N.º 3 — 2004

Meatética: Moore e o Naturalismo

James Lenman

Department of Philosophy – University of Sheffield  

Temos agora diante de nós um conjunto de dificuldades que todo aquele que quiser ser realista moral terá de enfrentar: uma dificuldade relativa à explicação do desacordo moral, uma dificuldade relativa à epistemologia dos juízos morais e uma dificuldade relativa à superveniência.

Naturalismo

Gostaria agora de regressar a uma questão que mencionei quando falámos da superveniência: qual é a relação que existe entre as propriedades morais e as propriedades naturais? Vimos que parece existir uma certa intimidade entre os dois tipos de propriedades. É muito plausível que as propriedades morais dependam de alguma maneira das propriedades naturais. O facto de Hitler ser mau resulta de alguma maneira do facto de Hitler se ter comportado de certa forma. Vimos que esta dependência não parecia ser lógica nem causal, e por isso interrogámo-nos acerca da sua natureza exacta.

Bom, aqui está uma ideia. Talvez esta dependência seja do género mais simples que se possa imaginar. Talvez consista apenas na identidade. Talvez as propriedades morais resultem de propriedades naturais por serem idênticas a certas propriedades naturais.

Se pensarmos deste modo, seremos realistas morais de uma certa espécie: seremos realistas morais naturalistas. (Ou apenas naturalistas, embora, como veremos na próxima aula, esta designação possa ser enganadora.) Na vossa antologia, Railton e Boyd representam esta posição. [DGR, 7 e 8] Mas que tipo de perspectiva é esta? Como pode alguém identificar as propriedades morais com quaisquer propriedades naturais? Esta é uma proposta que nos parece familiar: a propriedade de ser bom é apenas a propriedade de conduzir à felicidade geral. Eis outra proposta: a propriedade de ser bom é a propriedade de ser aprovado por todas ou quase todas as pessoas da sociedade à qual o falante pertence. As propostas de Railton e de Boyd são um pouco mais complicadas. Consistem aproximadamente nas seguintes ideias:

Railton: A propriedade de ser certo é a propriedade de ser racionalmente aprovado quando os interesses de todos os indivíduos potencialmente afectados são atendidos em pé de igualdade em condições de informação completa e vívida.

Boyd: A propriedade de ser bom é a propriedade de conduzir ao predomínio de um grupo complexo e homeostaticamente organizado de propriedades de coisas que satisfazem necessidades humanas importantes.

O naturalismo ético identifica as propriedades morais com propriedades naturais. Deste modo, a ética deixa de ser epistemologicamente problemática. Afinal, podemos conhecer os factos éticos através dos meios sensoriais comuns pelos quais conhecemos os factos naturais, pois os factos éticos são apenas factos naturais. Seria bom que isto fosse verdade, já que nesse caso as propriedades morais não colocariam dificuldades filosóficas especiais.

Ao apresentar a perspectiva de Mackie acerca da superveniência, sugeri que não podemos ver a dependência das propriedades morais em relação às naturais como uma forma de dependência lógica. Afinal, não nos ensinou Hume que não podemos obter um «deve ser» a partir de um «é»? Porém, segundo algumas formas de realismo moral naturalista, isto é pura e simplesmente falso: Hume estava enganado. Nós podemos obter um «deve ser» a partir de um «é». Deste modo, a dependência problemática é claramente lógica.

Assim, se formos um naturalista deste género e pensarmos que a propriedade de ser bom é idêntica à propriedade de conduzir à felicidade, então «X conduz à felicidade» implica «X é bom». Para este género de naturalismo, as expressões «é bom» e «conduz à felicidade» são analiticamente equivalentes. Por definição, significam a mesma coisa. Podemos chamar naturalismo definicional ao naturalismo que nos diz isto. O naturalismo afirma que as propriedades morais são idênticas a propriedades naturais. O naturalismo definicional afirma que o são por definição, em virtude do seu significado.

