N.º 4 — 2004

Do Corpo e das Crenças à Acção: O Mundo Autista

Susana Caló

Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação – Universidade do Porto

 

Resumo

Este artigo tem por tema o autismo e a análise de teorias avançadas na ciência cognitiva, nomeadamente na psicologia. O caso do autismo mostra com clareza a importância de uma teoria da mente para compreender o comportamento do outro (e também o próprio). Aqui interessa-me particularmente a forma como o corpo de crenças dos indivíduos (e o modo como esse corpo de crenças é gerido) influi na motivação para os diversos modos de agir. O entendimento de que existem diferentes modos de cognição, diferentes formas de gerir o corpo das crenças, ajuda a situar as acções do outro. Ora, as crenças são do domínio do cognitivo, embora o seu substrato seja da ordem do biológico – esse facto é aqui salvaguardado com alguma relevância. Direi então que as crenças têm correlatos ao nível do biológico, aqui entendido como corpo, mas não são redutíveis a um discurso descritivo, nem passíveis de observação directa. As crenças resultam de uma combinação complexa e dinâmica de fenómenos em constante actualização, que a linguagem da biologia por si só não consegue abarcar. É nomeadamente no acesso ao lugar das crenças do outro que recai a nossa compreensão dele e na possibilidade de partilha destas crenças que reside a faculdade de cognição social. O estudo do autismo, que envolve uma alteração de tais funcionamentos cognitivos básicos, constitui uma importante chave para a compreensão dessa faculdade. Dentro do espaço da cognição apresentam-se por isso duas teorias complementares do autismo: a teoria da mente e a teoria da fraca coerência central.

 


Do Corpo

Quando se fala em corpo entende-se normalmente aquilo que pertence à ordem dos sentidos: tocar uma superfície macia, ouvir uma sonata ou saborear um néctar são tudo coisas que se fazem por meio de um corpo. Contudo, todas estas sensações só ganham sentido quando chegadas ao cérebro, onde são reconhecidas e integradas. Quando nos reportamos aos mesmos eventos, por exemplo, ao toque de uma superfície macia, e queremos usar uma terminologia estritamente física dizemos que há padrões de energia que atingem a superfície da pele e que essa informação excitatória é transmitida por impulsos eléctricos ao cortéx cerebral onde a informação é processada e integrada.

Estamos a falar em dois níveis diferentes do processamento da informação: um nível primário, relativo aos receptores de informação sensorial e um nível superior, associado às instâncias cerebrais superiores responsáveis pela integração e organização da informação recebida. Tome-se o corpo nesta dupla acepção, o que quer dizer que o binómio clássico do problema filosófico mente-corpo comporta o binómio mente-cérebro – o cérebro é corpo. Só a ideia de que as sensações trazidas pelo corpo são conduzidas dos centros periféricos até aos centros cerebrais superiores da percepção na sua forma intacta, ou pura permitiria a separação entre mente e corpo. Mas falamos aqui de processos que não acontecem de forma isolada. Também a um nível fisiológico se verifica que a quantidade e qualidade de informação processada está ela própria sujeita a coordenadas dos centros superiores de controlo. Por exemplo, no sentido específico do tacto a literatura neuropsicológica reporta que regiões corticais superiores envolvidas na percepção táctil também influenciam a percepção num sentido descendente que modula a experiência do objecto. Podemos imaginar que existe uma medida potencial de estímulos sensoriais que estão aí, e dos quais não recebemos e processamos todos, ou recebemos e processamos de forma diferente de acordo com a nosso ‘predisposição’ cognitiva. Esta ideia será retomada mais à frente quando falarmos em conexões feedforward e feedback.

A separação entre sensação e percepção parece só ser possível num plano teórico, pois a sensação não é um acto isolado do próprio acto mental que implica o acto de perceber. E perceber é projectar significados nas coisas no momento simultâneo em que elas se nos apresentam. A percepção de um objecto pressupõe uma ideia desse mesmo objecto e a convicção da sua existência.

Das Crenças

Entra aqui a noção de crença proposta pela filosofia. Para a filosofia, as crenças são estados mentais com conteúdo, ou intencionais, que estão dirigidos para fora da mente (Miguens, 2003). Segundo a ideia anterior da convicção da existência do objecto percebido (eu acredito naquilo em que acredito), as crenças comportam também uma pretensão de verdade em relação ao seu conteúdo.

As crenças são matéria da cognição: não se observam via directa, mas podem ser inferidas indirectamente através da observação das acções.

