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N.º 3 — 2004 |
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História da Ética Moderna: Bentham Stephen Darwall Department of Philosophy – University of Michigan Aula 1
I Quem
ler um manual contemporâneo de ética descobrirá, provavelmente, que
muitas
questões são discutidas a partir da distinção entre éticas
consequencialistas e éticas deontológicas. Afirma-se que o
consequencialismo sustenta que os actos são certos ou errados em virtude
do valor das suas consequências, ao passo que a deontologia rejeita isto,
declarando que os actos podem ser certos ou errados em si mesmos -- pode
ser certo dizer a verdade mesmo que as consequências de o fazer sejam más;
pode ser errado trair um amigo mesmo que a traição tenha boas consequências. Uma
coisa notável nesta maneira de entender o assunto é a suposição de que
a ética diz respeito primariamente àquilo que torna os actos certos ou
errados -- e supõe-se que os actos são certos ou errados em virtude das
suas consequências ou em virtude da sua própria natureza. Esta ênfase não
pode deixar de parecer surpreendente se virmos as coisas da perspectiva
dos pensadores do século XVIII que estudámos -- pensadores como
Hutcheson, Butler, Hume e Kant. Nenhum destes filósofos julga que o
problema de saber o que devemos fazer é resolvido, em última análise,
através de um exame da natureza dos próprios actos (considerados
independentemente dos motivos) ou das suas consequências. Hutcheson
é, talvez, o caso mais claro. Defende que a aprovação e a condenação
são as ideias próprias da moral e que as temos apenas quando
contemplamos os motivos ou as acções na medida em que estas são
motivadas. Em rigor, apenas a benevolência suscita a aprovação (moral)
e, embora de certo modo o sentido moral aprove os actos que têm as
melhores consequências, essa aprovação é derivada. É porque aprovamos
fundamentalmente a benevolência universal, e porque este motivo se dirige
para a maior felicidade do maior número, que o melhor acto em termos
morais é aquele realiza efectivamente esse estado de coisas. Outra
maneira de formular esta ideia é dizer que Hutcheson pensa que a moral
diz respeito fundamentalmente à virtude e ao vício, e apenas
derivadamente à questão de saber o que devemos fazer. A resposta à última
questão será determinada pela resposta à primeira. A
posição oficial de Hume é bastante similar. Ele escreve que uma acção
não pode ter qualquer mérito quando é considerada em si mesma ou vista
à luz das suas boas consequências. É o motivo ou traço de carácter
que tem mérito, e os actos aos quais este conduz adquirem mérito apenas
derivadamente. Na verdade, Hume geralmente sente relutância em dizer que
um acto tem mérito, a não ser que tenha sido efectivamente causado por
um motivo virtuoso. Butler
também se enquadra nesta imagem geral. A consciência ou princípio de
reflexão é uma faculdade pela qual aprovamos ou reprovamos princípios
de acção dentro de nós próprios. Embora eu tenha observado que os seus
argumentos da Dissertação parecem um catálogo das objecções
que os deontologistas fazem aos consequencialistas, o seu verdadeiro alvo
é a tese de Hutcheson segundo a qual a benevolência é toda a virtude.
Contra esta tese, Butler defende que aprovamos a pessoa que está decidida
a manter a palavra, ser honesta, etc., mesmo quando acredita que isso não
dará origem às melhores consequências. Kant
é apontado frequentemente como um deontologista proeminente, mas é
importante reconhecer que a sua perspectiva não é a de que certos actos
são simplesmente certos ou errados em si mesmos. Kant não atende apenas
à natureza intrínseca dos actos, considerados independentemente não só
das suas consequências, mas também de tudo o resto. Na verdade, Kant é
muito fiel à tradição do século XVIII e julga que o carácter é
fundamental. II Ainda
que Jeremy Bentham não tenha sido o primeiro filósofo moral a conceber a
ética como uma tentativa de responder ao problema de saber o que devemos
fazer independentemente de uma resposta ao problema de saber que carácter
ou princípios de acção devemos ter, pode ter sido o primeiro filósofo
a conduzir esta perspectiva III Vale
a pena contar aqui uma história muito interessante que envolve Hume.