O Argumento da Questão em Aberto

Este tipo de posição foi o alvo do argumento mais famoso na metaética do século XX. O argumento é conhecido por Argumento da Questão em Aberto e o seu autor, G. E. Moore, avançou-o em 1903 no livro Principia Ethica. [Excerto, DGR, 2]

Eis um exemplo de uma teoria naturalista (definicional) muito simples:

NF: «X é bom» =df «X conduz à felicidade geral»

Este é um dos exemplos que o próprio Moore usa:

ND: «X é bom» =df «X é algo que [de uma forma contextualmente determinada] desejamos desejar»

Conduzir à felicidade ou ser algo que desejamos desejar são propriedades naturais. (Talvez isto seja discutível, mas admitamo-lo para benefício da discussão.) Podemos descobrir através da observação que tipos de coisas tornam as pessoas felizes e que tipos de coisas desejamos desejar. Assim, se NF ou ND forem verdadeiras, o realismo moral não será demasiado problemático: a propriedade de ser bom não será mais misteriosa ou filosoficamente embaraçosa do que a propriedade de tornar as pessoas felizes ou a propriedade de ser um objecto de um desejo de segunda ordem.

Em termos mais gerais, podemos dizer que as teorias naturalistas (definicionais) assumem a seguinte forma:

N: «X é bom =df «X tem a propriedade natural P»

Poderíamos ter escolhido «certo» ou qualquer outro termo ético em vez de «bom».

Moore exprime a ideia central do Argumento da Questão em Aberto da seguinte maneira:

«Seja qual for a definição apresentada, pode-se perguntar sempre acerca do complexo assim definido, com todo o sentido, se ele próprio é bom. [...] Pode ser verdade que aquilo que desejamos desejar é sempre bom; talvez mesmo o inverso possa ser verdade. Porém, é muito duvidoso que seja esse o caso, e o simples facto de entendermos o que significa duvidar de que seja esse o caso mostra claramente que temos duas noções diferentes diante da nossa mente.» [p. 57]

Para vermos qual é a ideia de Moore, consideremos um exemplo simples de uma definição:

S: «X é solteiro» =df «X é um homem não-casado»

Suponhamos que eu admito que um certo X (por exemplo, Marco) é um homem não-casado. E suponhamos que eu pergunto se Marco é solteiro. No sentido que aqui nos interessa, esta não é uma questão em aberto. Afinal, se Marco é um homem não-casado, então ele tem de ser solteiro. Se eu sei que ele é um homem não-casado, mas ainda assim duvido de que ele seja solteiro, então isto mostra que não sou um falante competente do português e que pura e simplesmente não entendo o significado destas palavras. Se eu disser «Então ele é um homem não-casado, mas será que é solteiro?», isto mostra que eu não sei o que estou a dizer.

Suponhamos agora que eu sei que um certo X conduz à felicidade geral. E suponhamos que eu pergunto: «Isso conduz à felicidade geral, mas será que é bom?». Moore sustenta que esta é uma questão em aberto. Posso ter uma noção perfeitamente adequada do significado de «bom» e, ainda assim, perguntar inteligivelmente se uma coisa que conduz à felicidade geral é boa.

Em termos mais gerais, podemos dizer que, para qualquer propriedade natural P, a questão «X é P, mas será que é bom?» é uma questão em aberto. Dado que esta é uma questão em aberto, não podemos aceitar qualquer definição naturalista de «bom» nem, por razões análogas, de qualquer outro termo ético. Assim, não podemos identificar o bem com uma propriedade natural.

Moore tentou refutar desta maneira aquilo que designou por falácia naturalista: a alegada falácia de identificar o bem com uma propriedade natural, como a propriedade de maximizar o bem ou a propriedade de tender a satisfazer desejos.

Vejamos, então, o que nos diz o Argumento da Questão em Aberto contra a falácia naturalista. Consideremos qualquer tentativa de identificar analiticamente (isto é, através de uma definição) o bem com uma propriedade natural. Consideremos, por exemplo, a afirmação de que «bom» significa «maximiza a felicidade». Suponhamos que sabemos que uma certa acção maximiza a felicidade. Ainda que saibamos isto, sustenta Moore, podemos perguntar razoavelmente: «Sim, mas essa acção é boa?». Mesmo quando sabemos que uma acção maximiza a felicidade, a questão «Mas essa acção é boa?» não deixa de estar em aberto. Por isso, a questão «Será que maximiza a felicidade?» e a questão «Será que é boa?» não são a mesma questão. O conceito de bem não pode ser o conceito de maximizar a felicidade.

