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N.º 4 — 2004 |
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Razão Instrumental e Razões para Agir Pedro Madeira Department of Philosophy – King's College London
ResumoOcasionalmente, argumenta-se que a racionalidade instrumental (racionalidade acerca de meios) pressupõe a racionalidade final (racionalidade acerca de fins). Na primeira secção, explicarei a convincente resposta de Blackburn a este tipo de argumento. Na segunda secção, falarei acerca do debate entre internalismo e externalismo acerca de razões para agir. Na terceira secção, falarei acerca das diferentes posições que os humeanos tomam acerca do princípio da racionalidade instrumental. Na quarta secção, juntarei as pontas das três secções precedentes e argumentarei que, se não formos cépticos acerca da racionalidade instrumental, então temos de ser externalistas no que diz respeito a razões para agir. Na quinta secção, tentarei responder a uma possível objecção ao meu argumento. Na sexta secção, exponho uma poderosa objecção de Broome ao internalismo acerca de razões para agir. Concluo com alguns comentários gerais na sétima secção.
1. Será que a racionalidade instrumental pressupõe a racionalidade
final?
1.
De acordo com o paradoxo do assassínio gentil, se matamos uma pessoa,
então temos o dever de a matar. O argumento é simples: 1. Se matares uma pessoa, então tens o dever de a matar com gentileza. 2. Se tens o dever de matar uma pessoa com gentileza, então tens o dever de a matar. \ Se matares uma pessoa, então tens o dever de a matar. A
estrutura é mais fácil de detectar usando símbolos: 1.
M ®
¨MG 2.
¨MG
®
¨M \
M ®
¨M Uma
possível resposta a este argumento seria a de que o problema reside na
segunda premissa. Afinal, só porque os cavalos alados podem
voar, isso não significa que todos os cavalos possam voar. Do
mesmo modo, não podemos dizer que, se temos o dever de matar uma pessoa
com gentileza, então temos o dever de a matar, porque nesse caso estaríamos
a ir de uma afirmação qualificada para uma afirmação não
qualificada. Esta é uma objecção superficial. Por vezes, não é ilícito ir de uma afirmação qualificada para uma não-qualificada (e conversamente). Por exemplo: do facto de que nos ordenaram que matássemos um cavalo alado específico segue-se que nos ordenaram que matássemos um cavalo específico. Afinal, os cavalos alados são cavalos. A mesma coisa sucede no que diz respeito à segunda premissa: se temos o dever de matar uma pessoa com gentileza, segue-se naturalmente que temos o dever de a matar, sendo que o assassínio deverá ser gentil. Por isso, é melhor que encontremos algo de errado com a primeira premissa. De facto, é comummente aceite que o problema com o argumento reside aqui. Em vez de “M ® ¨MG”, a segunda premissa devia ser “¨(M ® MG)”. Só que como é mais natural dizer em português que 1. Se matares uma pessoa, então tens o dever de a matar com gentileza. do que 1.* Tens o dever de: matar uma pessoa com gentileza, caso a mates. a formulação anterior é transportada inconscientemente para a forma lógica da frase e atribuímos ao operador âmbito curto [M ® ¨MG] em vez de âmbito longo [¨(M ® MG)]. 