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Do
Corpo e das Crenças à Acção: O Mundo Autista
Susana
Caló
Faculdade
de Psicologia e de Ciências da Educação – Universidade
do Porto
Resumo
Este
artigo tem por tema o autismo e a análise de teorias avançadas na ciência
cognitiva, nomeadamente na psicologia. O caso do autismo mostra com
clareza a importância de uma teoria da mente para compreender o
comportamento do outro (e também o próprio). Aqui interessa-me
particularmente a forma como o corpo de crenças dos indivíduos (e o modo
como esse corpo de crenças é gerido) influi na motivação para os
diversos modos de agir. O entendimento de que existem diferentes modos de
cognição, diferentes formas de gerir o corpo das crenças, ajuda a
situar as acções do outro. Ora, as crenças são do domínio do
cognitivo, embora o seu substrato seja da ordem do biológico – esse
facto é aqui salvaguardado com alguma relevância. Direi então que as
crenças têm correlatos ao nível do biológico, aqui entendido como
corpo, mas não são redutíveis a um discurso descritivo, nem passíveis
de observação directa. As crenças resultam de uma combinação complexa
e dinâmica de fenómenos em constante actualização, que a linguagem da
biologia por si só não consegue abarcar. É nomeadamente no acesso ao
lugar das crenças do outro que recai a nossa compreensão dele e na
possibilidade de partilha destas crenças que reside a faculdade de cognição
social. O estudo do autismo, que envolve uma alteração de tais
funcionamentos cognitivos básicos, constitui uma importante chave para a
compreensão dessa faculdade. Dentro do espaço da cognição
apresentam-se por isso duas teorias complementares do autismo: a teoria da
mente e a teoria da fraca coerência central.
Do Corpo
Quando
se fala em corpo entende-se normalmente aquilo que pertence à ordem dos
sentidos: tocar uma superfície macia, ouvir uma sonata ou saborear um néctar
são tudo coisas que se fazem por meio de um corpo. Contudo, todas estas
sensações só ganham sentido quando chegadas ao cérebro, onde são
reconhecidas e integradas. Quando nos reportamos aos mesmos eventos, por
exemplo, ao toque de uma superfície macia, e queremos usar uma
terminologia estritamente física dizemos que há padrões de energia que
atingem a superfície da pele e que essa informação excitatória é
transmitida por impulsos eléctricos ao cortéx cerebral onde a informação
é processada e integrada.
Estamos
a falar em dois níveis diferentes do processamento da informação: um nível
primário, relativo aos receptores de informação sensorial e um nível
superior, associado às instâncias cerebrais superiores responsáveis
pela integração e organização da informação recebida. Tome-se o
corpo nesta dupla acepção, o que quer dizer que o binómio clássico do
problema filosófico mente-corpo comporta o binómio mente-cérebro – o
cérebro é corpo. Só a ideia de
que as sensações trazidas pelo corpo são conduzidas dos centros periféricos
até aos centros cerebrais superiores da percepção na sua forma intacta,
ou pura permitiria a separação entre mente e corpo. Mas falamos aqui de
processos que não acontecem de forma isolada. Também a um nível fisiológico
se verifica que a quantidade e qualidade de informação processada está
ela própria sujeita a coordenadas dos centros superiores de controlo. Por
exemplo, no sentido específico do tacto a literatura neuropsicológica
reporta que regiões corticais superiores envolvidas na percepção táctil
também influenciam a percepção num sentido descendente que modula a
experiência do objecto. Podemos imaginar que existe uma medida potencial
de estímulos sensoriais que estão aí, e dos quais não recebemos e
processamos todos, ou recebemos e processamos de forma diferente de acordo
com a nosso ‘predisposição’ cognitiva. Esta ideia será retomada
mais à frente quando falarmos em conexões feedforward e feedback.
A
separação entre sensação e percepção parece só ser possível num
plano teórico, pois a sensação não é um acto isolado do próprio acto
mental que implica o acto de perceber. E perceber é projectar
significados nas coisas no momento simultâneo em que elas se nos
apresentam. A percepção de um objecto pressupõe uma ideia desse mesmo
objecto e a convicção da sua existência.
Das Crenças
Entra
aqui a noção de crença proposta pela filosofia. Para a filosofia, as
crenças são estados mentais com conteúdo, ou intencionais, que estão
dirigidos para fora da mente (Miguens, 2003). Segundo a ideia anterior da
convicção da existência do objecto percebido (eu
acredito naquilo em que acredito),
as crenças comportam também uma pretensão de verdade em relação ao
seu conteúdo.
As
crenças são matéria da cognição: não se observam via directa, mas
podem ser inferidas indirectamente através da observação das acções.