Para exprimir esta ideia de outra maneira, podemos observar que quem disser «Isto maximiza a felicidade, mas não é bom» ou «Isto é bom, mas não maximiza a felicidade» não estará a contradizer-se. Uma vez mais, parece que o conceito de bem não é o conceito de maximizar a felicidade. E Moore pensava que um raciocínio análogo poderia mostrar que o conceito de bem não é o conceito de qualquer outra propriedade natural.

A objecção da circularidade

Segundo uma objecção muito conhecida ao Argumento da Questão em Aberto [Veja-se, por exemplo, Frankena, 1939], este é circular, envolve uma petição de princípio. Será que a sua premissa básica é verdadeira? Será que, para qualquer propriedade natural P, a questão «Algo que admitimos ser P é bom?» é sempre uma questão em aberto? A resposta parece ser esta: sim, se a definição em questão, N, for uma má definição; se for uma boa definição, então a questão estará fechada do mesmo modo que a questão «Um homem não-casado é solteiro?» está fechada. Sabemos que a questão «Um homem não-casado é solteiro?» está fechada precisamente porque sabemos que S é uma boa definição de solteiro. Deste modo, o argumento não prova nada. Os naturalistas limitar-se-ão a negar a premissa.

Podemos apresentar a objecção apontando o aspecto da contradição. Poderemos dizer que uma coisa é boa, mas que não conduz à felicidade, sem nos contradizermos? Poderemos se, e apenas se, a definição naturalista NF for incorrecta. Se a definição for correcta, cometeremos uma contradição se dissermos isso. Assim, o argumento incorre numa petição de princípio.

Porém, talvez o argumento não esteja condenado. Talvez o ponto de partida não seja tanto a questão em causa estar ou não em aberto, mas parecer ou não estar em aberto para os falantes comuns da nossa língua -- ou para os utilizadores comuns dos conceitos morais, seja qual for a sua língua. Deste modo, estamos a apelar a uma hipótese plausível sobre as intuições linguísticas dos falantes comuns de modo a justificar uma tese acerca do significado das palavras. E isto parece ser legítimo. Os falantes comuns podem entender a possibilidade de uma coisa conduzir à felicidade sem ser boa, mas não podem entender a possibilidade de um homem não-casado não ser solteiro. Isto constitui pelo menos um indício importante de que «bom» não significa «conduz à felicidade geral». Se entendermos a premissa básica de Moore desta maneira, o argumento pode fugir à objecção de constituir uma petição de princípio. [Veja-se Ball, 1988.]

O alcance do Argumento da Questão em Aberto

O que poderá mostrar o Argumento da Questão em Aberto? Aqui torna-se importante salientar que não existem só naturalistas definicionais, isto é, naturalistas que pensam que, por definição, o facto de X ser bom é o mesmo facto que X tem uma certa propriedade natural P. Nem todos os naturalistas acreditam nisto. Comparemos estas três afirmações:

NFD: «X é bom» =df «X conduz à felicidade geral»

NFP: A propriedade de ser bom e a propriedade de conduzir à felicidade geral são uma e a mesma propriedade.

NFC: Uma coisa é boa se, e somente se, conduz à felicidade geral.

Em termos mais gerais, podemos comparar estes três tipos de afirmações:

ND: «X é bom» =df «X tem a propriedade natural P»

NP: O bem e P são uma e a mesma propriedade.

NC: Uma coisa é boa se, e somente se, tem a propriedade P.

É importante ver que estes três tipos de afirmações são diferentes. NP diz que o bem e P são a mesma propriedade. ND diz mais do que isto: diz que são a mesma propriedade e que isso é uma questão de definição. Como por vezes se diz, é analiticamente verdadeiro que são a mesma propriedade. Por outro lado, NC diz menos do que NP. NC não diz que as duas propriedades são uma e a mesma: diz apenas que elas estão fiavelmente correlacionadas. Tudo aquilo que tem uma das propriedades também tem a outra. Obviamente, isto é consistente com a possibilidade de as duas propriedades serem uma e a mesma, mas há muitas propriedades bem distintas que estão fiavelmente correlacionadas. Eis um exemplo muito usado:

C: Uma coisa é uma criatura viva com coração se, e somente se, é uma criatura viva com rins.

