algum tempo livre? Errado. Tenho trabalhos para corrigir, encomendas de manuais para preencher, uma proposta de investigação para avaliar, esboços de dissertações para ler. Estou a trabalhar neste ensaio de maneira a não fazer nenhuma dessas coisas. Isto é a essência daquilo a que chamo procrastinação estruturada, uma estratégia incrível descoberta por mim que transforma procrastinadores em seres humanos produtivos, respeitados e admirados por tudo o que conseguem realizar e pelo bom uso que fazem do seu tempo. Todos os procrastinadores adiam aquilo que têm de fazer. A procrastinação estruturada é a arte de fazer essa má característica jogar a nosso favor. A ideia central é a de que procrastinar não significa não fazer absolutamente nada. É raro os procrastinadores não fazerem absolutamente nada; geralmente fazem coisas marginalmente úteis, como jardinar, afiar o lápis ou desenhar um diagrama para reorganizar os arquivos quando estiverem para aí virados. Por que razão faz o procrastinador estas coisas? Porque são uma maneira de não fazer algo mais importante. Se o procrastinador tivesse apenas que afiar alguns lápis, nenhum força conhecida poderia levá-lo a afiá-los. No entanto, o procrastinador pode ser levado a realizar tarefas difíceis, oportunas e importantes, desde que essa tarefas sejam uma maneira de não fazer algo mais importante.

A procrastinação estruturada consiste em moldar a estrutura das tarefas que temos de realizar de maneira a tirar partido deste facto. A lista de tarefas a ter em mente obedece a uma ordem de importância. As tarefas que parecem mais urgentes e importantes estão no topo. Contudo, também existem tarefas válidas mais abaixo. Realizar essas tarefas torna-se uma maneira de não fazer as coisas que estão mais acima na lista. Com esta maneira de estruturar as tarefas, o procrastinador torna-se um cidadão útil. Na verdade, o procrastinador pode mesmo adquirir, como aconteceu no meu caso, a fama de fazer muita coisa.

Vivi a situação mais perfeita para a procrastinação estruturada quando eu e a minha mulher éramos Resident Fellows na Soto House, uma residência universitária em Stanford. À noite, confrontado com trabalhos para corrigir, aulas para preparar e trabalho burocrático para fazer, saía da nossa pequena casa próxima da residência e ia passear e jogar ping-pong com os residentes, conversar com eles nos seus quartos ou simplesmente ler o jornal. Fiquei com a reputação de ser um excelente Resident Fellow, bem com de ser um dos raros professores que passavam algum tempo com os estudantes de licenciatura e que os conhecia. Que chatice: joga ping-pong de maneira a não fazeres coisas mais importantes e fica com fama de porreiro.

Muitas vezes, os procrastinadores seguem precisamente o caminho errado. Tentam reduzir os seus compromissos, imaginando que, se tiverem apenas algumas coisas para fazer, deixarão de procrastinar e farão essas coisas. Mas isto vai contra a natureza fundamental do procrastinador e aniquila a sua fonte de motivação mais importante. As tarefas que restarem na sua lista serão, por definição, as mais importantes, e a única maneira de as evitar será não fazer nada. Essa será uma maneira de se tornarem molengões, e não seres humanos produtivos.

Neste ponto, o leitor poderá perguntar: «Então e as tarefas importantes do topo da lista, aquelas que nunca realizamos?» Há que admitir que existe aqui um problema potencial.

O truque é escolher o tipo apropriado de projectos para o topo da lista. Os projectos ideais têm duas características. Em primeiro lugar, parecem ter prazos claros e improrrogáveis (mas na verdade não têm). Em segundo lugar, parecem ser extremamente importantes (mas na verdade não são). Felizmente, a vida está cheia de tarefas deste género. Nas universidades, a grande maioria das tarefas caem nesta categoria, e estou certo de que acontece o mesmo na maior parte das outras grandes instituições. Consideremos, por exemplo, o item que está agora no topo da minha lista: acabar um ensaio para um livro de filosofia da linguagem. Já devia tê-lo acabado há onze meses. Fiz uma enorme quantidade de coisas importantes de maneira a não trabalhar nele. Há uns meses atrás, incomodado por sentimentos de culpa, escrevi uma carta ao organizador do livro em que dizia como lamentava estar tão atrasado e exprimia as minhas boas intenções de voltar ao trabalho. Escrever a carta, obviamente, foi uma maneira de não trabalhar no artigo. Vim a descobrir que, na verdade, não estava muito mais atrasado do que os outros. E, afinal, que importância tem o artigo? Não tanta que não acabe por aparecer alguma coisa que pareça mais importante. Nessa altura acabarei o artigo.

Outro exemplo são as encomendas de livros. Estou a escrever isto em Junho. Em Outubro vou estar a ensinar epistemologia. Já devia ter entregue na livraria os impressos das encomendas. É fácil entender isto como uma tarefa importante com um prazo improrrogável (reparo que para vós, não-procrastinadores, os prazos só começam a incomodar realmente uma ou duas semanas depois de terem passado). Quase todos os dias recebo avisos do secretário do departamento, por vezes os estudantes perguntam-me qual será a bibliografia, e os papéis por preencher estão precisamente no meio da minha secretária, por baixo dos guardanapos da sandes que comi na última quarta-feira. Esta tarefa está quase no topo da minha lista; incomoda-me e leva-me a fazer outras coisas úteis, mas superficialmente menos importantes. Contudo, a livraria está suficientemente ocupada com encomendas já preenchidas por não-procrastinadores. Posso entregar as minhas a meio do Verão e tudo correrá bem. Precisarei apenas de encomendar livros conhecidos de editoras eficientes. Entre hoje e, digamos, um de Agosto, aceitarei outra tarefa aparentemente mais importante. Então a minha psique sentir-se-á inclinada para preencher as encomendas de maneira a não realizar essa nova tarefa.

O leitor atento poderá sentir neste momento que a procrastinação estruturada exige uma certa auto-engano,[1] pois ao praticá-la estaremos a propor a nós próprios um esquema de pirâmide. É mesmo isso. Precisamos de conseguir reconhecer e comprometermo-nos com tarefas que apresentam uma importância exagerada e prazos irreais, ao mesmo tempo que nos convencemos de que elas são importantes e urgentes. Isto não constitui um problema, pois virtualmente todos os procrastinadores têm uma excelente capacidade para se enganarem a si próprios. E o que poderia ser mais nobre que usar uma falha de carácter para cancelar os maus efeitos de outra?



[1] (N. do T.) Self-deception.


© John Perry, 1995. Tradução: © Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados.

Publicado com a autorização do autor.