2. Blackburn acusa alguns anti-humeanos de cometerem uma falácia semelhante quando argumentam que a racionalidade instrumental pressupõe a racionalidade final[1]. Ele não refere nomes, mas não seria decerto audaz assumir que ele tinha em mente o artigo “The normativity of instrumental reason”, de Christine Korsgaard (publicado apenas um ano antes do livro de Blackburn). Blackburn parece estar a dizer o seguinte. De acordo com Korsgaard e companhia, as pessoas que acreditam no princípio de racionalidade instrumental (doravante “PRI”) costumam formulá-lo do seguinte modo: se queres o fim, então tens de querer o meio: F ® ¨M. Blackburn então pinta Korsgaard como olhando para esta formulação do princípio e dizendo: porque é que tenho de querer o meio? Obviamente, só se tenho de querer o fim: ¨F ® ¨M. Se o PRI fosse formulado desta maneira, então a racionalidade instrumental pressuporia a racionalidade final. Seria impossível ter uma razão para querer o meio sem ter uma razão para querer o fim. John Broome sintetiza bem esta posição: “A racionalidade instrumental poderia transmitir normatividade do fim para o meio, mas não pode, ela própria, conferir normatividade ao meio.”[2] Como Blackburn nota, o erro reside, tal como no caso do paradoxo do assassínio gentil, em atribuir inicialmente ao operador âmbito curto em vez de âmbito longo. Ao contrário do que Korsgaard parece pensar, a formulação do PRI que estava inicialmente na mesa não era “se queres o fim, então tens de querer o meio”, mas sim “tens de: querer o meio caso queiras o fim”. Ou seja, a formulação correcta do PRI devia ser, não “F® ¨M”, mas sim “¨(F
®
M)”. Se o PRI for formulado como “¨(F ® M)”, então o facto de termos um fim confere automaticamente normatividade ao meio. Esta normatividade é condicional, bem entendido; mas não é evidente que isso seja uma coisa má ou sequer indesejável. Aquilo que pedimos da razão instrumental é que reconheça a existência de uma certa relação entre o fim e o meio, não que emita juízos de valor sobre qualquer deles. É
de notar, de passagem, que alguns manuais de lógica (maus
manuais de lógica) cometem uma falácia semelhante à de confundir
¨(F
®
M) com F ®
¨M.
Por vezes dizem: se aceitamos as premissas
de um argumento válido, então temos necessariamente de aceitar
a conclusão. Tomado literalmente, isto é falso. Podemos tomar por
verdadeiras premissas que são absurdas, mas isso não gera qualquer
dever incondicional de aceitar a conclusão. O que é verdade, isso sim,
é que: temos necessariamente de: aceitar a conclusão de um argumento válido
se aceitamos as premissas. Não se trata de mero pedantismo salientar a
diferença entre as duas formulações, mas sim de evitar que o feitiço
da naturalidade de certas frases portuguesas seja transportado, com
consequências desastrosas, para a forma lógica dessas mesmas frases.
Acontece, por vezes, que uma frase que “soa bem” só serve para
obscurecer (ou distorcer, até) a forma lógica das afirmações que se
deseja verdadeiramente fazer. 3. Esqueça a racionalidade instrumental por um momento e considere uma condicional como C1 – Tens de acreditar que: se as galinhas põem ovos verdes, então as galinhas não põem ovos brancos. Neste caso, estamos justificados em acreditar na condicional, mas não estamos justificados em acreditar nem na antecedente nem na consequente. Agora considere a seguinte condicional: C2 – Tens de: raptar a família do político X se queres que o político X te pague um resgate. Estamos justificados em acreditar em C2. Note que, à semelhança de C1, é irrelevante saber se é ou não racional raptar a família de políticos ou forçá-los a pagar resgates. Essa é, certamente, uma questão interessante e difícil, mas não temos de a responder de modo a estabelecer a normatividade de C2. A racionalidade instrumental parece estar a cumprir a sua função: limita-se a dizer-nos qual o meio mais adequado para a prossecução do nosso fim, não emitindo qualquer juízo de valor sobre o fim ou sobre o meio. 4. Argumentei, então, que a