Quando Bentham leu o Tratado de Hume, sentiu, como escreveu mais
tarde, que lhe tinham destapado os olhos e aprendeu «a ver que a
utilidade é o teste e a medida de toda a virtude». Porém, a perspectiva
de Hume era a de que a virtude é primária e que os actos adquirem mérito
apenas na medida em que manifestam um carácter virtuoso. De que modo, então,
a leitura de Hume conduziu Bentham à perspectiva de que a correcção de
um acto depende inteiramente de este ter as melhores consequências, o que
difere radicalmente do seu motivo ou da possibilidade de este ter sido
produzido por um motivo virtuoso? Proponho a «história especulativa»
que passo a apresentar. A
ética de Hume assemelha-se à de Hutcheson nestes dois aspectos: a
virtude é primária e os actos são bons apenas por causa da sua relação
com os motivos virtuosos; aquilo que faz um motivo ser uma virtude é o
facto de a sua contemplação produzir um sentimento de aprovação no
observador. Porém, Hume também sustentou, como devem recordar-se, que
este sentimento não é uma resposta à simples apreciação do motivo em
si mesmo. Ele surge de uma consideração simpática dos
efeitos do motivo. A razão pela qual Hume pensou que, como Bentham disse,
«a utilidade é o teste e a medida de toda a virtude» foi a seguinte:
quando um observador contempla os efeitos aprazíveis de um motivo, sente
um prazer simpático que, como surge (indirectamente) da contemplação do
motivo, produz a sua aprovação. E é isto que faz esse traço ser uma
virtude. Assim,
para Hume (mas não para Hutcheson) aquilo que faz um traço de carácter
ser uma virtude é o facto de este ter efeitos aprazíveis. Não é
descabido dizer que é nisto que consiste o seu mérito distinto enquanto
motivo, o facto de ser uma virtude. Para Hutcheson, pelo contrário, a
virtuosidade de um motivo depende de a contemplação do próprio motivo
produzir uma aprovação que não está ligada às suas consequências. IV Ora,
isto explica como Bentham pôde encontrar em Hume a ideia de que a
utilidade é aquilo que faz um traço de carácter ou um motivo ser uma
virtude. Mas por que razão Bentham, contrariamente a Hume, deu um passo
em frente de modo a avaliar os actos pelas suas consequências? Parte
da resposta resulta dos objectivos dos dois autores. Enquanto que o
objectivo de Hume era sobretudo o de descrever o nosso pensamento moral e
os nossos sentimentos morais, o de Bentham era o de identificar os actos a
prescrever. Bentham era um reformador e estava interessado primariamente
em encontrar um fundamento para determinar o que devemos fazer. Ora, tanto
o nosso pensamento moral como os nossos sentimentos morais não se ajustam
muito bem ao utilitarismo dos actos. Porém, se pensarmos que as nossas
avaliações de carácter têm um fundamento utilitarista, e se estivermos
interessados em saber o devemos que fazer, podemos perfeitamente supor que
a utilidade, como dá origem ao valor dos motivos, também determina
aquilo que uma pessoa deve fazer. Em quaisquer circunstâncias, por que não
há-de uma pessoa fazer aquilo que provavelmente terá melhores consequências?
Se estivermos interessados em prescrever actos e acreditarmos que os
motivos são bons ou maus em virtude de terem, respectivamente, boas ou más
consequências, parece ser natural seguir esta linha de pensamento. Ora,
como sabemos, Hume, tal como Hutcheson, resistiu a esta linha de
pensamento. Defendeu resolutamente que o mérito de um acto depende da sua
relação com o motivo, e não das suas consequências. Porém,
contrariamente a Hutcheson, Hume ficou numa posição em que era muito difícil
defender isto como uma tese prescritiva -- e não, por exemplo, como uma
tese que descreve o modo como pensamos e sentimos efectivamente. Hutcheson
sustentou que as ideias próprias da moral são a aprovação e a condenação.