Ao situar as crenças no domínio do cognitivo, novamente não se quer com isto dizer que são do domínio do cerebral. Segundo o modelo de descrição das perturbações do desenvolvimento de Morton e Frith (1995) o cognitivo são as teorias que preenchem o hiato entre os outros dois níveis de análise: o biológico e o comportamental. É no cognitivo que reside a interpretação das acções. Por outro lado, afirmar que o cognitivo não é da ordem do biológico não é de todo pressupor que as crenças e a cognição não têm correlatos biológicos ou físicos. Quer-se antes dizer que as crenças são produto complexo de um conjunto alargado de processos que podem ser individualmente descritos, mas cuja totalidade complexa não pode ser fisicamente observada, nem derivada.

Traduzir fisicamente os fenómenos psicológicos resulta numa perda deles. Como diz Morton, “There will be neither causal adequacy nor descriptive adequacy at the biological level. With behaviour and no cognition one cannot get a proper story. With biology alone there will be no story at all”.

Das Crenças à Acção

As crenças constroem-se ao longo do desenvolvimento cognitivo a partir da interacção do sujeito com o mundo. Robert Audi (2003) enumera quatro fontes básicas das crenças: percepção, razão, memória, e auto-consciência, assim como duas outras fontes indirectas, a indução e o testemunho.

Vejamos então que quando toco a superfície de um livro posso sentir que essa superfície é áspera. Nesse caso a crença tem origem pela percepção do tacto. O mesmo seria dizer que o livro é vermelho porque vejo que o é. Mas mesmo sem tocar no livro sou capaz de afirmar que este tem um peso. Não posso especificá-lo mas é-me garantido pelo domínio dos conceitos em questão (livro e peso) que qualquer objecto tem um peso e portanto deduzo que o livro, por necessidade, também o terá. Neste caso estou a fundar a minha crença na razão, que é o mesmo que dizer conceitos abstractos a priori. No caso da memória é fácil verificar como surge a crença. Se, por exemplo, ontem deixei o livro que li pela noite dentro em cima da mesa, hoje, recordar-me-ei e acreditarei que o livro, efectivamente, se encontra em cima da mesa. A fragilidade desta crença dá-se com a passagem do tempo, pois as recordações tornam-se progressivamente menos nítidas, o que em consequência origina um decréscimo no grau de certeza. Também devido à acção de factores externos imprevistos – se alguém mudar o livro de sítio – as crenças fundadas na memória são postas em causa – será que deixei realmente o livro em cima da mesa? Ora este processo transporta-nos para uma diferente fonte de crença, a introspecção. Encontro-me agora a analisar a minha própria consciência, fazendo um exercício de reviver e questionar as memórias e crenças anteriores, verificando se não estão já confundidas com outros factores (estive também a ver um filme que me poderá ter confundido). Esta análise, leva-me por exemplo à crença de que de facto o livro foi deixado em cima da mesa. O meu exercício de introspecção leva-me a assim crer, confirmando as anteriores crenças fundadas na memória, que o livro está então em cima da mesa.

 Imaginemos que, tendo agora voltado a casa, verifico que o livro não se encontra no seu lugar. Questiono então a pessoa que comigo habita, e descubro que por uma questão de arrumação, e não sabendo que não tinha ainda acabado de o ler, o colocou numa prateleira da estante. Ora por se tratar de uma pessoa em quem confio e porque compreendo os motivos apresentados, tenho todas as razões para facilmente acreditar que o livro se encontra na prateleira. O testemunho é então uma importante fonte de crenças, apesar de não ser uma fonte básica. Assim, e até ter vontade de o continuar a ler, à partida não necessitarei de verificar pois acredito no testemunho que me fizeram.

Finalmente, a partir desta acção do meu colega de apartamento, posso induzir que uma vez arrumado o livro na estante, sempre que algum livro meu não se encontrar no local onde o deixei, encontrar-se-á provavelmente arrumado em alguma prateleira da estante. A este processo em que partindo de um particular se chega a um caso geral, chama-se indução. A crença fundada na indução é formada na base de algo mais básico (percepção, memória, consciência e razão) que é posteriormente generalizado.

As crenças projectam-se sobre o mundo e dotam de compreensibilidade e legitimidade (porque comportam um valor de verdade) a minha e a acção dos outros. Compõe-se assim o mundo num todo organizado e coerente (com as minhas crenças).

Assim, se as crenças se fundam a partir da acção humana, percebamos também que em momento algum deixam de a governar. Quando toco a superfície de um livro sinto que essa superfície é áspera, mas isto já requer que eu tenha uma ideia prévia de aspereza. Para além disso se já toquei neste mesmo livro ou em livros onde, por exemplo, a textura da capa era visualmente semelhante, as minhas expectativas em relação ao que vou sentir influenciam a própria sensação.