Ora, é um facto biológico que esta afirmação é verdadeira. Todos os animais com coração, e apenas eles, têm rins. Porém, a propriedade de ter coração é diferente da propriedade de ter rins. A questão «As vacas têm rins, mas será que têm coração?» é uma questão em aberto no nosso sentido. A resposta é sim, mas isto é diferente de dizer que a resposta é sim por definição. A questão é perfeitamente inteligível. Colocá-la seriamente pode revelar uma certa ignorância em biologia, mas não revela uma incompreensão dos conceitos em causa. Ter coração e ter rins são propriedades completamente distintas.

O Argumento da Questão em Aberto não visa mostrar que os factos morais e os factos naturais não estão correlacionados desta maneira. Por isso, não visa refutar NC e, portanto, não mostra que NFC tem de ser falsa. Consequentemente, não atinge o utilitarismo entendido como uma teoria normativa que nos diz simplesmente que uma coisa é boa se, e somente se, conduz à felicidade geral. O argumento de Moore visa atingir uma tese conceptual: a posição metaética conhecida por «naturalismo». Mesmo que concordemos com Moore, podemos defender a tese normativa segundo a qual tudo aquilo que maximiza a felicidade é bom. Nesse caso, para usar uma linguagem kantiana, essa tese será sintética, e não analítica. Se o argumento de Moore for sólido, não será uma tese sobre a definição de «bom» -- será uma tese normativa que nos diz que coisas são boas. Existem aqui duas questões: uma questão metaética («O que significa “bom”?») e uma questão normativa («Que coisas são boas?»). Estas são tão distintas como as questões «O que significa “ruivo”?» e «Que pessoas são ruivas?».

O Argumento da Questão em Aberto não visa mostrar a falsidade de NC -- visa mostrar a falsidade de ND. Então e NP, a afirmação de que o bem e P são a mesma propriedade? Surge aqui uma questão subtil, pois NP representa uma terceira possibilidade à qual Moore não foi suficientemente sensível. Muitos naturalistas contemporâneos pensam que o Argumento da Questão em Aberto não mostra a falsidade de NP e que, por isso, não precisam de se preocupar muito com ele -- é que muitos naturalistas contemporâneos não são naturalistas definicionais. Pensam que o bem é idêntico a uma certa propriedade natural, podem mesmo pensar que essa afirmação de identidade capta um aspecto do significado de «bom», mas não pensam que tudo isto seja uma questão de definição.

Como podemos separar estas duas coisas? Quando estudaram filosofia da linguagem e metafísica, encontraram provavelmente exemplos como estes:

  • A propriedade de ser água e a propriedade de ser H2O são uma e a mesma propriedade.

  • A temperatura e a energia cinética molecular média são uma e a mesma propriedade.

Estes são exemplos bastante claros de identidades de propriedades. Contudo, estas identidades não são analíticas: ninguém as descobriu consultando intuições linguísticas de falantes; descobrimo-las fazendo ciência. A água não é mais do que H2O. Ao falarmos de água e ao falarmos de H2O, estamos a falar precisamente da mesma coisa. Este é um caso de estrita identidade de propriedades. Estas propriedades não estão meramente correlacionadas como os animais com coração e os animais com rins: são exactamente a mesma propriedade.

Ora, ao atacar o naturalismo Moore tinha em mente ND, o tipo de naturalismo que afirma que o bem e P são um pouco como os solteiros e os homens não-casados. Uma resposta naturalista ao Argumento da Questão em Aberto é a seguinte [Veja-se, por exemplo, Harman, 1977, Cap. 2]: o argumento refuta ND, mas isso não é em si mesmo muito interessante. A refutação de ND não implica que as propriedades morais não são idênticas a propriedades de naturais -- implica apenas que, se o forem, não o são por definição. Seria mais interessante que a versão ambiciosa do Argumento da Questão em Aberto (que refutaria também NP) funcionasse. Mas não funciona. Tal como o facto de podermos (e podemos seguramente) perceber a possibilidade de a água não ser H2O não mostra que a água não é H2O, também o facto de percebermos a possibilidade de aquilo que conduz à felicidade não ser bom não mostra que temos aqui duas propriedades distintas.