Estas subjazem, respectivamente, às ideias de bem moral e mal moral, que
estão devidamente ligadas aos motivos e ao carácter. Além disso, este
bem moral é um tipo distinto de bem, não sendo redutível ao bem
natural. Um traço ou motivo não é moralmente bom por conduzir ao bem
natural, mas por produzir à aprovação quando é contemplado
intrinsecamente. Se perguntamos, então, o que uma pessoa deve
(moralmente) fazer, estamos a colocar uma questão que invoca uma ideia
que tem de incluir as ideias morais simples e distintivas de aprovação
e/ou condenação. Por isso, não podemos resolver essa questão sem
considerar o motivo em algum momento, pois estas ideias simples resultam
apenas da contemplação dos motivos dos agentes morais. Deste modo,
Hutcheson tem uma razão criteriosa para resistir à linha de pensamento
que conduziu Bentham ao utilitarismo dos actos. A qualidade moral de um
acto não pode ser completamente independente do bem moral distinto que só
os motivos de um agente moral podem ter. Hume,
pelo contrário, não tinha esta razão para resistir à linha de
pensamento que conduziu à conclusão de Bentham. Ele defendeu que a
distinção entre as virtudes morais e as capacidades naturais estimáveis
era puramente verbal. Por oposição a Hutcheson, pensava que não
existiam quaisquer ideias simples e distintamente morais que separassem
o mérito moral do mérito não moral. Por isso, não podia defender que a
razão pela qual a questão de saber o que uma pessoa deve (moralmente)
fazer não pode ser resolvida independentemente dos motivos é o facto de
essa questão invocar uma ideia que tem de incluir as ideias simples da
moral que podem ser produzidas apenas pela contemplação do motivo e do
carácter. Assim,
quando Bentham leu o texto de Hume com os olhos de um reformador (e não
com os olhos do seu autor «anatomista») e viu que a utilidade era «o
teste e a medida de toda a virtude», não encontrou qualquer razão para
resistir à ideia de que esta tem de ser, portanto, o teste e a medida de
toda a acção. Esta história é tão clara que simplifica demasiado as
coisas. Existem outras linhas de pensamento fascinantes que conduziram
Bentham ao utilitarismo dos actos. Começaremos a examiná-las na próxima
aula. Aula 2
I Jeremy
Bentham pertence decididamente a uma geração posterior à de Hume e
Kant. Nasceu em 1748, quase dez anos depois da publicação do Tratado de
Hume, e viveu durante uma boa parte do século XIX, tendo morrido em 1832.
Publicou a sua Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação em
1879, nove anos depois de a ter concluído. Embora
Bentham fosse filosoficamente perspicaz mesmo em áreas como a filosofia
da linguagem, os seus interesses incidiam primariamente no direito e na
política. Via estas instituições com os olhos de um reformador,
decidido a determinar, sem confiar em intuições infundadas e nas noções
jurídicas comuns, que argumentos sólidos podiam ser apresentados para
justificar as instituições jurídicas. Ficou célebre a sua afirmação
de que a ideia de direitos naturais é um «disparate sobre andas». II Os
Princípios começam com esta passagem famosa: «A natureza colocou
os homens sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Só
a eles compete apontar aquilo que devemos fazer, bem como determinar
aquilo que iremos fazer». (IPML, Cap. 1, §1) Aqui Bentham anuncia o traço
essencial da sua ética e da sua psicologia. Os seres humanos são
motivados apenas por considerações relativas ao seu próprio prazer e à
sua própria dor. Assim, a sua psicologia é a do hedonismo egoísta. Porém,
aquilo que moralmente devemos fazer é outra questão. O curso de acção
moralmente apropriado é sempre aquele que, consideradas todas as pessoas,
dá origem ao maior total de prazer. Assim, a sua ética é a do hedonismo
universalista. Esta
combinação cria um óbvio problema prático -- ou até teórico. Se os
únicos actos psicologicamente possíveis para os agentes são aqueles que
irão promover o seu próprio prazer, qual poderá ser a força da ideia
de que, ainda assim, moralmente eles devem fazer aquilo que irá maximizar
a felicidade geral? Tem de haver alguma coisa que nos permita avançar da
felicidade individual para a felicidade geral. Bentham reservou
precisamente esse papel para as instituições jurídicas e políticas.
Fazendo uma legislação e administração sensatas, os políticos podem
criar incentivos que façam os indivíduos descobrir que a sua própria
felicidade reside no mesmo caminho que conduz à felicidade geral.
Compare-se esta ideia com Hutcheson e Butler. Se um epigrama adequado para
eles era «Que nenhum homem separe aquilo que Deus uniu » (o amor-próprio e
a benevolência), o epigrama de Bentham poderia ser «Que o homem volte
a unir aquilo que Deus ou a natureza separaram». III Uma
maneira de começar a apreciar esta posição é examinar o que Bentham
entende pelo princípio da utilidade. Recordemos que, para os autores do século
XVIII que estudámos, como Hutcheson, Hume, Butler e Kant, o termo «princípio»
refere algo que está realizado na mente de uma pessoa. Por exemplo, o
princípio da reflexão de Butler é a faculdade psicológica da
auto-reflexão desinteressada e da autocrítica desapaixonada dos nossos
outros princípios psicológicos. E para Kant um princípio subjectivo da
vontade é a máxima segundo a qual uma pessoa age efectivamente ou
pretende agir.