A investigação neuropsicológica dá consistência a esta ideia de bidireccionalidade. Com bidireccionalidade quero dizer que a transmissão de informação não se faz num só único sentido, mas se faz simultaneamente num sentido ascendente (dos receptores sensoriais às instâncias cognitivas) e num sentido descendente (das instâncias cognitivas aos receptores sensoriais) sendo que o próprio momento de recepção deste mesmo estímulo é já uma fusão entre estes dois tipos de informação. Podemos usar a imagem do cordel que atravessa todo o nosso corpo ligando a base ao topo. Na base estão os receptores de informação sensorial e no topo mecanismos cognitivos de controlo que têm a função de coordenar o fluxo de informação. Estas ligações agem tanto por relações de feedforward - a informação é levada da base para o topo, ou em sentido biológico, quando o output de um grupo de neurónios estimula as redes de neurónios seguintes, - como de feedback - a informação parte do topo para a base modificando as relações no sistema biológico, ou quando um output produzido internamente modifica o input seguinte. Por exemplo, do ponto de vista somatossensorial, nem todos os estímulos causam necessariamente excitação no cortéx. Os mecanismos de controlo podem modificar a transmissão de excitação da pele no seu caminho até ao cortéx cerebral, por um processo de inibição descendente, que interage com os neurónios aos diversos níveis na escala sensorial.

Neste sentido, as crenças cumprem também a função de seleçcão dos estímulos sensoriais a processar, o que por sua vez resulta na modelação das acções humanas.

No mundo social as crenças têm a função de nos permitir compreender e inferir a acção dos outros. Na literatura psicológica a noção de crenças está associada à capacidade de atribuir estados mentais a si próprio e aos outros ou ter uma teoria da mente a que se chama no inglês mentalising (Leslie, 1987). É esta capacidade de aceder à mente dos outros que nos permite entender e situarmo-nos no mundo social. Estamos pois face a um campo de subjectividades que coincidem e desembocam num campo de intersubjectividade comum, que é da ordem da cognição social. 

Numa perspectiva desenvolvimental, as crianças adquirem inicialmente representações da realidade, e num plano posterior não só são capazes de representar a realidade como também construí-la porque desenvolvem a capacidade de inferir aquilo que as outras pessoas pensam e querem comunicar. Como diz Frith, as representações trazem o mundo à mente (2003).

Ao mundo Autista

Em que resulta uma mente em que o corpo de crenças e a sua forma de gestão são diferentes da generalidade dos casos? E em que medida esta diferença se reflecte nas acções humanas?

 

Um aspecto central do autismo é a incapacidade de atribuir crenças a si próprio e aos outros. Ser capaz de ter uma teoria da mente dos outros é um aspecto vital para a interacção humana e a sua ausência pode conduzir a dificuldades de interacção social e comunicação verbal e não-verbal que caracterizam esta doença. A capacidade de representar estados mentais foi classicamente estudada através de testes de crenças falsas. O exemplo mais clássico é a história da Sally e da Ann (Baron-Cohen, Tager-Flusberg e Cohen, 1993). Trata-se de encenar uma história com duas bonecas (Sally e Ann), um cesto, uma caixa e um berlinde e depois fazer perguntas à criança. A Sally tem um cesto e antes de sair coloca aí a sua bola. Enquanto a Sally está fora do quarto, a Ann que é muito traquinas, troca a bola e coloca-a na sua caixa. Quando a Sally chega e quer a bola, onde é que a vai procurar? A resposta correcta – a Sally vai procurar a bola no seu cesto – implica a capacidade de inferir a sua crença falsa. As crianças autistas cometem mais erros neste tipo de problemas e tendem a responder com base nas suas próprias crenças – a Sally vai procurar a bola na caixa porque é lá que ela está. Neste exemplo, a criança autista mostra não perceber que ver conduz a saber e por isso atribui as suas próprias crenças à boneca. Face a uma dificuldade extrema em colocar-se no lugar do outro e em inferir os seus comportamentos a partir das suas crenças, todo o mundo mental se assume como uma surpresa incompreensível. Também se diz por isso que pessoas autistas são mais capazes no mundo físico do que no mundo mental.

A ausência da capacidade de ter uma teoria da mente é apontada como o princípio que prefigura a acção autista, sobretudo ao nível da cognição social. Porém existem outros aspectos da doença que são melhor explicados pela teoria de fraca coerência central (Frith, 1989, 2003), tais como os comportamentos repetitivos e obsessões, particular atenção ao detalhe, boa capacidade de memorização de sequências não relacionadas e outras capacidades excepcionais em alguns domínios. Esta teoria entende estes aspectos do autismo como vantagens de um tipo de processamento da informação diferente, assim como um tipo de processamento normal também tem aspectos positivos e negativos. A ideia de um estilo cognitivo diferente que, por sua vez, se encontraria também na variação da população normal é sugerida por alguns autores como Happé (1999). Subjacente a esta ideia está a teoria de que a cognição humana está orientada para um tipo de processamento da informação em contexto, que produz significados englobantes.