formulação correcta do PRI era “¨(F ® M)”. Imagine, ao invés, que o PRI era formulado como Korsgaard queria: “¨F ® ¨M”. C2 ficaria, então, C2* – Se temos de forçar o político X a pagar um resgate, então temos de raptar a família dele. Como já disse, não é claro como devamos interpretar o operador de necessidade quando este tem por âmbito uma acção individual. Por outras palavras: não é claro como devamos interpretar as fórmulas “¨F” e “¨M”. Mas suponha que chegávamos, com efeito, a um consenso acerca da melhor interpretação de “¨F”, e que se tornava claro que, para um dado fim F, بF. Por uma questão de conveniência, podemos partir do princípio de que o fim em questão era o de forçar o político X a pagar um resgate. Dado que, de acordo com Korsgaard, a racionalidade instrumental só serve para transmitir normatividade do fim para o meio, isso significava que ficaríamos sem bases para atribuir qualquer peso normativo à decisão de raptar a família do político X. Note que não estou a dizer que seria legítimo inferir بM de بF e ¨F ® ¨M; tal equivaleria simplesmente a cair na falácia da negação da antecedente. Repito: o meu ponto não é o de que poderíamos inferir بM; simplesmente o de que ficaríamos sem bases para inferir ¨M. Independentemente de forçar políticos a pagar resgates ser ou não um acto com peso normativo incondicional, continua a ser verdade que raptar a família do político X é um meio adequado para o forçar a pagar um resgate; logo, esse é um acto ao qual devemos atribuir peso normativo condicional. A formulação de Korsgaard não consegue dar conta disto, e é precisamente por essa razão que é demasiado fraca para constituir a formulação correcta do PRI. Se formularmos o PRI como “¨(F ® M)”, por outro lado, o problema desaparece, como disse anteriormente. 5. Deverá ser evidente que, caso formulemos o PRI como ¨(F ® M), a racionalidade instrumental não pressuporá a racionalidade final. Pode ser atribuído peso normativo ao meio, ainda que não seja atribuído qualquer peso normativo ao fim. O facto de o peso normativo atribuído ao meio ser condicional não significa, de modo algum, que esse peso seja ilusório; significa apenas que é condicional – nada mais. Considere propriedades disposicionais como a fragilidade ou a maleabilidade. Dizer que um jarro é frágil é, presumivelmente, dizer que uma contrafactual parecida com “se caísse ao chão, partir-se-ia” é verdadeira desse jarro. (A contrafactual teria obviamente de ser formulada com mais cuidado e exaustividade se quiséssemos mesmo definir “fragilidade”. Mas agora não estou interessado em definir “fragilidade”.) No entanto, a fragilidade não é uma propriedade ilusória – é bem real, como qualquer pessoa que já tenha deixado um jarro cair ao chão saberá. O facto de uma propriedade ser disposicional não significa que seja uma propriedade ilusória; significa apenas que é disposicional – nada mais. Dizer que um jarro é frágil é dizer que se partiria se caísse ao chão. Do mesmo modo, de acordo com “¨(F ® M)”, dizer que o meio tem peso normativo condicional é dizer que o meio teria peso normativo incondicional se o fim tivesse peso normativo incondicional. É possível ver aqui uma semelhança entre “¨(F ® M)” e “¨F ® ¨M”. Em ambos os casos, se quisermos obter a consequente teremos de ter “¨F” como premissa menor:
Logo, ¨M.
Logo, ¨M. 5.
Há um ponto importante em relação ao qual discordo de Korsgaard, e um
ponto importante em relação ao qual concordo com ela. Ela
acha que temos de fornecer uma explicação unificada do que significa ter
uma razão para agir e da normatividade da racionalidade instrumental.