Eis o que Bentham diz acerca daquilo que entende pelo princípio da
utilidade: O princípio que está aqui em questão pode ser visto como um acto mental, um sentimento, um sentimento de aprovação, um sentimento que, quando é aplicado a uma acção, aprova a sua utilidade, considerando-a a qualidade pela qual a medida da aprovação ou da reprovação deve ser governada. (IPML, Cap. 1, §2, nota.) Isto
é bastante complicado. Bentham não diz que o princípio é aquele que
aprova os actos na medida
em que estes tendem a produzir a felicidade. Em vez disso, o princípio
aprova a utilidade «considerando-a a qualidade [da acção] pela qual a
medida da aprovação ou
da
reprovação deve ser governada». Ou seja, aprova a aprovação de acções
que se baseia na sua utilidade. Devemos
salientar desde já o seguinte: esta aprovação de «segunda ordem» dos
actos que se baseia na sua utilidade supõe aparentemente que a aprovação
de «primeira ordem» admite algum tipo de controlo racional. A pessoa que
defende (possui?) o princípio da utilidade favorece o favorecimento dos
actos que promovem a utilidade -- favorece o recurso à utilidade dos
actos como forma de avaliar os actos a favorecer. Favorece essa forma de
avaliação enquanto fundamento racional para favorecer actos e políticas. IV Isto
já sugere algo que se torna mais claro noutras passagens: Bentham
acredita, opondo-se a autores como Hutcheson e Butler, que num debate ético
não basta apelar à nossa própria consciência ou sentido moral: Os diversos sistemas propostos acerca do padrão do certo e do errado [...] consistem em imensos pretextos para fugir à obrigação de apelar a um padrão externo e para forçar o leitor a aceitar o sentimento ou a opinião do autor como uma razão válida por si mesma. (IPML, Cap. 4, §14.) Bentham
acredita que qualquer perspectiva ética respeitável tem de apelar a uma
justificação exterior a si própria, a um fundamento ou padrão do qual
possa ser derivada. (Isto representa uma rejeição dos filósofos que já
abordámos, com a possível excepção de Hume -- e mesmo Hume contestaria
veementemente esta ideia.) E acredita que o único padrão possível é a
felicidade geral. Vejamos como Bentham chega a esta conclusão. V Julgo
que a melhor maneira de entender a posição de Bentham é supor que ele
está interessado sobretudo em explicar aquilo que o pensamento moral tem
de ser de modo a poder ser expresso em certas discussões e debates,
nomeadamente num discurso que é:
Resumidamente,
a posição de Bentham é a de que estes critérios serão satisfeitos
somente se os actos forem aprovados devido à sua utilidade. Logo, Bentham
aprova que os actos sejam aprovados por essa razão -- afirma o princípio
da utilidade. A.
Discurso claro e razoável.
Aparentemente, Bentham defende a tese radical segundo a qual a proposição
de que uma acção deve ser realizada tem significado somente se quer
dizer que essa acção promoverá a utilidade: «Quando são entendidas
desta maneira, as palavras “deves”, “certo”, “errado” e outras
do mesmo género têm significado. Quando são entendidas de outra
maneira, não têm qualquer significado» (IPML, Cap. 1, §10); «Os
sistemas que tentam questioná-la lidam com sons em vez de palavras com
sentido, com o capricho em vez da razão, com as trevas em vez da luz»
(IPML, Cap. 1, §1); «Quando um homem tenta combater o princípio da
utilidade, fá-lo, sem que disso se aperceba, com razões extraídas desse
mesmo princípio» (IPML, Cap. 1, §13). Para
percebermos bem o que Bentham quer dizer, precisamos de examinar os seus
outros critérios do discurso ético. Por razões que se tornarão claras
daqui a pouco, Bentham julga que uma posição ética só merece o
assentimento dos outros se, além de exprimir os nossos sentimentos,
referir também um fundamento para esses sentimentos. Uma posição ética
intelectualmente respeitável tem fazer ambas as coisas (recordem a
formulação complicada do princípio da utilidade). Bentham diz isto a
respeito de alguém que propõe outros princípios: «deixai-o investigar
e determinar se o princípio que ele julga ter descoberto é realmente um
princípio inteligível distinto ou se, pelo contrário, não passa de um
princípio de palavras, de uma espécie de expressão que, em última análise,
exprime apenas a simples afirmação dos seus sentimentos infundados, isto
é, se não passa daquilo a ele, relativamente a outra pessoa, tenderia a
considerar um capricho» (IPML, Cap. 1, §14, N.º 3). Deste
modo, para fazermos juízos morais que não sejam apenas expressões
infundadas de sentimentos pessoais, temos de referi-los a um «padrão
externo». Bentham parece acreditar que esse padrão confere ao «deves»
o seu verdadeiro significado numa discussão ou debate. Isto torna-se um
pouco mais claro com o segundo critério. B.