Ao
situar as crenças no domínio do cognitivo, novamente não se quer com
isto dizer que são do domínio do cerebral. Segundo o modelo de descrição
das perturbações do desenvolvimento de Morton e Frith (1995) o cognitivo
são as teorias que preenchem o hiato entre os outros dois níveis de análise:
o biológico e o comportamental. É no cognitivo que reside a interpretação
das acções. Por outro lado, afirmar que o cognitivo não é da ordem do
biológico não é de todo pressupor que as crenças e a cognição não têm
correlatos biológicos ou físicos. Quer-se antes dizer que as crenças são
produto complexo de um conjunto alargado de processos que podem ser
individualmente descritos, mas cuja totalidade complexa não pode ser
fisicamente observada, nem derivada.
Traduzir
fisicamente os fenómenos psicológicos resulta numa perda deles. Como
diz Morton, “There will be neither causal adequacy nor descriptive
adequacy at the biological level. With behaviour and no cognition one
cannot get a proper story. With biology alone there will be no story at
all”.
Das Crenças à Acção
As
crenças constroem-se ao longo do desenvolvimento cognitivo a partir da
interacção do sujeito com o mundo. Robert Audi (2003) enumera quatro
fontes básicas das crenças: percepção, razão, memória, e auto-consciência,
assim como duas outras fontes indirectas, a indução e o testemunho.
Vejamos
então que quando toco a superfície de um livro posso sentir que essa
superfície é áspera. Nesse caso a crença tem origem pela percepção
do tacto. O mesmo seria dizer que o livro é vermelho porque vejo que o é.
Mas mesmo sem tocar no livro sou capaz de afirmar que este tem um peso. Não
posso especificá-lo mas é-me garantido pelo domínio dos conceitos em
questão (livro e peso) que qualquer objecto tem um peso e portanto deduzo
que o livro, por necessidade, também o terá. Neste caso estou a fundar a
minha crença na razão, que é o mesmo que dizer conceitos abstractos a
priori. No caso da memória é fácil verificar como surge a crença. Se,
por exemplo, ontem deixei o livro que li pela noite dentro em cima da
mesa, hoje, recordar-me-ei e acreditarei que o livro, efectivamente, se
encontra em cima da mesa. A fragilidade desta crença dá-se com a
passagem do tempo, pois as recordações tornam-se progressivamente menos
nítidas, o que em consequência origina um decréscimo no grau de
certeza. Também devido à acção de factores externos imprevistos – se
alguém mudar o livro de sítio – as crenças fundadas na memória são
postas em causa – será que deixei realmente o livro em cima da mesa? Ora este processo transporta-nos
para uma diferente fonte de crença, a introspecção. Encontro-me agora a
analisar a minha própria consciência, fazendo um exercício de reviver e
questionar as memórias e crenças anteriores, verificando se não estão
já confundidas com outros factores (estive também a ver um filme que me
poderá ter confundido). Esta análise, leva-me por exemplo à crença de
que de facto o livro foi deixado em cima da mesa. O meu exercício de
introspecção leva-me a assim crer, confirmando as anteriores crenças
fundadas na memória, que o livro está então em cima da mesa.
Imaginemos
que, tendo agora voltado a casa, verifico que o livro não se encontra no
seu lugar. Questiono então a pessoa que comigo habita, e descubro que por
uma questão de arrumação, e não sabendo que não tinha ainda acabado
de o ler, o colocou numa prateleira da estante. Ora por se tratar de uma
pessoa em quem confio e porque compreendo os motivos apresentados, tenho
todas as razões para facilmente acreditar que o livro se encontra na
prateleira. O testemunho é então uma importante fonte de crenças,
apesar de não ser uma fonte básica. Assim, e até ter vontade de o
continuar a ler, à partida não necessitarei de verificar pois acredito
no testemunho que me fizeram.
Finalmente,
a partir desta acção do meu colega de apartamento, posso induzir que uma
vez arrumado o livro na estante, sempre que algum livro meu não se
encontrar no local onde o deixei, encontrar-se-á provavelmente arrumado
em alguma prateleira da estante. A este processo em que partindo de um
particular se chega a um caso geral, chama-se indução. A crença fundada
na indução é formada na base de algo mais básico (percepção, memória,
consciência e razão) que é posteriormente generalizado.
As
crenças projectam-se sobre o mundo e dotam de compreensibilidade e
legitimidade (porque comportam um valor de verdade) a minha e a acção
dos outros. Compõe-se assim o mundo num todo organizado e coerente (com
as minhas crenças).
Assim,
se as crenças se fundam a partir da acção humana, percebamos também
que em momento algum deixam de a governar. Quando toco a superfície de um
livro sinto que essa superfície é áspera, mas isto já requer que eu
tenha uma ideia prévia de aspereza. Para além disso se já toquei neste
mesmo livro ou em livros onde, por exemplo, a textura da capa era
visualmente semelhante, as minhas expectativas em relação ao que vou
sentir influenciam a própria sensação.