Aqui concordo com ela. Só
que ela parece pensar que temos forçosamente de começar por fornecer uma
explicação do que significa ter uma razão para agir antes de
podermos fornecer uma explicação da normatividade da racionalidade
instrumental. Aqui discordo. Penso que há que percorrer precisamente o
caminho inverso: temos de começar por fornecer uma explicação da
normatividade da racionalidade instrumental antes de podermos
fornecer uma explicação do que significa ter uma razão para agir. Juntando
estas duas posições, o fio condutor do argumento central deste artigo
fica imediatamente à vista. Nesta primeira secção, esbocei um quadro de
como devemos ver a racionalidade instrumental. Na segunda e terceira secções,
preparo o terreno para a quarta secção. Na quarta secção, argumento
que se o modo como penso que devemos ver a racionalidade instrumental está
certo, então isso tem consequências imediatas para o domínio das razões
para agir. 2. Internalismo e externalismo acerca de razões para agirOs termos “internalismo” e “externalismo” referem-se a um leque amplo de posições, tanto em ética como noutras áreas. No entanto, a única distinção em que estarei interessado aqui é a distinção entre internalismo acerca de razões para agir e externalismo acerca de razões para agir. Doravante, quando falar em internalismo terei em mente o internalismo acerca de razões para agir; e quando falar em externalismo terei em mente o externalismo acerca de razões para agir. Em “Internal and external reasons”, Bernard Williams define um internalista como alguém que diz que todas as nossas razões para agir derivam, de algum modo, do nosso conjunto motivacional; um externalista será alguém que rejeita isto. (Mais à frente fornecerei uma caracterização mais precisa do internalismo.) O nosso conjunto motivacional engloba os nossos desejos, as nossas intenções, as nossas animosidades, o nosso sentimento de lealdade para com alguém, o nosso respeito pelos mais velhos, etc.. Em Ruling Passions (pp. 264-266), Blackburn argumenta que a distinção entre internalismo e externalismo é irremediavelmente confusa porque mistura linguagem normativa com linguagem psicológica. O argumento dele é o seguinte. Dizer que alguém tem uma razão para fazer X pode constituir um comentário acerca da psicologia dessa pessoa, ou um comentário normativo sobre se essa pessoa deve ou não fazer algo. Williams argumenta que o humeano não pode acreditar em razões externas, mas Blackburn discorda. Ele diz que há um sentido perfeitamente inteligível em que se pode dizer que um humeano “pode razoavelmente exortar um agente a estar motivado, digamos, para evitar crueldade desnecessária, independentemente do tipo de desejos que efectivamente tenha. Ao dizer isto ele faz uso dos seus próprios valores, como é obvio; que mais poderia ele estar fazer?” (p. 264). Com efeito, o exemplo de Owen Wingrave (que Williams usa em “Internal and external reasons”) pode parecer poder ser interpretado à maneira de Blackburn. Os pais de Owen estão a tentar convencê-lo a alistar-se no exército, algo que ele não encara com grande entusiasmo. Talvez pareça que os pais de Owen estão a “fazer uso dos seus próprios valores” quando estão a tentar fazê-lo mudar de ideias. No entanto, Williams deixa bastante claro que a interpretação de Blackburn não é a interpretação que ele, Williams, tem em mente. Ele diz explicitamente que quando um externalista diz que uma pessoa tem uma razão externa para fazer X, um externalista quer que essa pessoa, enquanto agente racional, reconheça a obrigatoriedade de fazer X. O desconforto que Blackburn sente em relação à distinção entre razões internas e externas é muito provavelmente motivado pela sua posição “projectivista” em relação à ética.[3] De acordo com Blackburn, quando emitimos um juízo de valor, estamos sempre a manifestar uma pró-atitude em relação a algo. Ele defende que, quando dizemos “Não devias bater em criancinhas”, o que estamos verdadeiramente a dizer é: “Eu tenho uma pró-atitude contra bater em criancinhas, e queria que tu também tivesses uma pró-atitude contra bater em criancinhas”. Não é de espantar, portanto, que ele não consiga fazer qualquer sentido do externalismo, tal como Williams o define. Por isso,