Discurso não-coercivo. A
propósito de alguém que defende que «a sua própria aprovação ou
reprovação, anexada à ideia de acto, sem qualquer consideração pela
suas consequências, constitui um fundamento suficiente para julgar e agir»,
Bentham afirma: «deixai-o interrogar-se se os seus sentimentos devem ser
um padrão do certo e do errado para todos os outros homens, ou se os
sentimentos de cada homem têm o mesmo privilégio de constituir um padrão
para si mesmo» (IPML, Cap. 1, § 14, N.º 4). «No primeiro caso»,
acrescenta, «deixai-o interrogar-se se o seu princípio não é despótico
e hostil a todos os outros seres humanos». A
ideia de Bentham é esta: se uma pessoa propõe uma opinião ética que
visa o respeito dos outros sem a justificar de alguma maneira por meio de
um padrão exterior às suas opiniões éticas (isto é, às suas avaliações
de actos e caracteres), então está a julgar aqueles que não a partilham
através de uma opinião que eles só podem considerar caprichosa. A
conclusão parece ser a de que o debate ético não-coercivo é possível
somente se os participantes assumirem a obrigação intelectual de
justificar as suas opiniões através de padrões que não pressuponham
que os outros partilham as suas opiniões éticas preferidas, isto é,
através de padrões não-morais. O debate moral liberal só é possível
nestes termos. C.
Discurso acerca de uma questão comum.
Se não apelarmos um padrão moralmente incontroverso para justificar as
nossas opiniões morais, a única alternativa ao despotismo será um
relativismo que bloqueia o debate genuíno. «No
segundo caso [isto é, quando aquele que apresenta a sua opinião ética
sem a justificar com um padrão externo moralmente incontroverso não
pretende julgar os outros com o seu padrão, mas permitir que eles usem o
seu próprio padrão], [ele que se interrogue se não é anárquico, se não
há tantos padrões diferentes do certo e do errado como homens, se toda a
discussão não chegou ao fim e se, quando dois homens dizem “Eu gosto
disto” e “Eu não gosto disto”, podem (a partir de um princípio
desse género) ter mais alguma coisa a dizer.» (IPML, Cap. 1, §14, N.º
6). D.
Discurso útil para dirigir a acção.
Se os outros critérios estabelecem a necessidade de um padrão externo
moralmente incontroverso que justifique as opiniões morais, o que podemos
afirmar de alguém que diz algo de incontroverso acerca de uma acção
(por exemplo, que a acção reduziria os impostos), mas que nada diz
acerca dos benefícios ou prejuízos dessa acção para as pessoas? Um
princípio deste género satisfazer os outros critérios, mas Bentham diz
o seguinte àquele que o propuser: «ele que diga se um homem pode ter um
motivo para corresponder às suas exigências; se pode, ele que diga qual
é esse motivo e como se distingue daqueles que fazem valer as exigências
da utilidade; se não pode, ele que diga para que serve este outro princípio»
(IPML, Cap. 1, §14, N.º 10). Embora
existam muitos factos incontroversos acerca das acções, os únicos que
podem motivar os seres humanos são aqueles que dizem respeito às consequências
dos actos para a felicidade das pessoas. VI Podemos
ver que o argumento a favor do princípio da utilidade desenvolve-se em
duas fases principais: i.
Conjuntamente, A, B e C visam estabelecer a necessidade de um padrão
externo e moralmente incontroverso para avaliar acções: um padrão que
possa ser aplicado através de meios empíricos comuns sem presumir
quaisquer sentimentos partilhados. ii.