A
investigação neuropsicológica dá consistência a esta ideia de
bidireccionalidade. Com bidireccionalidade quero dizer que a transmissão
de informação não se faz num só único sentido, mas se faz
simultaneamente num sentido ascendente (dos receptores sensoriais às instâncias
cognitivas) e num sentido descendente (das instâncias cognitivas aos
receptores sensoriais) sendo que o próprio momento de recepção deste
mesmo estímulo é já uma fusão entre estes dois tipos de informação.
Podemos usar a imagem do cordel que atravessa todo o nosso corpo ligando a
base ao topo. Na base estão os receptores de informação sensorial e no
topo mecanismos cognitivos de controlo que têm a função de coordenar o
fluxo de informação. Estas ligações agem tanto por relações de
feedforward - a informação é levada da base para o topo, ou em sentido
biológico, quando o output de um grupo de neurónios estimula as redes de
neurónios seguintes, - como de feedback - a informação parte do topo
para a base modificando as relações no sistema biológico, ou quando um
output produzido internamente modifica o input seguinte. Por exemplo, do
ponto de vista somatossensorial, nem todos os estímulos causam
necessariamente excitação no cortéx. Os mecanismos de controlo podem
modificar a transmissão de excitação da pele no seu caminho até ao
cortéx cerebral, por um processo de inibição descendente, que interage
com os neurónios aos diversos níveis na escala sensorial.
Neste
sentido, as crenças cumprem também a função de seleçcão dos estímulos
sensoriais a processar, o que por sua vez resulta na modelação das acções
humanas.
No
mundo social as crenças têm a função de nos permitir compreender e
inferir a acção dos outros. Na literatura psicológica a noção de crenças
está associada à capacidade de atribuir estados mentais a si próprio e
aos outros ou ter uma teoria da mente a que se chama no inglês mentalising
(Leslie, 1987). É esta
capacidade de aceder à mente dos outros que nos permite entender e
situarmo-nos no mundo social. Estamos pois face a um campo de
subjectividades que coincidem e desembocam num campo de
intersubjectividade comum, que é da ordem da cognição social.
Numa
perspectiva desenvolvimental, as crianças adquirem inicialmente
representações da realidade, e num plano posterior não só são capazes
de representar a realidade como também construí-la porque desenvolvem a
capacidade de inferir aquilo que as outras pessoas pensam e querem
comunicar. Como diz Frith, as
representações trazem o mundo à mente (2003).
Ao mundo Autista
Em
que resulta uma mente em que o corpo de crenças e a sua forma de gestão
são diferentes da generalidade dos casos? E em que medida esta diferença
se reflecte nas acções humanas?
Um
aspecto central do autismo é a incapacidade de atribuir crenças a si próprio
e aos outros. Ser capaz de ter uma teoria da mente dos outros é um
aspecto vital para a interacção humana e a sua ausência pode conduzir a
dificuldades de interacção social e comunicação verbal e não-verbal
que caracterizam esta doença. A capacidade de representar estados mentais
foi classicamente estudada através de testes de crenças falsas. O
exemplo mais clássico é a história da Sally e da Ann (Baron-Cohen,
Tager-Flusberg e Cohen, 1993). Trata-se de encenar uma história com duas
bonecas (Sally e Ann), um cesto, uma caixa e um berlinde e depois fazer
perguntas à criança. A
Sally tem um cesto e antes de sair coloca aí a sua bola. Enquanto a Sally
está fora do quarto, a Ann que é muito traquinas, troca a bola e
coloca-a na sua caixa. Quando a Sally chega e quer a bola, onde é que a
vai procurar? A resposta
correcta – a Sally vai procurar a bola no seu cesto – implica a
capacidade de inferir a sua crença falsa. As crianças autistas cometem
mais erros neste tipo de problemas e tendem a responder com base nas suas
próprias crenças – a Sally vai procurar a bola na caixa porque é lá que ela está.
Neste exemplo, a criança autista mostra não perceber que ver conduz a
saber e por isso atribui as suas próprias crenças à boneca. Face a uma dificuldade extrema
em colocar-se no lugar do outro e em inferir os seus comportamentos a
partir das suas crenças, todo o mundo mental se assume como uma surpresa
incompreensível. Também se diz por isso que pessoas autistas são mais
capazes no mundo físico do que no mundo mental.
A
ausência da capacidade de ter uma teoria da mente é apontada como o
princípio que prefigura a acção autista, sobretudo ao nível da cognição
social. Porém existem outros aspectos da doença que são melhor
explicados pela teoria de fraca coerência central (Frith, 1989, 2003),
tais como os comportamentos repetitivos e obsessões, particular atenção
ao detalhe, boa capacidade de memorização de sequências não
relacionadas e outras capacidades excepcionais em alguns domínios. Esta
teoria entende estes aspectos do autismo como vantagens de um tipo de
processamento da informação diferente, assim como um tipo de
processamento normal também tem aspectos positivos e negativos. A ideia
de um estilo cognitivo diferente que, por sua vez, se encontraria também
na variação da população normal é sugerida por alguns autores como
Happé (1999). Subjacente a esta ideia está a teoria de que a cognição
humana está orientada para um tipo de processamento da informação em
contexto, que produz significados englobantes.