apesar daquilo que o próprio Blackburn diz, é legitimo classificarmo-lo
como internalista. 3. Os humeanos e o princípio da racionalidade instrumentalBlackburn discute o PRI nas págs. 238-242. A exposição das posições dele está misturada com a exposição das de Hume, pelo que é difícil dizer exactamente onde é que as posições de Hume acabam e as de Blackburn começam. No entanto, Blackburn mostra mais do que simples simpatia passageira pela posição humeana de que “Até a pessoa que não usa os meios para o seu fim não é necessariamente irrazoável [unreasonable]”. Isto significa que Blackburn não acredita no PRI. Não usar os meios necessários para os nosso fins reduz-se a um defeito “de vontade ou de paixão, não de razão.” (p. 239) Neste ponto poderá surgir uma dúvida. Eu agora estou a dizer que Blackburn é um céptico acerca da razão instrumental; mas então eu não disse que ele acreditava no PRI, formulado como “¨(F ® M)”? Não. Não foi isso o que eu disse. Eu disse que ele achava que o PRI devia ser formulado como “¨(F ® M)”, não disse que ele acreditava no PRI. A posição de Blackburn é a seguinte: “eu não acredito no PRI; mas, se acreditasse, formulá-lo-ia como ‘¨(F ® M)’ ”. James Dreier é, neste aspecto, um humeano muito mais razoável. Ele acredita no PRI, a favor do qual argumenta em “Humean doubts about the practical justification of morality”. E penso que ele também concorda que o PRI deve ser formulado como “¨(F ® M)”. Ele diz: “[A]s razões particulares geradas [pelo PRI] são todas hipotéticas. Mas [o PRI] não é, em si, hipotético.” (p. 96) No
entanto, é bastante evidente que ele não acredita no externalismo. Na próxima
secção, argumentarei que este é um erro: aceitar o PRI, formulado como “¨(F
®
M)”, força-nos a aceitar o externalismo. Isto
significa que o argumento da próxima secção é um argumento ad
hominem dirigido apenas a humeanos como Dreier; não é dirigido a
humeanos como Blackburn. 4. A conclusão certa: externalismo1. Partamos do princípio de que Blackburn está certo e de que “¨(F ® M)” é a formulação correcta do PRI. É agora oportuno notar que ¨(F
®
M) ®
(¨F
® ¨M). Isto
significa que a formulação de Korsgaard se segue, com efeito, da formulação
de Blackburn. Isto faz sentido; se o fim “requer normativamente” o
meio (usando a terminologia de Broome), então, se temos uma razão para
querer o fim, também temos uma razão para querer o meio. 2. Presumivelmente, um internalista pensará que a formulação de Korsgaard, “¨F ® ¨M”, é para ser parafraseada como “se tenho uma razão interna para querer o fim, então tenho uma razão interna para querer o meio”. O problema reside no seguinte: embora talvez pareça razoável oferecer esta paráfrase internalista de “¨F ® ¨M”, parece impossível fazer o mesmo para “¨(F ® M)”. Parece que assim que nos comprometemos a aceitar o PRI, formulado como “¨(F ® M)”, também nos comprometemos a aceitar uma versão qualquer de externalismo (embora não seja claro com que versão é que nos comprometemos, exactamente). 3.
Olhemos para o argumento em maior detalhe. De acordo com o internalismo, “¨F ® ¨M” seria presumivelmente parafraseada como “se tenho uma razão interna para querer o fim, então tenho uma razão interna para querer o meio”. Poder-se-ia objectar, contra Williams, que posso não ter qualquer desejo de usar algo que é útil como um meio para o meu fim. Logo, dado que as razões internas se fundam apenas em desejos, eu posso ter uma razão interna para querer o fim sem ter uma razão interna para querer o meio. Portanto, de acordo com o internalismo é falso que ðF ® ðM. Esta objecção não colhe. A teoria de Williams é suficientemente sofisticada para lidar com ela. Ele reconhece que podemos ter uma razão interna para fazer algo sem sabermos que a temos – e mesmo se achamos convictamente que não temos. Suponha que quero beber gim. De acordo com Williams, tenho uma razão interna para beber gim. Suponha agora que alguém me oferece um copo de gim. Como a pessoa em questão é conhecida por pregar constantemente piadas de mau gosto, acredito que o copo não tem gim. Terá uma qualquer mixórdia repugnante, como vinagre com