D assegura que o princípio da utilidade é o único princípio
desse género que pode permitir que a discussão moral sirva efectivamente
para dirigir a acção colectiva. Aula 3
I Afirmei
que a defesa de Bentham do princípio da utilidade resulta do argumento de
que, entre os padrões a que podemos recorrer num debate ou discussão
moral, só este satisfaz os seguintes critérios:
Em
particular, Bentham defende que B exige que aqueles que participam numa
dessas discussões estejam preparados para apelar a um «fundamento extrínseco»
ou a um «padrão exterior» para justificar a sua aprovação ou reprovação
de um dado curso de acção. Se não estiverem, e se pretendem que a sua
aprovação ou reprovação de um acto seja «um padrão [...] para
qualquer outro homem», então isso será «despótico» (IPML, Cap. 1, §14,
N.º 5). Bentham acredita que o debate moral poderá escapar à coerção
apenas se os participantes estiverem obrigados a apontar uma justificação
ou fundamento que não exija a aceitação dos seus próprios sentimentos
e juízos morais. II Comecemos
por considerar mais algumas passagens que reforçam a ideia de que esta é
efectivamente a posição de Bentham. Em IPML, Cap. 2, §14, Bentham
afirma que «os vários sistemas que se formaram a respeito do padrão do
certo e do errado» aparentemente estão todos em conflito com a exigência,
própria de uma discussão moral liberal, de que os participantes apelem a
um padrão externo: «consistem todos em muitos artifícios que servem
para evitar a obrigação de apelar a um padrão externo, bem como para
levar o leitor a aceitar o ponto de vista ou sentimento do autor como se
este constituísse uma razão por si mesmo». E
depois, numa nota de rodapé bastante surpreendente, começa a catalogar
virtualmente todas as teorias éticas do último século, incluindo a
teoria do «sentido moral» de Hutcheson, a teoria do «senso comum» de
Thomas Reid e a «regra do certo» de Richard Price. Bentham pensa que
estas teorias, como não baseiam os juízos morais numa justificação
externa e não-moral, têm de ser rejeitadas pelo menos enquanto ideias a
que podemos recorrer na discussão moral liberal. «O mal comum a todas
estas maneiras de pensar e argumentar (que, na verdade, como vimos,
consistem num único método expresso em palavras diferentes) é o de
servirem como um manto, uma máscara e um alimento para o despotismo -- se
não um despotismo na prática, pelo menos um despotismo na disposição,
que tende demasiado a revelar-se na prática quando temos ambição e
poder» (IPML, Cap. 2, §14, nota). Embora
isso não esteja explícito aqui, parte daquilo que Bentham deve ter em
mente é a estreita conexão entre pensar que uma coisa é errada e pensar
que, na ausência de uma justificação adequada, ela merece ser censurada
ou mesmo dar origem a um castigo. Assim, se condenarmos alguma conduta,
mas não o fizermos apelando a uma justificação «externa», temos de
pensar que outra pessoa que não partilha a nossa reprovação pode
merecer uma repreensão ou um castigo, ainda que não exista qualquer
justificação para a repreensão ou para o castigo que essa pessoa possa
aceitar sem partilhar já os nossos sentimentos morais. Bentham
ridiculariza assim esta ideia: «se odeias muito, castiga muito; se odeias
pouco, castiga pouco. Castiga tanto quanto odiares. Se não odiares nada,
não castigues: os delicados sentimentos da alma não podem ser subjugados
e tiranizados pelas severas e ásperas exigências da utilidade política».