Não descobrimos que a água é H2O ou que a temperatura é energia cinética molecular média pensando no significado das palavras e consultando as nossas intuições linguísticas. Descobrimos estas coisas fazendo ciência. Mas como podemos descobrir que o bem é P? Fazendo teoria ética normativa, respondem os naturalistas. Suponhamos que continuamos a desenvolver este género de teoria durante mais duzentos anos e que os utilitaristas acabam por ganhar. Toda a gente acredita em NFC: as coisas boas são apenas aquelas que conduzem à felicidade. Esta situação não seria diferente do caso da água: depois de termos desenvolvido estudos científicos durante um certo período de tempo, descobrimos que a água é H2O.

Quando descobrimos que a água é H2O, encontrámos uma identidade de propriedades. Começámos a pensar que, mesmo antes de termos descoberto que a água era H2O, estávamos a falar de H2O sempre que falávamos de água. Porquê? Porque a substância de que falávamos -- a substância que enche os rios, o mar, as garrafas e as banheiras e que dirigia e regulava o nosso uso do conceito de água -- era precisamente H2O. Se os utilitaristas acabassem por triunfar, poderíamos dizer a mesma coisa sobre o bem: afinal, a propriedade natural dirigia e regulava o nosso uso do conceito de bem era apenas a propriedade de conduzir à felicidade. Poderíamos identificar essas propriedades do mesmo modo que identificámos água e H2O.

Os críticos do naturalismo rejeitam esta ideia. O problema, dizem, é que o conceito de bem é muito diferente do conceito de água. O primeiro, por oposição ao segundo, é um conceito normativo e, por isso, não podemos mostrar alguma vez que indica a mesma propriedade que um certo conceito naturalista. Talvez haja uma espécie de Argumento da Questão em Aberto que mostre isto e que, consequentemente, refute tanto ND como NP. 

A Terra Gémea Moral

Dois filósofos americanos, Terence Horgan e Mark Timmons [veja-se o seu artigo de 1992], encontraram uma maneira de desenvolver a ideia do Argumento da Questão em Aberto. Adaptando alguns detalhes, vou dar-lhes uma ideia do que eles dizem.

Talvez já tenham ouvido a história que vou contar. Aqui, na Terra, o nosso uso do conceito de água é dirigido e regulado pela propriedade de ser H2O. Podemos então dizer que ser água e ser H2O é precisamente a mesma coisa. Porém, num planeta distante chamado Terra Gémea as coisas são diferentes. Na Terra Gémea existe um líquido que enche os mares e os rios, que é essencial para a vida e que tem a mesma aparência do que a água. Na verdade, os habitantes desse planeta chamam «água» a esse líquido. Mas o líquido não é H2O. É uma outra substância que podemos designar por XYZ. Se Hilary Putnam [1975] tem razão, as nossas intuições dizem-nos que a nossa palavra «água» não significa o mesmo que a sua palavra «água», pois na Terra o conceito de água indica a propriedade de ser H2O, o que não acontece na Terra Gémea.

(É importante esclarecer uma coisa neste momento. De acordo com esta perspectiva putnamiana amplamente aceite, o facto de a água ser H2O é um facto central acerca do significado de «água». Este facto não é uma verdade por definição: não é uma verdade que pudéssemos ter descoberto pensando no modo como as nossas palavras são definidas. Depois de termos descoberto, graças à ciência, que a água é H2O, descobrimos também algo sobre o significado de «água», já que «água» na Terra Gémea não significa o mesmo que «água» na Terra. Dado que corresponde a uma substância diferente, o nosso conceito de água não é o mesmo conceito que o conceito de água dos habitantes da Terra Gémea. Assim, no caso análogo de NP, seria extremamente enganador dizer que NP, por oposição a ND, não é uma tese acerca do significado de «bom». Tanto NP como ND são teses acerca do significado de «bom», ainda que sejam tipos diferentes de teses acerca do significado. Para os naturalistas estilo-ND, ser bom e ter P são propriedades idênticas por definição, o que tem a seguinte consequência: «X é bom» implica «X tem P». Os naturalistas estilo-NP, pelo contrário, pensam que isto não é verdade, tal como não é verdade que «X é água» implica «X é H2O». No entanto, pensam que uma verdade importante acerca do conceito de bem é o facto de a propriedade que esse conceito indica ser a propriedade P. Quando usamos a palavra «bom», é da propriedade P que estamos a falar, e quem usasse a mesma palavra para indicar uma propriedade diferente estaria a usar um conceito diferente com um significado diferente.)