sal e especiarias, penso para mim próprio. Consequentemente, não tenho o desejo de beber desse copo. No entanto, diz Williams, tenho à mesma uma razão interna para beber desse copo. Isto porque se olhasse com mais atenção e visse que havia mesmo gim no copo, passaria a ter o desejo de beber desse copo. Portanto, de acordo com Williams, desejar fazer X não é uma condição suficiente ou sequer uma condição necessária para ter uma razão interna para fazer X. Não é uma condição suficiente porque o nosso desejo de fazer X pode estar fundado em crenças falsas ou em falta de informação. Não é uma condição necessária porque o facto de não desejarmos fazer X pode, de igual modo, dever-se a crenças falsas ou a falta de informação. Por isso, o facto de que nem sempre queremos o meio para o nosso fim não constitui grande problema para o internalismo. O internalismo pode, então, explicar a verdade de “¨F ® ¨M”. Então e “¨(F ® M)”? De acordo com o internalismo, “¨(F ® M)” seria presumivelmente parafraseada como “eu tenho uma razão interna para: querer o meio se quero o fim”. Poderá um internalista dizer que esta paráfrase é tão eficaz como a paráfrase anterior? Não me parece. (Um dos principais problemas que encontrei no decurso da redacção deste artigo foi o de tentar expressar de modo claro a objecção que apresento no próximo parágrafo. Em versões anteriores, o modo como formulava a objecção parecia-me sempre obscuro. Acho que agora está melhor. No entanto, dado que um dos pontos principais do artigo está contido neste parágrafo, peço que não o leia apressadamente!) De acordo com Williams, nós temos uma razão interna para fazer X se e só, ou (1) desejamos fazer X e o desejo de fazer X não se funda em falsas crenças ou falta de informação, ou (2) o desejo de fazer X poderia ser derivado dos nossos desejos presentes se não tivéssemos crenças falsas ou falta de informação. O problema agora é o seguinte. Se eu deixasse de ter o desejo de: adoptar os meios necessários para os meus fins, dexaria por isso de ser verdade que tenho uma razão para: querer o meio se quero o fim? Não. Eu tenho uma razão para: querer o meio se quero o fim independentemente dos meus desejos. O facto de eu ter uma razão para: querer o meio se quero o fim nada tem a ver com os meus desejos, presentes ou futuros. Estar a querer explicar o facto de eu ter uma razão para: querer o meio se quero o fim em termos dos meus desejos seria estar a inverter a ordem natural da explicação. (Seria como dizer que a toalha é branca porque pertence ao conjunto de coisas brancas em vez de dizer que a toalha pertence ao conjunto de coisas brancas porque é branca.) É o facto de que tenho uma razão para: querer o meio se quero o fim que explica porque é que é do meu interesse querer o meio se quero fim. Não é o facto de querer o meio se quero o fim ser do meu interesse que explica porque é que tenho uma razão para: querer o meio se quero o fim. Logo, “eu tenho uma razão interna para: querer o meio se quero o fim” não é uma paráfrase aceitável de “¨(F ® M)”. Logo, “¨(F ® M)” só pode ser parafraseado de modo externalista. Até agora estive a falar apenas de razões para agir, mas um argumento semelhante pode ser avançado relativamente a razões para acreditar, como já tinha dado a entender na primeira secção com o exemplo das galinhas que punham ovos verdes. A verdade de “(P ® Q & P) ® Q” explica porque é que é do nosso interesse acreditar em Q dado que acreditamos em (P ® Q & P). Não é o facto de que é do nosso interesse acreditar em Q dado que acreditamos em (P ® Q & P) que explica porque é que é verdade que (P ® Q & P) ® Q. 4.
Como já disse, parece-me que “¨F
®
¨M”
tanto pode, à partida, ser parafraseado de modo
internalista como de modo externalista. Não me parece que seja possível
argumentar directamente a favor de uma interpretação internalista
ou externalista de ҬF
®
¨M”. Mas é possível argumentar indirectamente a favor de uma argumentação externalista de “¨F ® ¨M”. Como já disse, ¨(F ® M) ® (¨F ® ¨M). Dado que, como argumentei há pouco, temos de fornecer uma paráfrase externalista de “¨(F ® M)”, também temos de fornecer uma paráfrase externalista de “(¨F ® ¨M)”. 5.