(IPML, Cap. 2, §13) Aqui, obviamente, Bentham está a pensar em casos nos
quais os «delicados sentimentos» não ordenam o castigo, ainda que as
considerações de utilidade o ordenem. III Na
mesma nota, Bentham resume o seu pensamento: Mas, então, nunca derivamos a nossas noções de certo e de errado de quaisquer considerações alheias à utilidade? Não sei nem me interessa. Saber se um sentimento moral pode surgir originalmente de uma fonte alheia à utilidade é uma questão; uma questão distinta é a de saber se, sob exame e reflexão, ele pode realmente manter-se e ser justificado de outra maneira por uma pessoa que esteja a pensar sozinha; uma terceira questão é a de saber se, atendendo aos direitos, ele pode ser apropriadamente justificado de outra maneira por uma pessoa que esteja a dirigir-se à comunidade. As duas primeiras questões são especulativas: em termos comparativos, não interessa como são resolvidas. A última questão é prática: a sua resolução tem a maior importância. (IPML, Cap. 2, §14, nota.)[1] IV O
princípio da utilidade, então, é o único que pode servir de padrão
externo para o debate moral liberal. No Capítulo IV, Bentham aborda o
problema de saber como se pode medir a utilidade. A utilidade é o prazer
e a ausência de dor. E os prazeres não têm quaisquer diferenças
qualitativas intrínsecas: enquanto prazeres, variam apenas na sua
intensidade e duração. Assim, a quantidade de utilidade que uma série
de experiências aprazíveis contém depende da intensidade dessas experiências
e do tempo que duram. Avaliar a utilidade global associada às várias acções
alternativas é uma questão de determinar o total de prazer (pesando a
dor no sentido inverso ao do prazer) que resultaria de cada acção. É
preciso ter em conta todos os afectados e comparar essa quantidade de
prazer com a que resultaria dos actos alternativos disponíveis. V Bentham
sustenta que a utilidade é o único padrão para determinar aquilo que
uma pessoa deve fazer: «O único fundamento apropriado da acção que
pode subsistir é, afinal, a consideração da utilidade; esta, se é o
princípio de acção e aprovação correcto num certo caso, também o é
em todos os outros casos». (IPML, Cap. 2, §19) Bentham
é especialmente claro quando afirma que o motivo pelo qual um agente pode
fazer algo é irrelevante para determinar como ele deve agir (ou deveria
ter agido). No entanto, pensa que é compreensível que por vezes pensemos
que o motivo é relevante: «Quando, no caso particular em questão, o
acto produz os efeitos que aprovamos, e ainda mais quando, noutros casos,
observamos que o mesmo motivo pode produzir frequentemente efeitos
semelhantes, tendemos a transferir a nossa aprovação para o próprio
motivo e a presumir que o fundamento adequado da aprovação do acto é o
facto de ele ter surgido desse motivo.» (IPML, Cap. 2, §19) Embora isto
seja compreensível, não deixa de ser um erro. A única razão para
aprovar um acto é as suas consequências, e não o seu motivo. VI Finalmente,
o Capítulo X reforça a mensagem de que nenhum motivo pode ser mau. Os
motivos são bons ou maus apenas em virtude das suas consequências (com a
excepção abaixo indicada). Bentham alude aqui a dois argumentos. Em
primeiro lugar, o mesmo motivo tanto pode conduzir a actos bons como a
actos maus, o que depende das circunstâncias: «1. Para se distrair, um
rapaz lê um livro instrutivo: talvez o motivo seja considerado bom; pelo
menos não é mau. 2. Ele mete um pião a girar: o motivo não é
considerado mau. 3. Ele solta um boi enraivecido numa multidão: agora
talvez o seu motivo seja considerado abominável. No entanto, nestes três
casos o motivo pode ser o mesmo: pode ser nem mais nem menos do que a
curiosidade.» (IPML, Cap. 10, §17) Em
segundo lugar, Bentham sustenta que todos os motivos são exemplos do
desejo de ter algum prazer ou de evitar alguma dor. Mas, nesta medida,
qualquer motivo é intrinsecamente bom. «Um motivo não é
substancialmente mais do que o prazer ou a dor a operar de uma certa
maneira». (IPML, Cap. 10, §9) «Ora, o prazer é não só um bem em si
mesmo, mas também, mesmo sem pôr de parte a ausência de dor, o único
bem. A dor é um mal em si mesma. Na verdade, é, sem excepção, o único
mal. De outro modo, as palavras “bem” e “mal” não teriam
significado. E isto aplica-se a todos os géneros de dor e a todos os géneros
de prazer. Portanto, segue-se imediata e incontestavelmente que não
existe qualquer género de motivo que seja mau em si mesmo.» (IPML, Cap.
10, §10) [1]
«[A]tendendo aos direitos»: somos quase tentados a concluir que o
princípio da utilidade de Bentham, que é o fundamento do debate
moral liberal, baseia-se no direito fundamental a não ser coagido. ©
Stephen Darwall. Tradução: ©
Pedro Galvão, 2003. Todos os direitos reservados. Publicado
com a autorização do autor.
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