Por oposição, estaria um processamento da informação orientado para o local e o pormenor, ou piece-meal processing característico do autismo. Em termos de processamento perceptivo, a diferença reside ao nível cognitivo. A realidade física do objecto é a mesma, de um ponto de vista sensorial, os receptores de informação estão calibrados de igual forma, mas a informação é organizada e integrada como se de fragmentos não relacionados se tratassem. Ora, momentos atrás tínhamos já percebido qual o papel dos mecanismos superiores de controlo no input da informação e na monitorização e actualização da acção do sujeito, de acordo com este input e informação prévia relacionada. Os estímulos podem ser processados, organizados e integrados, se a priori forem considerados relevantes e em consonância com o material da experiência anterior.

Vejamos um exemplo perceptivo num estudo de Happé (1996) que comparou o desempenho de pessoas autistas e pessoas não autistas em ilusões visuais como os círculos Titchener. Estes círculos são uma ilusão visual que consiste em duas imagens onde se vê um círculo rodeado de outros círculos. Nas duas imagens o círculo interior é do mesmo tamanho com a diferença de que os círculos que o rodeiam são maiores numa figura do que na outra. A ilusão do tamanho do círculo interior é causada pelo tamanho dos círculos exteriores. A resposta errada – o tamanho do círculo interior é diferente nas duas figuras – sugere que as pessoas tendem a ver a imagem de forma unificada, como um todo, e não pela análise descontaminada das suas partes, e por isso se deixam ludibriar pelo contexto. Em contraste, o grupo de pessoas autistas cometeu menos erros de percepção resistindo à ilusão.

Um outro estudo feito com palavras homógrafas replica um efeito análogo. A leitura correcta destas palavras implica ter em conta o contexto da frase para seleccionar o sentido adequado que lhes corresponde. Outro exemplo é um estudo feito com frases incompletas, por exemplo, the sea tastes of....  e no autismo verificou-se uma maior tendência para responder com base no detalhe, ou informação local da qual salt and peper é uma resposta típica, e não com base no significado global da frase, por exemplo, salt and water (ibidem, 1995).

Podemos pensar a mente autista como uma mente colectora assente em capacidades analíticas, e menos numa mente construtora de significados em contexto?

Conclusão

As duas teorias aqui discutidas situam a explicação da doença a um nível cognitivo. A teoria da mente explica as dificuldades de interacção social e linguagem e a teoria de fraca coerência central as diferentes capacidades perceptivas. Precisamente por ambas as teorias explicarem facetas diferentes não são teorias exclusivas, mas complementares. Por outro lado, a variabilidade imensa que percorre o espectro autista sugere que existem sub-grupos dentro do espectro tal como na variação da população normal, mais ou menos explicadas pelas presentes teorias. A investigação mais recente debruça-se sobre a multi-determinação cognitiva capaz de descrever a doença.

A partir do autismo, as ideias aqui reunidas querem sobretudo reforçar o entendimento de que existem diferentes estilos cognitivos, que por sua vez acarretam formas diferentes de acção no mundo. A teoria de fraca coerência central é aquela que melhor corrobora a ideia de que no autismo existe um estilo cognitivo diferente.

A capacidade de atribuir crenças aos outros está associada com a cognição social. As crenças não só contribuem para a construção do sentido das coisas para mim, mas são também um aspecto vital da comunicação humana e do estar no mundo, que está gravemente afectada no autismo.

Não me interessou aqui pôr em causa a autenticidade do conhecimento que temos da realidade. Mas bem mais me pareceu interessante espiar o processo de como construímos a nossa versão do real e a trama cognitiva envolvida. E isso não é mais do que um jogo de constante troca de informação nas diferentes direcções e dos diversos sistemas. E a luta deste jogo é uma luta pelo equilíbrio e pela coerência. O autismo resulta num oposto cognitivo em que esta luta de coerência não existe de forma tão vincada. Uma mente fragmentada? Uma mente em que a focalização no local, no pormenor, no detalhe faz sobressair as capacidades analíticas da cognição. Ou, se quisermos mesmo arriscar-nos na questão ontológica, uma mente mais fiel à essência das coisas?

Bibliografia

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MORTON, J., (no prelo), Understanding developmental disorders: a causal modelling approach, Oxford, Blackwell Publishing.


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