O meu argumento geral nesta secção foi mais ou menos o seguinte: (i) Ou “¨(F ® M)” e “¨F ® ¨M” devem ambos ser parafraseados ao modo internalista, ou “¨(F ® M)” e “¨F ® ¨M” devem ambos ser parafraseados ao modo externalista. (ii) “¨(F ® M)” deve ser parafraseado ao modo externalista. (iii) Logo, “(¨F ® ¨M)” deve ser parafraseado ao modo externalista. 6. Na próxima secção, tentarei responder a uma objecção ao argumento. No entanto, devo antes fazer duas breves clarificações. Em primeiro lugar, note-se que o argumento precedente não pressupõe que o PRI, formulado como “¨(F ® M)”, é verdadeiro. Seria perfeitamente possível aceitar o argumento precedente e ser-se céptico em relação à racionalidade instrumental e céptico em relação às razões para agir. Em
segundo lugar, o argumento precedente não tenta mostrar que há razões
externas para agir; apenas que, se há razões para agir, então essas razões
são externas. Da afirmação “Todas as razões para agir são
externas” não se segue que “Há razões externas para agir” (ao
contrário do que a lógica aristotélica nos diz). Para mostrarmos que há
razões externas, acho que teríamos de argumentar a favor de uma posição
objectivista relativamente aos valores éticos, estéticos e políticos
– e isso não é algo que tenha tentado fazer aqui. 5. Uma objecção ao argumentoO argumento só tem duas premissas. A segunda premissa parece-me firme. Não estou a ver como atacá-la. Suspeito que os ataques ao argumento se centrarão na segunda premissa. Eu disse explicitamente na primeira secção que concordava com Korsgaard num ponto: que era necessário fornecer uma explicação unificada do que significa ter uma razão para agir e da normatividade da racionalidade instrumental. Uma objecção à segunda premissa porá isto em questão. Uma objecção à segunda premissa dirá que, se não faz sentido tentar fornecer uma explicação unificada das duas coisas, então “¨” não deve ser interpretado do mesmo modo em “¨(F ® M)” e em “¨F ® ¨M”. A ideia de ter uma explicação da normatividade da racionalidade instrumental que esteja desligada de uma explicação do que significa ter uma razão para agir faz-me confusão. Vou tentar explicar porquê. Suponhamos que, daqui a uns tempos, pouco depois de acabar de escrever este artigo, me encontro a deliberar sobre se hei-de ou não fazer X. Nessa altura, terei ainda bem presente que o PRI deve ser formulado como “¨(F ® M)”. Portanto, saberei que, quer decida fazer X, quer não, terei, em qualquer dos casos, uma razão para: querer o meio para X se quiser X. Após ponderar demoradamente, chego à conclusão de que tenho uma razão para fazer X. De seguida, dou-me ao trabalho de fazer alguma pesquisa e descubro que fazer Y constitui o meio mais adequado para alcançar X. Ao fazer esta descoberta, vejo que a normatividade do fim X é transmitida para o meio Y. O problema agora vai ser: como é que se explica esta transmissão de normatividade do fim para o meio se a racionalidade instrumental nada tem a ver com as minhas razões para agir? Se não é a racionalidade instrumental que está a transmitir a normatividade do fim para o meio, então como é que essa normatividade está a ser transmitida? Uma explicação do que significa ter uma razão para agir não consegue dar conta do serviço sozinha. Uma explicação do que significa ter uma razão para agir orienta-me na escolha dos fins, mas nada me pode dizer acerca da relação normativa entre esses fins e os meios que terei de usar para os alcançar. Esse trabalho compete à racionalidade instrumental. Por outras palavras: porque é que havia de ser verdade que ¨F ® ¨M? De acordo com a minha posição, a solução é simples e elegante: porque ¨(F ® M) e ¨(F ® M) ® ¨F ® ¨M. Como é evidente, o preço a pagar por esta solução é que temos de nos comprometer com uma explicação