Regressemos à história em que o utilitarismo triunfa. As pessoas acabam por aceitar que o nosso uso de «bom» é dirigido e regulado pela propriedade de conduzir à felicidade geral. E aceitam também que isto foi sempre assim, só que, como no caso da identidade entre água e H2O, passámos muito tempo sem conhecer este facto. É isto que se passa na Terra. Porém, num planeta muito distante, a Terra Gémea Moral, o utilitarismo não triunfa. Na versão de Horgan e Timmons, a teoria que triunfa é a deontologia kantiana, mas optemos por algo mais simples. Suponhamos que na Terra Gémea Moral a propriedade que dirige e regula o uso que os seus habitantes fazem de «bom» é a propriedade de conduzir à maior glória do Imperador Supremo. E todos aceitam isto. Tal como o utilitarismo triunfa na Terra, o grande-gloria-do-imperador-supremismo triunfa na Terra Gémea Moral.

No caso da água e da Terra Gémea, as nossas intuições dizem-nos que na Terra «água» não significa o mesmo que na Terra Gémea. O facto de as duas substâncias diferentes (H2O e XYZ) serem designadas pelo mesmo termo não passa de uma coincidência linguística. A questão que Horgan e Timmons colocam é a seguinte: poderemos dizer o mesmo a respeito de «bom» na Terra e na Terra Gémea Moral? Poderemos dizer que, como «bom» denota uma certa propriedade na Terra (conduzir à felicidade) e uma outra propriedade na Terra Gémea Moral (conduzir à glória do Imperador), os habitantes da Terra Gémea Moral têm um conceito de bem diferente do nosso?

Não, dizem Horgan e Timmons, não podemos dizer isso, pois existe uma diferença entre os dois casos. No caso da água, não há qualquer desacordo entre nós e os habitantes das Terra Gémea Moral. Nós sabemos -- e eles também sabem -- que a substância a que chamamos «água» é H2O e que a substância a que eles chamam «água» é XYZ. Isto pode ser um pouco confuso, mas não coloca qualquer problema. Quando eles dizem que a água é XYZ, nós não pensamos que estão enganados. Pensamos apenas que estão a falar de outra coisa.

No entanto, o caso do bem é diferente. Não estamos dispostos dizer apenas que os habitantes da Terra Gémea Moral usam «bom» para designar certas coisas e que nós usamos «bom» para designar outras coisas. Estamos dispostos a discordar deles a respeito daquilo que é bom. Se eles pensam que uma coisa é boa se, e apenas se, conduz à maior glória do Imperador, estamos dispostos a dizer que estão enganados. Por exemplo, esmagar os inimigos do Imperador numa batalha terrível pode não ser, aos nossos olhos, uma coisa boa. Podemos querer dizer-lhes que aquilo que conduz à glória do Imperador pode não ser bom. E eles podem querer dizer-nos que aquilo que conduz à felicidade geral pode não ser bom.

No entanto, se entendermos este caso à luz do naturalismo estilo-NP, considerando-o análogo ao caso da água, não poderemos obter este desacordo. De acordo com o naturalismo estilo-NP, se dissermos aos habitantes da Terra Gémea Moral «Aquilo que conduz à glória do Imperador nem sempre é bom», e eles responderem «É bom, sim senhor», não estamos a falar da mesma coisa. Para podermos discordar genuinamente, temos de querer dizer o mesmo com a palavra «bom» e este tipo de naturalismo parece não permitir isso. Assim, se entendermos o bem como uma propriedade natural, então, seja qual for a propriedade natural que dirige e regula o nosso uso do conceito, acabaremos por não conseguir detectar desacordos genuínos.

O Paradoxo da Análise

Pode ser útil enquadrar estas ideias numa objecção final ao Argumento da Questão em Aberto. [Ver Smith 1994, Secção 2.7.] Segundo Moore, não podemos identificar o bem com uma propriedade natural P porque, mesmo quando sabemos que uma certa coisa tem a propriedade P, podemos sempre colocar razoavelmente a questão «Sim, mas essa coisa é boa?». Porém, se este raciocínio for bom, então nunca conseguiremos identificar uma coisa com outra, e esta seria uma conclusão muito drástica, pois tornaria impossível qualquer análise conceptual não-trivial -- e esse género de análise é uma actividade central da filosofia.

