 Professor
de Filosofia na University of Kansas, Don Marquis tornou-se um dos
protagonistas do debate do aborto com «Why Abortion is Immoral»
(1989). Neste ensaio, e também em «An Argument that Abortion is
Wrong» (1997), Marquis desenvolveu um argumento contra o aborto que
não enferma das fraquezas da posição pró-vida de inspiração
religiosa: o seu argumento não se baseia em qualquer doutrina da
santidade da vida humana e não envolve um apelo manifestamente
falacioso à potencialidade do feto. Segundo Marquis, o mal do
aborto consiste essencialmente na privação de um futuro com valor
que é infligida aos fetos. A maior parte dos fetos humanos tem já
um «futuro como o nosso» -- um FCON. Matar esses fetos é um mal
pela mesma razão que matar um de nós é um mal. |
O
Mal do Aborto: Uma entrevista a Don Marquis
Pedro
Galvão
De
acordo com o argumento pró-vida habitual, o aborto é moralmente errado
porque o feto é já um ser humano. Mesmo que os fetos humanos não sejam
propriamente «pessoas», não podemos negar que são pessoas potenciais
-- e, por isso, devemos tratá-los com o mesmo respeito moral que
concedemos a nós próprios. Como difere o seu argumento desta
perspectiva?
Hoje
penso que todos os fetos são seres humanos. Mas não penso que a afirmação
«É sempre errado matar intencionalmente um ser humano» seja defensável.
Por isso, julgo que a perspectiva pró-vida habitual não é defensável.
Penso que não existe uma defesa persuasiva da perspectiva segundo a
qual é errado matar intencionalmente um ser humano que está
permanentemente inconsciente ou que estará em sofrimento intenso até
morrer. Repare que em nenhum destes casos temos um ser humano que possui
um futuro com valor.
Além
disso, não penso que exista algo de errado em matar um indivíduo porque
esse indivíduo é uma pessoa potencial. Segundo a minha perspectiva, uma
condição suficiente para ser errado matar fetos é exactamente igual a
uma condição suficiente para ser errado matarem-no a si ou matarem-me a
mim. Ambos temos futuros com valor. Não é errado matarem-no a si por ser
uma pessoa potencial, pois você não é uma pessoa potencial. Segue-se
que não é errado matar um feto por este ser uma pessoa potencial. No
entanto, a minha perspectiva é manifestamente uma forma de perspectiva da
potencialidade. Simplesmente não é uma perspectiva que apele à noção
de pessoa potencial.
Já
presenciei a seguinte reacção ao argumento FCON (Futuro Como o Nosso): a
maior parte das mulheres abortam porque não possuem recursos adequados
para criar filhos. Os fetos abortados teriam uma fraca qualidade de vida.
Por isso, num certo sentido não teriam um «futuro como o nosso» caso
pudessem ter-se desenvolvido. Logo, o seu argumento não mostra que o
aborto por razões económicas é moralmente errado. O que pensa desta
reacção ao seu argumento?
Julgo
que prevermos que um indivíduo terá uma fraca qualidade de vida não é
uma razão suficiente para o matarmos. Se fosse, então seria moralmente
permissível matar muitos seres humanos que já nasceram. No entanto, isso
é manifestamente errado. Ergo, .... Além disso, segundo a minha
perspectiva, é óbvio que o nascimento é moralmente irrelevante.
Algumas
pessoas pensam que a fertilização in
vitro é moralmente objectável porque conduz à criação de embriões
humanos que serão destruídos. E geralmente também acreditam que o uso
de embriões humanos para fins médicos é profundamente errado. Concorda
com estas posições? O seu argumento contra o aborto não nos compromete
com uma condenação geral da morte de embriões humanos nesses contextos?
Não
sei o que dizer sobre os embriões. Estou comprometido com a perspectiva
de que pôr fim a uma vida humana após a implantação é moralmente
errado. E antes da implantação? Há questões ligadas à formação de gémeos
e ao facto de grande parte do embrião se transformar em placenta que me
deixam com dúvidas. Essas questões são muito difíceis. Em parte
dizem respeito àquilo que constitui um estádio anterior e um estádio
posterior do mesmo indivíduo.
A
minha maior dúvida sobre o seu argumento futurista relaciona-se com a
identidade pessoal: parece supor que o feto (e mesmo o embrião) que
estava dentro da minha mãe há trinta anos atrás já era eu -- não era
apenas o organismo físico que acabou por me dar origem. Esta suposição
não é muito controversa?