unificada da racionalidade instrumental e do que significa ter uma razão para agir. Mas, como já deixei bem claro, esse não é um preço proibitivo ou sequer indesejável. Muito pelo contrário: é um preço que não me importo nada de pagar, dado que fortalece a minha defesa do externalismo. Brevemente, a minha objecção é então a seguinte. Transmitir a normatividade do fim para o meio não é a única coisa que a razão instrumental é suposto fazer, mas é algo que também é suposto ela fazer. Contudo, se a racionalidade instrumental e as razões para agir estivessem desligadas, então não se vê como é que a normatividade do fim poderia ser transmitida para o meio. Logo, a racionalidade instrumental e as razões para agir não podem estar desligadas. Devemos fornecer uma explicação unificada de ambas. 6. A objecção de Broome ao internalismoAbstive-me até agora de apresentar objecções directas ao internalismo principalmente por uma questão de organização de conteúdos. Seria confuso para o leitor eu estar ao mesmo tempo a apresentar um argumento central a favor do externalismo e depois oferecer ataques independentemente motivados ao internalismo. Mas agora já posso fazê-lo. Broome apresentou recentemente uma objecção ao internalismo que considero devastadora (em “Are intentions reasons?”). A objecção é mais ou menos a seguinte. Imagine que quero fazer A ou B, mas que estou indiferente entre fazer A e fazer B. (Por exemplo: quero comprar chocolate, mas estou indeciso entre duas marcas.) Após muito reflectir, vejo que continuo indiferente entre fazer A e fazer B, e desisto: decido atirar uma moeda ao ar. Se sair cara, faço A; se sair coroa, faço B. Sai cara – eu decido fazer A. De acordo com o internalismo, a partir do momento em que decido fazer A passo a ter uma razão interna para fazer A. Mas como é isso possível? Então antes não tinha uma razão interna mais forte para fazer A do que para fazer B, e agora, só por decidir fazer A, já tenho? Isto não soa bem. Deliberar
é andar à procura de razões para agir, não é tentar descobrir o que
vou decidir a seguir. O internalismo implica que, se eu conseguisse
descobrir quais as minhas decisões futuras, também descobriria quais as
minhas futuras razões para agir. Mas isto é falso: não é assim que se
delibera. Logo, o internalismo é falso. 7. Conclusão
Neste
artigo defendi várias posições. Defendi que o PRI deve ser formulado
como Ҭ(F
®
M)”. Defendi que, se formularmos assim o PRI,
então temos de aceitar o externalismo acerca das razões para agir. E
também defendi que há razões independentes para acreditarmos que o
internalismo é falso. O
meu próximo objectivo será mostrar que devemos aceitar o PRI. Já tenho
algumas ideias gerais sobre como poderia tentar fazê-lo. Também gostava
de mostrar que há razões externas para agir, mas infelizmente essa é
uma tarefa para que não vejo fim à vista. Bibliografia:
Blackburn, Simon: Ruling passions,
1998, Clarendon Press Broome,
John: “Normative requirements”, “Normative practical reasoning”,
“Reasons”, “Are intentions reasons?”, “Practical reasoning”,
todos em http://users.ox.ac.uk/~sfop0060/ Dancy,
Jonathan: Practical reality, 2000, OUP Dreier,
James: “Humean doubts about the practical justification of morality”,
em Ethics and practical reason, 1997, Cullity & Gaut (Eds.),
OUP Korsgaard,
Christine: “The normativity of instrumental reason”, em Cullity &
Gaut (Eds.) Williams, Bernard: “Internal and external
reasons”, 1981, em Moral Luck, OUP [1] Ruling Passions, pp. 242-243. [2] “Normative requirements”, p. 12. [3] Na altura em que escreveu Ruling Passions, ele já não gostava muito de usar esse termo, mas não há dúvida de que continua a descrever bem a posição dele. ©
Pedro Madeira, 2004. Todos os direitos reservados.
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