Consideremos dois exemplos de análise conceptual. (1) A definição analítica de conhecimento, apresentada por filósofos como Ayer e Chisholm, segundo a qual o conhecimento é crença verdadeira justificada. (2) A análise dos behaviouristas lógicos, como Ryle, que nos diz que o conceito de um estado mental é o conceito de um certo tipo complexo de disposição comportamental. Podemos contrapor a estas análises algo de semelhante ao Argumento da Questão em Aberto. Relativamente a um caso de crença verdadeira justificada, podemos sempre perguntar com todo o sentido: «Sim, mas será esse um caso de conhecimento?». Relativamente a uma disposição comportamental complexa do tipo apropriado, podemos sempre perguntar com todo o sentido: «Sim, mas será isso um estado mental?». E poderíamos fazer o mesmo a qualquer outra tentativa de análise conceptual.

Quando generalizamos o problema desta maneira, obtemos o chamado Paradoxo da Análise. Este paradoxo assume a forma de um dilema aplicável a qualquer análise conceptual: ou a análise em questão é tão trivial e óbvia que não faz realmente sentido perguntar se é correcta e, assim, as questões em aberto à maneira de Moore nem se colocam, ou essas questões colocam-se efectivamente, caso em que, se pensarmos que uma questão em aberto falsifica a análise, a análise será falsa. Assim, o projecto da análise conceptual só pode produzir resultados entediantes e triviais.

Deste modo, o Argumento da Questão em Aberto conduz-nos ao Paradoxo da Análise, que visa mostrar que nenhuma análise conceptual pode ser simultaneamente não-trivial e correcta. Porém, como esta conclusão não é plausível, tem de haver algo de errado no raciocínio que nos leva ao Paradoxo da Análise e, consequentemente, tem de haver algo de errado no Argumento da Questão em Aberto.

O que há de errado no Paradoxo da Análise? É seguramente verdade que a análise conceptual pode conduzir-nos a perspectivas surpreendentes e não-triviais. Isso aconteceu, por exemplo, quando os filósofos tentaram reduzir todas as afirmações sobre objectos materiais a afirmações sobre dados sensoriais ou, como Ryle, entender todas as afirmações sobre estados mentais em termos de afirmações sobre disposições comportamentais. As análises deste género visam indicar-nos o significado dos conceitos analisados. O Paradoxo da Análise leva-nos a dizer que nenhuma delas pode ser correcta pura e simplesmente porque nenhuma delas é obviamente correcta. Podemos sempre colocar questões análogas às questões em aberto que Moore julgava serem fatais para o naturalismo ético.

Porém, devemos interpretar cuidadosamente a afirmação de que essas análises visam indicar-nos o significado dos conceitos em questão. Muitas vezes é menos enganador dizer que visam indicar-nos aquilo que os conceitos deveriam significar de modo a quererem dizer algo de claro e coerente. Tanto a redução das afirmações sobre objectos materiais a afirmações sobre dados sensoriais como a redução das afirmações sobre estados mentais a afirmações comportamentais foram propostas por filósofos que tinham uma forte inclinação empirista -- filósofos que pensavam que falar de objectos materiais ou de estados mentais era filosoficamente problemático ou mesmo suspeito. Por isso, tentaram analisá-los em termos de conceitos que eles consideravam menos problemáticos. Podemos colocar duas questões a respeito de uma análise deste género: (1) Será que ela evita realmente os problemas associados aos conceitos originais? (2) Será que ela faz justiça às coisas que queremos dizer quando usamos os conceitos originais?

Esta segunda questão não é igual ao problema de saber se os novos conceitos significam o mesmo que os originais. Muitas vezes, o que importa saber é o seguinte: será que podemos dispensar os conceitos originais sem que, usando os novos conceitos, percamos a capacidade de dizer certas coisas sensatas e inteligíveis? Geralmente, a resposta à segunda questão é negativa. Os conceitos que usamos na análise não costumam fazer justiça aos conceitos que queremos analisar. No entanto, para deixar isso claro é preciso sempre trabalhar um pouco. Não podemos limitar-nos a apelar ao Paradoxo da Análise, rejeitando qualquer análise que não seja completamente trivial.