Essa
dúvida é expressa frequentemente. Não a entendo. Considere o feto pré-senciente
que foi o seu percursor. Ele será a mesma pessoa que você? É claro que
não, pois nem sequer é uma pessoa (se entendermos «pessoa» em termos
de características psicológicas). Será o mesmo indivíduo que você? É
óbvio que sim, pois é um estádio anterior do organismo biológico que
você é agora. Ele tinha um futuro com valor? Também é óbvio que sim,
pois tudo aquilo que é preciso para possuir um futuro com valor é ser um
indivíduo que, num estádio posterior, tem uma vida que valoriza nessa
altura.
Há
uma maneira de evitar esta conclusão. Você poderia sustentar que não é
um organismo humano, que é essencialmente uma mente e que não começou a
existir antes de ser senciente. Isto compromete-o com o dualismo. (McMahan
mostrou isto.) E eu presumo no meu ensaio original, e continuo a presumir,
que o dualismo não é uma opção filosófica viva. Colocando a questão
em termos filosóficos gerais: sou um aristotélico, não um platonista.
Portugal
tem uma legislação bastante conservadora sobre o aborto. O aborto é
permitido somente se a gravidez coloca seriamente em risco a vida ou a saúde
da mulher, se o feto vier a ser incuravelmente doente ou tiver malformações
consideráveis (neste caso, pode-se abortar até às 24 semanas) ou se a
gravidez resultou de violação (nesta terceira situação, permite-se o
aborto apenas até às 16 semanas). Pensa que temos uma legislação
equilibrada? Muitas pessoas estão a tentar legalizar o aborto durante o
primeiro trimestre da gravidez.
A
sua pergunta levanta muitas questões e exigiria uma longa discussão. Não
uso o termo «conservadora» para descrever a minha perspectiva. Penso que
a minha perspectiva atende apropriadamente aos direitos de todos.
Parece-me que, se fosse menos «conservadora», a legislação portuguesa
não atenderia apropriadamente aos direitos de todos. Há questões muito
interessantes sobre o estatuto moral do aborto após violação e sobre quão
grave tem de ser uma malformação para justificar um aborto. (Temos de
pensar nos adultos deficientes a este respeito.)
E
os direitos que as mulheres têm sobre o seu próprio corpo? A sua
perspectiva não ignora indevidamente esses direitos?
Não
ignoro de forma alguma os direitos das mulheres. O argumento FCON sustenta
apenas que o aborto é «à partida profundamente errado». Em rigor,
tomado isoladamente não é um argumento que mostre que, consideradas
todas as coisas, o aborto é imoral. Para obtermos essa conclusão temos
de introduzir os pressupostos que eu apresento na introdução do meu
ensaio de 1989.
Deveremos
introduzir esses pressupostos? Essa é uma longa história e existe muita
literatura sobre o assunto. A resposta curta é esta: se o argumento FCON
é correcto, então os fetos são seres humanos com o direito à vida.
Obviamente, esse direito pode ceder devido a outras considerações, mas
essas considerações têm de ser muito fortes. Penso que podemos mostrar
que os fetos devem ser vistos como filhos muito pequenos e as mulheres grávidas
como mães. Os pais têm deveres importantes para com os seus filhos que
estão acima dos direitos que tinham antes de se tornarem pais. Ambos os
meus filhos têm agora os seus próprios filhos: as suas vidas mudaram
muito, e isso aconteceu porque eles acreditam que têm fortes obrigações
para com os meus netos. Isto é inteiramente apropriado.
Seja
como for, por que não haveremos de permitir o aborto e deixar que as
mulheres decidam por si próprias qual é a coisa acertada a fazer?
Algumas pessoas, embora acreditem que o aborto é errado, pensam que a lei
não deve impor as suas opiniões morais aos outros.
Ou
o argumento FCON é correcto ou não é correcto. Se não é correcto, então
a lei não deve interferir na liberdade das mulheres (nem na dos homens, já
que a legislação anti-aborto tem consequências importantes para eles).
Se é correcto, então as leis que permitem o aborto têm a mesma
legitimidade do que as leis que permitem o assassínio de judeus. Ou seja,
nenhuma.
Ensaios
de Don Marquis sobre o argumento FCON:
1989
- «Why Abortion is Immoral» in Pojman e Beckwith (orgs.), The
Abortion Controversy, 2.ª ed., Wadsworth, 1998.
1997
- «An Argument that Abortion is Wrong» in LaFollette (org.), Ethics
in Practice, 2.ª ed., Blackwell, 2002.
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Pedro Galvão, 2004. Todos os direitos reservados.
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