Por
oposição, estaria um processamento da informação orientado para o
local e o pormenor, ou piece-meal
processing característico do autismo. Em termos de processamento
perceptivo, a diferença reside ao nível cognitivo. A realidade física
do objecto é a mesma, de um ponto de vista sensorial, os receptores de
informação estão calibrados de igual forma, mas a informação é
organizada e integrada como se de fragmentos não relacionados se
tratassem. Ora, momentos atrás tínhamos já percebido qual o papel dos
mecanismos superiores de controlo no input
da informação e na monitorização e actualização da acção do
sujeito, de acordo com este input e informação prévia relacionada. Os
estímulos podem ser processados, organizados e integrados, se a priori
forem considerados relevantes e em consonância com o material da experiência
anterior.
Vejamos
um exemplo perceptivo num estudo de Happé (1996) que comparou o
desempenho de pessoas autistas e pessoas não autistas em ilusões visuais
como os círculos Titchener. Estes círculos são uma ilusão visual que
consiste em duas imagens onde se vê um círculo rodeado de outros círculos.
Nas duas imagens o círculo interior é do mesmo tamanho com a diferença
de que os círculos que o rodeiam são maiores numa figura do que na
outra. A ilusão do tamanho do círculo interior é causada pelo tamanho
dos círculos exteriores. A resposta errada – o tamanho do círculo
interior é diferente nas duas figuras – sugere que as pessoas tendem a
ver a imagem de forma unificada, como um todo, e não pela análise
descontaminada das suas partes, e por isso se deixam ludibriar pelo
contexto. Em contraste, o grupo de pessoas autistas cometeu menos erros de
percepção resistindo à ilusão.
Um
outro estudo feito com palavras homógrafas replica um efeito análogo. A
leitura correcta destas palavras implica ter em conta o contexto da frase
para seleccionar o sentido adequado que lhes corresponde. Outro exemplo é
um estudo feito com frases incompletas, por exemplo, the
sea tastes of.... e no
autismo verificou-se uma maior tendência para responder com base no
detalhe, ou informação local da qual salt
and peper é uma resposta típica, e não com base no significado
global da frase, por exemplo, salt
and water (ibidem, 1995).
Podemos
pensar a mente autista como uma mente colectora assente em capacidades
analíticas, e menos numa mente construtora de significados em contexto?
Conclusão
As
duas teorias aqui discutidas situam a explicação da doença a um nível
cognitivo. A teoria da mente explica as dificuldades de interacção
social e linguagem e a teoria de fraca coerência central as diferentes
capacidades perceptivas. Precisamente por ambas as teorias explicarem
facetas diferentes não são teorias exclusivas, mas complementares. Por
outro lado, a variabilidade imensa que percorre o espectro autista sugere
que existem sub-grupos dentro do espectro tal como na variação da população
normal, mais ou menos explicadas pelas presentes teorias. A investigação
mais recente debruça-se sobre a multi-determinação cognitiva capaz de
descrever a doença.
A
partir do autismo, as ideias aqui reunidas querem sobretudo reforçar o
entendimento de que existem diferentes estilos cognitivos, que por sua vez
acarretam formas diferentes de acção no mundo. A teoria de fraca coerência
central é aquela que melhor corrobora a ideia de que no autismo existe um
estilo cognitivo diferente.
A
capacidade de atribuir crenças aos outros está associada com a cognição
social. As crenças não só
contribuem para a construção do sentido das coisas para mim, mas são
também um aspecto vital da comunicação humana e do estar no mundo, que
está gravemente afectada no autismo.
Não
me interessou aqui pôr em causa a autenticidade do conhecimento que temos
da realidade. Mas bem mais me pareceu interessante espiar o processo de
como construímos a nossa versão do real e a trama cognitiva envolvida. E
isso não é mais do que um jogo de constante troca de informação nas
diferentes direcções e dos diversos sistemas. E
a luta deste jogo é uma luta pelo equilíbrio e pela coerência. O
autismo resulta num oposto cognitivo em que esta luta de coerência não
existe de forma tão vincada. Uma
mente fragmentada? Uma mente em que a focalização no local, no pormenor,
no detalhe faz sobressair as capacidades analíticas da cognição. Ou, se
quisermos mesmo arriscar-nos na questão ontológica, uma mente mais fiel
à essência das coisas?
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©
Susana Caló, 2004. Todos os direitos reservados.
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