Imaginem que, fazendo análise conceptual, alguém sugere que podemos identificar o conceito A com o conceito B. Assim, as afirmações sobre A’s podem ser reduzidas ou consideradas equivalentes a afirmações sobre B’s. A ideia é a de que tudo o que podemos dizer usando o conceito A pode ser dito com o conceito B. Mas isto constitui um avanço porque há problemas filosóficos com o conceito A que não se colocam com o conceito B. Aqui a questão em aberto consiste em perguntar a respeito de algo que sabemos ser B: «Sim, mas é A?». E a versão mais geral do Argumento da Questão em Aberto seria bem sucedida se análise tivesse de ser errada pelo facto de podermos colocar inteligivelmente esta questão. Aquilo que há de errado neste argumento é o facto de ele ser demasiado simples e precipitado.

Para obtermos uma objecção que não fosse demasiado simples e precipitada, teríamos de indicar aquilo que a análise deixa de fora. Teríamos de mostrar que o conceito B não faz justiça ao conceito A porque há coisas que conseguimos transmitir através do conceito A que não conseguimos transmitir com o conceito B. A objecção demasiado simples e precipitada diz-nos que, como a análise não é óbvia e desinteressante, deve ter deixado algo de fora. A objecção mais difícil e respeitável indica efectivamente aquilo que foi deixado de fora, apontando a razão pela qual não podemos usar o conceito B para fazer justiça às coisas que queremos dizer com o conceito A.

Deste modo, parece que o Argumento da Questão em Aberto é uma tentativa simples e precipitada de refutar o naturalismo ético. Ainda assim, muitos filósofos pensam que Moore viu algo de importante. Pensam que ele percebeu que a análise de «bom» em termos de uma propriedade natural deixa de fora um aspecto essencial e que é precisamente por isso que o seu argumento começa por parecer plausível.

Moore não nos disse o que essa análise deixa de fora, mas outros procuraram encontrar uma resposta para esta questão. De acordo com a resposta mais influente, qualquer análise naturalista da linguagem ética ignora o facto de esta servir para orientar a acção. R. M. Hare sustentou que qualquer análise desse género tem de ignorar o facto de a linguagem ética ser usada para recomendar. Dizer que uma coisa é boa é recomendá-la. É isso que «bom» significa e é para isso que usamos o conceito. Obviamente, podemos recomendar uma coisa por ela conduzir à felicidade geral, mas também podemos não o fazer. Não faz parte do significado de conduzir à felicidade geral recomendar aquilo que é descrito desta maneira. [Hare, 1952]

Isto está de acordo com a experiência mental da Terra Gémea Moral de Horgan e Timmons. O naturalista quer identificar o bem com uma propriedade natural que dirige e regula o modo como procedemos no mundo. Mas, poderíamos argumentar à maneira Horgan e Timmons, fazer isto é ignorar um aspecto essencial do nosso uso da palavra: o conceito de bem serve essencialmente para orientar a acção e usamos a palavra para recomendar certas coisas. E é por esta razão que temos um desacordo genuíno com os habitantes da Terra Gémea Moral: as coisas que queremos recomendar são diferentes das coisas que eles querem recomendar. Se aceitam este diagnóstico, então provavelmente são expressivistas -- e é do expressivismo que agora vou falar.

Referências

Stephen Darwall, Allan Gibbard e Peter Railton: Moral Discourse and Practice (Nova Iorque: Oxford University Press, 1997).

e

Stephen W. Ball: "Reductionism in Ethics and Science: A Contemporary Look at G. E. Moore's Open Question Argument" in American Philosophical Quarterly 25, 1988.

William K. Frankena "The Naturalistic Fallacy" in Mind 48, 1939

R. M. Hare: The Language of Morals (Oxford: Clarendon Press, 1952)

Gilbert Harman: The Nature of Morality (Oxford: Clarendon Press, 1977)

Terence Horgan e Mark Timmons: "Troubles on Moral Twin-Earth: Moral Queerness Revived" in Synthese 92, 1992.

Hillary Putnam: "The Meaning of Meaning" in Mind, Language and Reality (Cambridge: C.U.P., 1975).

Michael Smith: The Moral Problem (Oxford: Blackwell, 1994).


© James Lenman, 2002. Tradução: © Pedro Galvão, 2004. Todos os direitos reservados.

Publicado com autorização do autor.